APEDE


Sobre a greve em geral (que não, ainda, sobre a greve geral)

Posted in O conteúdo da greve por APEDE em 29/10/2010

Tempos houve em que a greve era encarada, não como momento de protesto contra determinadas políticas, mas como a forma de luta mais eficaz para obrigar o patronato (ou o poder político) a aceitar as reivindicações dos trabalhadores ou, pelo menos, a aceitar a necessidade de negociar com os seus representantes. Os trabalhadores paravam o trabalho até o outro lado ceder às suas exigências.

Entendida desta forma, toda a greve tem, por natureza, uma duração indeterminada, pois não se sabe quando é que a referida cedência poderá ocorrer. Trata-se, no fundo, de um braço-de-ferro que condensa, em si mesmo, a ideia da luta de classes.

É claro que, noutras paragens, a greve ainda é, muitas vezes, entendida dessa forma. Por cá, no entanto, ela tem estado reduzida a uma forma de protesto, um pouco  mais drástica mas de efeitos reduzidos.

Em Portugal, os sindicatos decretam, sistematicamente, greves de um só dia. E o resultado é conhecido: com maior ou menor adesão, os trabalhadores fazem um dia de greve (quase sempre isolado num ano civil), perdem um dia de salário, e…

… fica tudo na mesma. O governo, ou o patronato, não se sentem minimamente ameaçados ou pressionados para terem de ceder no que quer que seja.

Há poucos anos atrás, esses dias isolados de greve estavam tão rotinizados, nomeadamente entre os professores, que já praticamente ninguém aderia. A FENPROF, de resto, convocava essas greves com o mesmo empenho de quem cumpre um calendário entre dois bocejos: neste dia comemora-se o 5 de Outubro, naquele faz-se uma greve.

A figura da greve descredibilizou-se por completo.

Nestes tempos mais recentes deu-se, porém, uma transformação no nível de adesões ao exercício da greve, porque os trabalhadores sentem razões acrescidas para lutar.

E, contudo, as greves convocadas pelos sindicatos mantêm o seu carácter de formas de protesto, em lugar de serem efectivamente greves de reivindicação.

Assim sendo, há perguntas que, neste momento, deveriam estar a ser feitas, sobretudo quando pensamos no modo como os trabalhadores estão a ser conduzidos a formas cada vez mais acentuadas de exploração e de degradação dos seus direitos:

– Faz realmente sentido passar de greves de protesto (de um só dia) a greves de reivindicação (por tempo indeterminado)?

– E, se faz sentido, como operar essa transição?

(E como ultrapassar a conversa mole que nos diz que isso é impossível, que os trabalhadores não são mobilizáveis para formas de luta tão radical, que…, que…, que…?)

 

5 Respostas para 'Sobre a greve em geral (que não, ainda, sobre a greve geral)'

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  1. Já é tempo de nos deixarmos de rodeios. O diazinho de greve ritual (para nem falar nas duas horas) é para esquecer. Já estamos fartos de entrar em lutas sabendo que estamos derrotados à partida, antes mesmo de começar. Temos de usar a inteligência para, não só encetar formas de luta consequentes, mas sobretudo criar as condições para termos sucesso. Esse é o ponto fundamental. Se conseguirmos criar de facto essas condições, estou convencido que as bases vão aderir mesmo. Insisto que isso é possível e está ao nosso alcance. Bastaria fazermos o esforço de guardar o 13º mês. É só isso que nos separa da vitória. Estaria garantido o sucesso de uma greve prolongada e o poder não aguentaria as consequências. Vamos a isso!!!!!!

  2. Mário Machaqueiro said,

    Pois, caro Zé Manuel, não sei se será assim tão fácil. Quando, no entanto, e para usar o velho jargão marxista, as condições objectivas (que já existem) se combinarem com as subjectivas (que ainda não estão inteiramente adquiridas), algo de diferente, de muito mais mobilizador e de muito mais eficaz terá de ser feito no que toca às lutas laborais. Uma coisa me parece certa: a convocação de uma greve geral para um dia tão distante como o 24 de Novembro, quando já tudo estiver estabilizado em matéria de política orçamental, só pode ter sido feita para não mobilizar as pessoas. E um tipo pergunta-se: o que faz correr os sindicatos?


  3. Era necessário um fundo de greve para lutas mais prolongadas, era necessário uma pedagogia da luta a sério, feita olhos nos olhos, escola a escola, com garra, determinação e verdade, era necessário que fosse dada a garantia efectiva que a luta não seria interrompida ou traída por tacticismos político-partidários (ou outros arranjos e entendimentos nos corredores do poder), era necessário que os líderes sindicais fossem realmente credíveis e jamais traíssem a sua palavra (“com quotas não há acordo!”), era necessário uma consciência profissional muito mais profunda e resiliente por parte dos professores (para que muitos “não quebrem como esparguete”), era necessário que este povo não fosse de tão brandos costumes. Acima de tudo, era necessário renovar, crediblizar, ganhar confiança, acreditar. Nas estratégias de luta sindical e nos homens e mulheres que a dirigem. Sem isso, nada feito. Apenas e só… mais do mesmo! E sempre a descer, sempre a piorar.

    Teremos de esperar até quando?

    Com que efeitos nos nossos direitos e condições de vida?

    Faça-se justiça: há gente com valor nos sindicatos, nas escolas, na acção e na luta, mas o poder da nomenklatura, a blindagem de estatutos e a falta de limitação de mandatos, não permitem a renovação. Hoje por hoje, ela é, no meu entender, a pedra basilar da transformação que precisamos para a saída do marasmo em que mergulhámos. E se isto for lido como uma postura anti-sindical, pois que seja. Sou anti-estes-sindicatos-que-temos-dirigidos-da-forma-que-têm-sido. E eu acreditei durante um período que, desta vez, iria ser de outro modo. Enganei-me!

  4. José Matos said,

    Os portugueses de hoje estão formatados para serem partidários. Nada fazem e (pior ainda!) nada pensam que não seja na linha de um determinado partido. Qualquer óptima intenção de um excelente sindicalista estará sempre pintada de uma cor política, o que leva a decisões “facciosistas” de toda a ordem, nomeadamente aquando das greves.
    Só acredito numa reivindicação (ou revolta) por tempo indeterminado quando liderada por alguém que mereça o consenso de todos, sem filiações de qualquer tipo, apenas movido pela força de convicções de justiça e de verdade.
    Não nos esqueçamos que estamos há mais de trinta anos a acreditar naqueles que nos levaram ao abismo, e teimamos em bater-lhes palmas e a reverenciar os seus métodos falidos.
    O povo já está mobilizado. Faltam-lhe líderes de mãos limpas!


  5. […] a greve geral poderia derrubar a ordem capitalista mundial, hoje essa greve aparece reduzida a um protesto que, por legítimo e necessário que seja, se esgota quase sempre em si […]


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