APEDE


Rumo à pós-democracia

Publicado em Be afraid be very afraid por APEDE em 14/11/2011

AO ACEITARMOS GOVERNOS ILEGÍTIMOS LEGITIMAMOS FORMAS EXTREMAS DE OPOSIÇÃO 

Mais um texto excelente de Daniel Oliveira, que casa muito bem com o que dissemos aqui.

3 Respostas para 'Rumo à pós-democracia'

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  1. Zé Manel disse,

    Levando um pouco mais longe o raciocínio de alguns comentadores, poderíamos dizer que a dívida é legítima por ter sido contraída por governos legítimos, que os cortes nas pensões e subsídios são legítimos por terem sido autorizados por parlamentos legítimos, que o buraco das contas da Madeira é legítimo por ter sido contraído por um cacique legítimo, que o buraco do BPN é legítimo por ter sido nacionalizado legítimamente, que as PPPS são legítimas, que os próprios robalos do sucateiro são legítimos porque foram recebidos por quem actuava legítimamente ou que o Nogueira actuou legítimamente ao trair a classe assinando acordos, memorandos e quejandos.
    Assim sendo, os que destruiram os sensores das portagens da via do Infante actuaram ilegítimamente, bem como os manifestantes indignados do 15 de Outubro que ocuparam ilegítimamente as escadarias do Parlamento(contra a vontade da polícia legítima) para aí realizarem uma assembleia popular ilegítima onde dezenas de pessoas não alinhadas intervieram livremente sem obedecer a nenhum defensor do pensamento único.
    Seguindo o mesmo raciocínio, o 25/4 foi ilegítimo porque depôs um regíme legítimo, reconhecido pela comunidade internacional, o povo egípcio foi ilegítimo ao obrigar à deposição de um ditador legítimo e poderíamos continuar indefinidamente de legitimidade em legitimidade até finalmente percebermos que há afinal legitimidades e legitimidades e que umas são infinitamente mais legítimas que outras.
    A propósito, não foi o senhor do bigodinho (a quem Brecht chamava legítimamente de “pintor”)que foi eleito legítimamente em eleições livres??? E ainda querem mais legitimidades? Já não há pachorra!!!!

    • Mário Machaqueiro disse,

      Ok, Zé. Mas percebes que não é esse o raciocínio do Daniel Oliveira. Porque é sempre possível argumentar que a ilegitimidade política de um governo legitimado em eleições começa quando, por exemplo, ele viola o contrato que fez com os eleitores ao fazer exactamente o contrário do que prometeu na campanha eleitoral ou, como fez Hitler, utiliza o processo democrático das eleições para, chegado ao poder, destruir a própria democracia, etc., etc.
      O que o texto do Daniel Oliveira e o teu comentário obrigam a equacionar é a necessidade de repensarmos o significado de «legitimidade democrática». Percebemos que a eleição em sufrágio universal não chega para definir o conteúdo dessa legitimidade. Como percebemos todos os limites inerentes a uma democracia reduzida ao modelo da representação parlamentar.

      • Zé Manel disse,

        Claro. Eu confesso que me apeteceu ser mauzinho e ironizar um pouco. Mas, de facto a legitimidade (democrática ou não) é um valor que está cada vez mais em causa, como a própria ideia de democracia, ou até a ética. Todos esses valores são hoje tomados como empecilhos e verdadeiros inimigos do progresso da economia de mercado, tanto na Europa como nos EUA. É ver como os nossos amigos yankees não conseguem responsabilizar um único dos grandes gestores da economia de casino que levou ao desastre global (pesem embora algumas tentativas tímidas nesse sentido). O próprio projecto europeu tem vindo a acentuar o seu pendor anti-democrático e as soluções preconizadas vão sempre no sentido de capturar os resquícios de liberdade que alguns países ainda vão tendo, de modo a que o capital financeiro tenha cada vez mais liberdade de continuar a fazer os seus jogos com um mínimo de supervisão por parte dos povos visados. O facto de este ser um caminho claramente sucidário, não parece preocupar nem o dueto “Mercozy”, nem nenhum dos outros grandes responsáveis. Algo vai ter de ser feito muito em breve. Já há empresas a exigir à Grécia preços em Dracmas….sinal de que o Euro não deve ir muito mais longe. Mas alguém está a planear o que fazer a seguir??
        Os nossos dirigentes persistem na psicose do bom aluno e nem sequer equacionam alternativas. É a política-que-temos.


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