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AS NOSSAS RESPOSTAS AO «PÚBLICO»: DECLARAÇÕES DE MÁRIO MACHAQUEIRO

Posted in Educação por APEDE em 30/05/2009

A edição de hoje do jornal «Público» traz diversas declarações de membros dos movimentos independentes, nomeadamente da APEDE. As nossas respostas foram, porém, muito mais desenvolvidas do que os excertos que o jornal publicou. Aqui estão elas, começando pelas declarações de Mário Machaqueiro.

– O surgimento e acção dos movimentos independentes de professores mudou a luta dos professores? Porquê? Como? Ou os sindicatos “venceram”?

O surgimento dos movimentos independentes mudou, de facto, a luta dos professores. Em primeiro lugar, constituíram-se como uma voz crítica e vigilante da acção dos sindicatos, colocando-os sob um escrutínio público inédito nos combates laborais dos professores, forçando as direcções sindicais a dar conta da sua actuação perante a classe docente e a exporem-se ao debate público de uma forma que há muito não acontecia em Portugal. Além disso, os movimentos independentes deram um contributo fundamental para a radicalização da luta dos professores de um modo que contrariou uma boa parte das agendas sindicais: sem a acção desses movimentos, sem, por exemplo, a convocação da manifestação de 15 de Novembro de 2008, o primeiro período deste ano lectivo não teria conhecido uma mobilização tão maciça nas escolas contra o modelo ministerial de avaliação do desempenho, mobilização que ia claramente ao arrepio de tudo o que decorria do memorando de entendimento assinado entre o Ministério e a Plataforma dos sindicatos. Finalmente, as manifestações de 8 de Março e 8 de Novembro do ano passado não teriam obtido a adesão tão esmagadora dos professores se os movimentos independentes não estivessem no terreno, junto das escolas, a contribuir para a mobilização dos colegas.Quanto à suposta “vitória” dos sindicatos, é preciso frisar que os movimentos independentes nunca pretenderam, nem pretendem, competir com os sindicatos na representação dos professores. Pretendem apenas ser uma presença crítica em que se reconheçam todos os professores descontentes com o facto de a agenda dos sindicatos estar muitas vezes condicionada por estratégias que não coincidem, necessariamente, com os interesses genuínos dos professores. É um facto que, a partir de Janeiro de 2009, os sindicatos retomaram, em grande medida, o controlo e a direcção da luta dos professores. O facto de terminarmos este ano lectivo num impasse, com resultados objectivamente decepcionantes face às expectativas criadas e às condições que existiam em Dezembro de 2008, e sem uma perspectiva de luta continuada e coerente, significa que a orientação impressa pelas direcções sindicais à luta dos professores não está a ser a mais determinada e eficaz.

– Esperava que a ruptura pudesse ter sido maior?

A grande maioria dos professores e os seus movimentos independentes esperavam, em Dezembro de 2008, que o desenlace da luta fosse rápido e, sobretudo, pudesse dar resposta satisfatória às suas esperanças. Lembremos todo o receio que o Governo e os círculos do PS experimentavam, na altura, perante a força da recusa massiva que os professores manifestavam nas ruas e nas escolas. O cenário estava criado para uma revogação do modelo de avaliação e para uma revisão drástica do ECD. Acontece, porém, que tudo foi, em grande parte, desbaratado com a opção por uma forma de luta – a recusa individual de entrega dos objectivos individuais – que se revelou desajustada e ineficaz. Aqui as culpas são, a meu ver, partilhadas: os sindicatos deixaram os professores entregues às consequências das suas escolhas individuais, contribuindo para a desagregação de um corpo docente que se tinha mostrado, até então, coeso e unido em torno do essencial; mas também os movimentos independentes não vislumbraram suficientemente os efeitos perniciosos dessa forma de luta, embora, em Janeiro, tenham sabido insistir na necessidade de estratégias de combate mais radicais e mais assentes num esforço colectivo, capaz de reunificar os professores.

– Quando iniciaram as movimentações, contava chegar ao fim do ano lectivo nesta situação no que respeita tanto à avaliação, como ao ECD?

É evidente que, por tudo o que disse atrás, quando iniciámos as nossas movimentações, que incluem a Manifestação de 15 de Novembro e as iniciativas dos Encontros Nacionais de Escolas e de Professores em Leiria, pensávamos ser possível, e até mesmo fundamental, inverter as políticas deste Governo já durante este ano lectivo. O resultado que temos pela frente é obviamente decepcionante. Mas tudo está ainda em aberto, dado o novo ciclo político que se abrirá com as próximas eleições. Um resultado eleitoral claramente desfavorável ao PS é uma oportunidade que os professores não deixarão de explorar.

– Entregou os OI? Na sua escola foram mais professores que entregaram ou o inverso?

Não entreguei os objectivos individuais. Ainda tenho dúvidas sobre se entregarei a auto-avaliação (se o fizer, não será certamente nos moldes da ficha cozinhada pelo Ministério da Educação). Na minha escola, apesar de um abaixo-assinado a exigir ao Ministério a suspensão do modelo de avaliação que foi subscrito por 130 professores num universo de 140, a maioria dos professores acabou por ceder aos receios, muitos deles alimentados pela desinformação e pela chantagem emanada do Ministério, e entregou os OI.
– Como está o ambiente na sua escola? Os professores estão divididos, há mal-estar, por causa das posições adoptadas quanto à avaliação?
O mal-estar que possa existir na minha escola é mais sussurrado do que público. Ainda estamos longe das fracturas que poderão emergir de um processo de avaliação que põe as pessoas a competir por lugares em quotas arbitrariamente impostas. Mas não tenho dúvidas de que essas fracturas acabarão por emergir, pois todo o sistema está desenhado numa lógica de “dividir para reinar”. É um campeonato que me deprime e do qual me afasto profilacticamente.

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