A extensão do vazio

É difícil acrescentar algo ao diagnóstico implacável que o Paulo faz neste post. Com a mais recente teimosia do Ministério da Educação em manter a fraudulenta avaliação do desempenho para efeitos de graduação no concurso de professores, foi colocado o prego que faltava no caixão da história recente da luta e da resistência dos professores.

Foi uma história com momentos bonitos.

Foi uma história que marcou uma reviravolta no tocante à monopolização das lutas laborais por parte das organizações tradicionais (sindicatos), graças à emergência de novos actores (blogosfera e movimentos independentes).

Foi uma história que, sabemo-lo dolorosamente, poderia ter ido muito mais longe.

Mas há que reconhecer que ela corresponde a uma página definitivamente virada. Só nos resta ter a força e o engenho para encetarmos a escrita de novas páginas em novos livros. Este está, infelizmente, encerrado.

O que fica no terreno é quase nada, e o que sobra é pouco mais do que mau:

  • Um ECD sem promulgação à vista, que, mesmo depois de promulgado, irá preservar graves estrangulamentos na progressão profissional dos professores, mantendo muitas das assimetrias e desigualdades consagradas no ECD em vigor;
  • Um aberrante modelo de avaliação do desempenho, que ficará a minar para sempre a equidade na graduação dos professores para efeitos de concurso;
  • Um modelo autoritário e antidemocrático de administração escolar, que começa a revelar todos os seus frutos de arbitrariedade, de subserviência, de compadrio e de despotismo;
  • A consagração da precariedade dos professores contratados, reduzidos ao estatuto de carne-para-canhão do sistema de ensino;
  • O total imobilismo no Estatuto do Aluno, anunciando-se «alterações» que vão acentuar ainda mais o pior do modelo vigente;
  • A cristalização dos aspectos mais gravosos nos actuais horários docentes.

Já muito foi dito sobre os factores que nos levaram a todos estes becos sem saída. Importa, contudo, recordar alguns dados elementares:

No momento decisivo da luta, em Novembro de 2008, quando teria sido fundamental manter a coerência no combate ao modelo de avaliação – e coerência teria sido não ceder em aspecto algum que o salvaguardasse -, a opção maioritária foi pactuar com a versão «simplex» do dito modelo, aceitando a entrega da auto-avaliação. Os sindicatos foram os protagonistas essenciais dessa cedência, dando o mote para a divisão dos professores, para a sua tergiversação e para a fantochada terminal em que se traduziu a aplicação do famigerado modelo. Com isso, conseguiram, sem dúvida, retomar o controlo da luta dos professores, esperando uma mudança de ciclo político que lhes permitisse retomar um lugar na mesa de negociações. Mas os principais interessados nada ganharam com isso.

Sabemos agora toda a extensão do preço que os professores pagaram, estão a pagar e vão pagar no futuro por esta estratégia sindical. O braço de ferro em torno da introdução da avaliação para efeitos de concurso, conflito de que agora o Ministério emerge triunfante, é bem a expressão de como os professores saem deste processo com uma mão cheia de nada e a outra de coisa nenhuma. Se acrescentarmos a isto o facto absolutamente vergonhoso de termos visto o principal dirigente da Fenprof jurar a pés juntos que a avaliação nunca iria contar para o concurso de professores, só podemos dizer que à derrota real se veio somar um epílogo grotesco.

Uma última palavra para os fanáticos do sindicalismo-que-temos. Alguns de nós têm sido acusados de não se terem entusiasmado por aí além com as grandes manifestações de 8 de Março e de 8 de Novembro de 2008 (a do 15 de Novembro é outra história). É verdade que foram mobilizações inéditas na história do movimento laboral, por terem trazido para a rua a quase totalidade de um grupo profissional. E é verdade que todos nós vivemos intensamente essas experiências. Mas a intensidade não significa falta de lucidez. Com efeito, entre os movimentos independentes, houve quem tivesse a «desfaçatez» de se preocupar com o dia seguinte a essas manifestações, isto é, de querer determinar o que se poderia fazer, dentro das escolas (nos locais onde a luta dói no osso), com a mobilização realizada nas ruas. É por demais conhecido o que foi o «dia seguinte» do 8 de Março, congeminado por sindicatos e Ministério: chamou-se Memorando de Entendimento. Também é conhecida a resposta, fora do quadro do controlo sindical, que os professores lhe deram no início do ano lectivo seguinte.

Quando ao day after do 8 de Novembro, ele está agora à vista de todos.

Por isso não nos venham falar de «grandiosas manifestações», quando subtis manobras de bastidores as reduzem, tão facilmente, a coreografias telecomandadas, com vista à obtenção de efeitos que nunca se traduzem em ganhos apreciáveis para quem nelas deu o corpo ao manifesto.

Este sindicalismo-que-temos, formatado na era das «concertações sociais», mais próximo do poder que lhes dá beijinhos do que dos trabalhadores que deveria representar, está completamente desadaptado face ao tempo que vivemos, tempo marcado pela destruição acelerada de todos os pilares do Estado-Providência, tempo de novas relações de força que romperam o cenário de qualquer «concertação».

A erosão política dos sindicatos de professores é apenas reflexo dessa inadaptação, a qual ultrapassa em muito o seu raio de acção para se estender ao sindicalismo em geral (e este fenómeno, desgraçadamente, está longe de ser só português).

Teremos, pois, de esperar que o processo social de uma nova luta de classes – não tenhamos medo da expressão – consiga, por arrastamento, refundar os sindicatos-que-temos, transformando-os nos sindicatos-de-que-precisamos.

Até lá, há que cerrar os dentes e permanecer de pé (entre as ruínas?).

 

11 thoughts on “A extensão do vazio

  1. Concordo em inteiro com esta análise. Não ganhámos nada. O nosso modelo de contestação falhou. Os sindicatos falharam.
    Também estive na “grande manifestação de 29 de Maio” e deixei aqui as minhas impressões:

    29 de Maio 2010; “Passeio pela Avenida” e… “Mudar de Vida”.

    São precisas novas ideias…
    Uma ideia clara de Ensino Público;
    Uma ideia clara de Carreira Docente;
    Uma ideia clara de Contestação e de Resistência face à situação actual.
    E não são precisos muitos detalhes… apenas pontos comuns em volta dos quais se possa construir uma unidade profissional, alavanca para uma exigência de mudança.
    Não querem abrir um concurso de ideias público (no blogue) ou + privado (por mail)?

    • Protestografico: concordo e estou disposto a colaborar.

      Farto de «claras ideias», «propostas globais»,«textos iluminados» e de blá blá, estamos nós.

      Debate alargado, ideias de TODOS e não apenas dos ILUMINADOS!

  2. Caríssimo colega e amigo do Protestografico:

    Sobre uma ideia clara de Ensino Público e uma ideia clara de Carreira Docente, é bom não esquecer que a APEDE até já tem uma proposta global, clara, incisiva e bem fundamentada, que a seu tempo foi apresentada publicamente (e que, se não estou em erro, o Ricardo expôs há poucos dias na Comissão de Educação do Parlamento).
    Quanto à ideia clara de contestação e de resistência, eu até tenho um texto sobre ela, mas recio bem que seja radical demais (e comprido demais) para publicar neste blogue.
    Abraço

  3. Pingback: Pela Blogosfera – APEDE « A Educação do meu Umbigo

  4. Pingback: Vitórias e derrotas « (Re)Flexões

  5. Infelizmente, concordo que definitivamente se tenha de aceitar a derrota. Desta vez ganhou o Golias, mas a longo prazo também se ganhou a desumanização das instituições e a factura a pagar vai ser bem pesada…

  6. Ouvimos dizer que estás cansado

    Ouvimos dizer que estás arrasado.

    Que já não podes andar de cá para lá.

    Que estás muito cansado.

    Que já não és capaz de aprender.

    Que estás liquidado.

    Não se pode exigir de ti que faças mais

    Pois fica sabendo: nós exigimo-lo.

    Se estiveres cansado e adormeceres

    ninguém te acordará, nem

    dirá: levanta-te, está aqui a comida.

    Porque é que a comida havia de estar ali?

    Se não podes andar de cá para lá, ficarás estendido.

    Ninguém te irá buscar e dizer : houve uma Revolução.

    As fábricas esperam por ti.

    Porque é que havia de haver uma Revolução?

    Quando estiveres morto, virão enterrar-te,

    quer tu sejas ou não culpado da tua morte.

    Tu dizes: que já lutaste muito tempo.

    Que já não podes lutar mais.

    Pois ouve: quer tu tenhas culpa ou não,

    se já não podes lutar mais serás destruído.

    Dizes tu: que esperaste muito tempo.

    Que já não podes ter esperanças.

    Que esperavas tu? Que a luta fosse fácil?

    Não é esse o caso: a nossa situação

    é pior do que tu julgavas.

    É assim: se não levarmos a cabo o

    sobre-humano, estamos perdidos.

    Se não pudermos fazer o que ninguém

    de nós pode exigir afundar-nos-emos.

    Os nossos inimigos só esperam que

    nós nos cansemos.

    Quando a luta é mais encarniçada é

    que os lutadores estão mais cansados.

    Os lutadores que estão cansados demais,

    perdem a batalha.

    Bertolt Brecht

  7. Publica o texto, Mário.

    Talvez sirva para debater e defnir uma nova estratégia para construirmos o movimento sindical de que precisamos.

    Não basta citar Brecht, caro Paulo Ambrósio. É urgente clarificar a forma de actuação dentro (fora?) dos sindicatos que (não) temos.

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