APEDE


Quem paga, não manda

Posted in «Pequena» correcção por APEDE em 04/11/2010

Na sessão parlamentar de hoje – em que a aprovação do Orçamento do Estado marcou mais um ponto na tragicomédia deste país -, Manuela Ferreira Leite proferiu, repetidamente, a frase:

«quem paga, manda»

querendo com isso dizer que os credores de Portugal, os bancos franceses e alemães, como nos emprestam dinheiro, têm o direito de mandar em nós.

Admirável lógica de quem se conforma com a redução do nosso país ao estatuto de um mero protectorado (o que, aliás, não é uma novidade na triste história deste «jardim à beira mar plantado»).

Admirável lógica de quem pertence a um partido que, em tempos, imaginou que Portugal podia integrar o «pelotão da frente».

Mas não é isso que agora nos apetece comentar. O que nos parece relevante na frase de Ferreira Leite é o facto de ela ser simplesmente falsa, quando aplicada à relação de forças entre os detentores de poder económico e político, por um lado, e o cidadão comum, por outro.

Na nossa realidade, os que pagam não mandam.

E os que pagam somos todos nós,

os que vão ficar com salários e pensões reduzidos, depois de décadas de trabalho e de expectativas de melhoria social, agora frustradas para o resto das suas vidas,

os que não fogem, nem podem fugir, ao fisco,

os que não têm fortunas para colocar em paraísos fiscais,

os que vão perder o abono de família,

os que vão pagar bens essenciais com uma taxa de IVA indiscriminadamente elevada,

os que vão ver o IRS aumentado,

os que vão deixar de ter certos medicamentos comparticipados,

os que, privados de poder ou de influência sobre as suas vidas, são o expediente mais à mão para sugar os meios financeiros que permitam “acalmar” os mercados.

Estes pagam, e de que maneira.

Mas pagam sem terem qualquer controlo sobre os mecanismos antidemocráticos que impõem determinadas decisões como se fossem fatalidades inescapáveis.

No sistema de desigualdades a que se chama capitalismo, inventaram-se meios de drenar os trabalhadores para, supostamente, conter a «dívida soberana», enquanto se mantêm incólumes aqueles cujo rendimento é efectivamente elevado.

Os que defendem sacrifícios estão resguardados deles.

E são sempre os mesmos, os do costume, a pagar.

 

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