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Desobediência civil: passar da lógica do um à lógica dos muitos

Posted in Desobediência civil,Rebelião,Resistência por APEDE em 26/10/2010

Quando falamos em desobediência civil, há um conjunto de princípios que importa, desde já, esclarecer:

1 – A desobediência civil é uma forma de luta de tal modo radical que só uma situação extrema consegue gerar o potencial de revolta e de coragem para que ela possa ser colocada em prática.

2 – Numa cultura que continua a privilegiar o primado da lei, mesmo quando a lei está construída para impedir sistematicamente a luta legal contra a injustiça, a desobediência civil só pode ser percepcionada como um risco.

3 – As condições subjectivas para o exercício da desobediência civil assentam na percepção de que as formas de luta legal se esvaziaram e de que a alternativa (renunciar à luta e aceitar a lei) é muito pior do que a punição por essa desobediência.

4 – A opção pela desobediência civil é indissociável de uma cultura do desespero, quando este atingiu o nível em que o medo cede lugar à revolta.

5 – O sucesso de um movimento de desobediência civil exige, necessariamente, que os trabalhadores passem de uma postura isolacionista, ensimesmada nos cálculos individuais – e, por isso, condenada ao fracasso – à consciência de que, juntos e multiplicados por milhares, os trabalhadores têm uma força avassaladora e indomável.

6 – Sendo uma escolha eminentemente individual, a decisão pela desobediência civil só sai reforçada no quadro de uma opção colectiva o mais alargada possível.

7 – O contrário do referido no ponto anterior não é desobediência civil: é suicídio individual que não leva a lado algum.

8 – Numa situação extrema (como a que, em breve, quase todos os trabalhadores estarão a viver), as organizações laborais com capacidade de mobilização podem (e devem) apoiar as acções de desobediência civil.

9 – A desobediência civil não se decreta, como não se decreta qualquer outra forma de luta: as lutas laborais devem ser colectivamente discutidas e decididas pelos trabalhadores.

10 – Na fase em que nos encontramos, não é possível prever se chegaremos a um ponto em que os trabalhadores estarão subjectivamente dispostos a abraçar a desobediência civil – o que não significa que tenhamos de abdicar de a pensar como forma de luta extrema para situações extremas. 

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3 Respostas to 'Desobediência civil: passar da lógica do um à lógica dos muitos'

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  1. Ultimamente ando muito dado a fantasias. Há bocado, ao ver no telejornal uma notícia sobre os furtos nos supermercados, ocorreu-me mais uma: e se cada cidadão prejudicado pela “austeridade” se propusesse, como objectivo mensal, roubar pelo menos tanto quanto lhe tivesse sido roubado?

  2. Mário Machaqueiro said,

    Pois, José Luiz, por este andar o passado recente de Moçambique vai ser o nosso futuro. E não é que por lá o povo em fúria conseguiu anular as medidas de “austeridade” que um governo incompetente queria impor?


  3. […] 6 – Sendo uma escolha eminentemente individual, a decisão pela desobediência civil só sai refor… […]


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