APEDE


O mito do Estado gastador

Posted in Finanças e Mentiras por APEDE em 12/10/2010

Já ontem nos referimos a este estudo fundamental. Ele devia ser de leitura obrigatória para todos os que tentam compreender, de forma não enviesada, a crise actual que nos querem impor.

O discurso unanimista dominante tem-nos inculcado, até à náusea, a ideia de que a culpa da crise é do Estado gastador e, em última análise, dos malvados funcionários públicos. Ora, o estudo acima citado deita completamente por terra esse mito, mostrando implicitamente que ele não passa de pura propaganda para lavagem de cérebros. Quando nos vêm falar da dívida ciclópica de países como Espanha, Portugal e Grécia, os pseudo-“experts” omitem, estrategicamente, o facto de nessa dívida o sector privado ter um peso incomensuravelmente superior ao sector público. Escondem também o facto de que, à conta do famigerado Pacto de Estabilidade e Crescimento imposto pela adesão ao euro, os défices orçamentais desses países terem sido genericamente baixos – e muito mais baixos quando os comparamos com o défice norte-americano.

Fica aqui uma citação de uma passagem desse estudo que sintetiza bem o que acabámos de referir:

Portugal maintained a broadly balanced budget, with modest deficits for short periods of time, and roughly the same holds true for Greece. As for Spain, the country ran steady primary balance surpluses throughout the period. Fiscal deficits rose across the three countries in 2008-9, but that was clearly the result of falling tax revenues due to the recession as well as states attempting to maintain demand. There was a bulge in public deficits in 2008-9 that has certainly accounted for the sharpening of peripheral indebtedness, but not for the accumulated volume of debt. To put it differently, the Stability and Growth Pact, which is an integral part of European Monetary Union, might have been occasionally breached but, on the whole, forced peripheral countries to comply with fiscal conservatism. The Spanish state has proven more conservative even than the German state, though it has not received much of a reward for its virtue.

The key macroeconomic factors contributing to the accumulation of external debt by the periphery seem clear. Peripheral countries lost competitiveness relative to the core, and thus faced current account deficits which were financed from abroad. The current account deficits had little to do with the public sector of peripheral countries, which did not generate systematic financial deficits, even though it has often been described as profligate and inefficient. Rather, the current account deficits were associated with private sector financial deficits. Unable to compete with the core countries of the monetary union, the private sector of peripheral countries reacted in ways that produced systematic financial deficits. Thus, in Spain, there was an investment bubble pivoting on real estate, while in Greece and Portugal, private saving collapsed as consumption remained at high levels. The financial deficits of the private sector matched the accumulation of external debt, which financed the current account deficit.

Mas não se fiquem por aqui. Vejam os números e as tabelas publicados nesse estudo e pasmem sobre como temos estado a ser enganados pela propaganda dominante!

3 Respostas para 'O mito do Estado gastador'

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  1. Desta vez, amigo Mário, não estou totalmente de acordo.É verdade que o grosso da dívida tem origem no sector privado. e nas suas operações especulativas. Curiosamente os barões da alta finança engendraram maneira de transformar essa dívida privada em pública para sermos todos a pagá-la com língua de palmo. Mas isso não significa que o Estado não seja altamente perdulário. Para além de todas as obscenas mordomias, o buraco das parcerias publico-privadas é tão gigantesco que o PEC III não vai resolver nada. Basta consultar o portal do cidadão ou outra publicação análoga para se ver como as chefias gastam à tripa-forra o tal dinheiro que apregoadamente dizem não haver. Por outro lado, os partidos, transformados em máquinas de ganhar eleições, independentes do sentir popular e faustosamente alimentados pelo erário não mostram o mínimo interesse em se reformar ou reformar o país. Daqui decorre que a sugestão de Ferreira Leite de suspender a democracia por uns tempos para pôr a coisa na ordem, até talvez faça algum sentido. O aparelho dito democrático não se irá nunca auto-reformar, até porque quase todas as suas principais elites nunca tiveram existência fora dos partidos, nunca fizeram nada de relevante na vida real (e não falo apenas do sr. Sousa ou do P. Coelho). As instituições partidárias vivem exclusivamente para dentro de si próprias, tal como as instâncias sindicais ainda que estas em menor grau. Há quantos anos vemos sempre os mesmos caciques sindicalistas nos mesmos lugares????São autênticos dinossauros inamovíveis.Essas vias estão portanto armadilhadas. Temos de arranjar outras….

  2. Mário Machaqueiro said,

    José,

    À primeira vista, eu diria que tens parcialmente razão. É um facto que várias instâncias da administração pública portuguesa – governos e não só – andaram a gastar à tripa-forra, curiosamente com o beneplácito cúmplice de uma comunicação social que só agora começa a “descobrir” os casos flagrantes de desperdício – com muita demagogia pelo meio, diga-se de passagem, visto que as recentes “denúncias” metem no mesmo saco situações muito diferentes. O caso das famigeradas parcerias público-privadas, durante tanto tempo insensadas pelos liberais da nossa praça como exemplo de abertura do Estado à iniciativa privada, só agora começa a ser percepcionado como um gigantesco buraco que nos vai deixar ainda mais exauridos do que já estamos.
    Contudo – e daí este meu texto -, quando se compara a evolução da dívida em Espanha, Portugal e Grécia, para o período entre 1997 e 2009, verifica-se que o peso da dívida pública foi sempre declinando em comparação com o aumento exponencial da dívida dos sectores financeiro e empresarial e da dívida das famílias. Apenas a Grécia apresenta uma dívida pública quase equiparada à privada. Por outras palavras, o Estado grego endividou-se junto da banca estrangeira muito mais do que os Estados espanhol e português. E o estudo que estou a citar mostra, com números, que é a partir da eclosão da crise financeira que, por razões óbvias, a dívida pública dispara nestes três países. E com uma agravante: mesmo depois da crise de 2007, a banca francesa e alemã continuou a emprestar “generosamente” dinheiro a estes três países, contribuindo assim para cavar ainda mais o buraco das finanças públicas e privadas.
    O referido estudo revela uma coisa muito simples: a arquitectura financeira da Zona Euro foi montada com a mesma irresponsabilidade com que se construiu a bolha imobiliária que levou à implosão dos mercados financeiros nos Estados Unidos. Tal como aí as instituições de crédito sobrevalorizaram a capacidade de pagamento das pessoas individuais relativamente ao crédito à habitação, também a banca alemã e francesa sobrevalorizou a capacidade de pagamento de países como a Espanha e Portugal pelo simples facto de eles integrarem a Zona Euro. Enquanto a crise financeira não explodiu, a ilusão foi funcionando, como funcionou em muitos outros casos. Dado que os países periféricos (Portugal, Espanha e Grécia) não tinham (nem têm) hipótese de competir com a Alemanha e a França em termos de economia real – ou seja, não conseguiam vender tanto como eles -, teve de se arranjar uma maneira expedita de estimular a procura (o consumo), através do recurso ao crédito e ao endividamento, alimentado pelos empréstimos obtidos junto da banca alemã e francesa. Deste modo, os países periféricos podiam desenvolver mercados internos – necessários, aliás, às exportações emandas dos países centrais -, mesmo sem conseguirem produzir e vender ao mesmo nível de uma Alemanha ou de uma França. O problema é quando esta bela arquitectura financeira – feita à medida dos interesses da banca – teve finalmente de se confrontar com a triste verdade da economia real. É aí que estamos agora. E, ainda assim, nenhuma lição foi aprendida, pois os directórios políticos da Europa preferem continuar a abandonar à irracionalidade dos mercados financeiros as decisões sobre o futuro dos Estados.


  3. Realmente a Europa dos barões não tem nada a ver com a Europa dos “cidadões”. O panorama que retrataste aponta para uma solução federal com um governo forte, que fosse uma emanação real do pensar e sentir das populações e não a sedimentação dos grandes interesses político-financeiros que funciona hoje em detrimento das periferias cada vez estranguladas.Mas para já, creio que o fortalecimento de poderosas organizações de cidadãos como a AVAAZ de que te dei conhecimento, parece ser o único caminho possível.


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