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Crónica de uma manifestação realizada

Posted in Estratégias para o fiasco,Rituais vazios por APEDE em 07/11/2010

Tinham previsto (ou anunciado) mais de cem mil manifestantes. Aqueles que de nós estiveram presentes estimaram, na mais benévola das contagens, entre 40 e 50 mil.

Mas o pior não é o número. O mais tristonho era a atitude geral de abatimento, mal disfarçado por palavras de ordem monocordicamente marteladas pelos pastores de serviço, que nem sequer eram repetidas pela mole humana que os seguia, qual cortejo fúnebre. Em tudo havia a postura de quem estava consciente de participar num ritual esvaziado de substância, “marcando o ponto” numa iniciativa com que os próprios participantes não se sentiam minimamente identificados.

Se foi o ensaio geral para a greve do dia 24, estamos conversados.

É isto uma confissão de derrotismo antecipado?

Significa isto que os trabalhadores, e os funcionários públicos em particular, já estão conformados e cabisbaixos, dispostos a entregar os pontos?

Nada disso. O que existe é um sentimento generalizado de cansaço, uma descrença em relação às direcções sindicais, particularmente as dos sindicatos de professores, percepcionadas como tendo traído as expectativas que nelas foram depositadas.

Os trabalhadores, em especial os que trabalham no ensino, sentem-se hoje privados de horizontes de luta, e, sobretudo, sem orientação e liderança, pois aqueles que têm meios, logísticos e organizativos, para encabeçar esse combate perderem a escassa credibilidade que lhes restava.

E é patético ter visto, na manifestação, um cartaz do SPGL que dizia qualquer coisa como «Sra. Ministra, os acordos são para cumprir». Estes dirigentes sindicais mostram-se incapazes de retirar qualquer ilação de tudo o que sucedeu ao longo deste ano. Ainda se agarram a um acordo que os professores desprezam (e só quem não está nas escolas pretende ignorar essa evidência), e ainda têm o supino descaramento de evocar um processo negocial em que foram completamente manietados (ou em que se deixaram intrujar), com uma inépcia que prejudicou gravemente uma classe profissional inteira, deitando por terra meses de resistência e de combates tão difíceis. 

O que esta manifestação revelou é a completa inadequação entre as fórmulas estafadas dos sindicatos – os desfiles na avenida, as greves de protesto de um dia – e a radicalidade do assalto aos direitos sociais protagonizada pelo poder político-económico em Portugal e na Europa.

Os trabalhadores não baixaram os braços. E a ausência de muitos na manifestação deste Sábado não significa desmobilização, mas simplesmente a total indisponibilidade para participar em mais uma “jornada de luta” pífia, que apenas desperta sorrisos na clique instalada.

Os trabalhadores estão à espera de formas de luta que apaguem, de vez, esses sorrisos.

Estão à espera de, com eficácia, poderem contrapor à “fatalidade dos mercados” a fatalidade da sua recusa.

 Na dificuldade de tomarem a iniciativa nas suas próprias mãos, estão à espera, em suma, de uma liderança digna desse nome.

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10 Respostas to 'Crónica de uma manifestação realizada'

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  1. José said,

    A desmobilização não é só aparente! Não fui à MANIFESTAÇÃO dos 100 mil, porque era óbvio que a desmobilização seria feita imediatamente na volta dos autocarros!
    Apesar de concordar parcialmente com o texto, não posso deixar de constatar o pedido de aulas assistidas, por entre manifestações de desagrado e comentários nada abonatórios para a senhora ministra.


  2. […] comparações que certos e determinados analistas da “revolta dos professores” fazem aqui, aqui e aqui, valem o que valem, na medida em que cada analista usa as lentes que melhor se adaptam […]

  3. prof. said,

    É verdade. Os sindicatos agiram muito mal. Não há paciência para manifestações e gritos da praxe.
    Concordo que os professores criticam o modelo de avaliação mas foram imensos os que pediram aulas assistidas. Estão a aceitá-lo de forma clara!

  4. João Medeiros said,

    Também lá estive.

    Concordo com a análise que fazem.

    Mas temos obrigação, dentro ou fora dos sindicatos, de não baixar os braços.

    Todos à greve geral.

  5. emn said,

    Eu pedi aulas assistidas por uma razão muito clara: como se pode contestar, agora, este modelo, se não se provar a sua ineficácia? No meu grupo, penso que não haja ninguém que não tenha pedido aulas assistidas – assim acordámos numa reunião de Departamento em que falámos do assunto.
    A nossa expectativa é verificar dos disparates desta avaliação. Como? Pondo-a em prática e, espero eu, de acordo com as reclamações e recursos interpostos «incomodar» quem a tem de implementar e fazer, para que ninguém se «acomode». Porque é MUITO FÁCIL a implementação desta avaliação, se ninguém (ou poucos) pedir(em) aulas assistidas. MUITO FÁCIL. E, neste caso, a «facilidade» é perigosa, pois as pessoas «instalam-se», «acomodam-se» e «encostam-se» quando não as obrigam a mexer – é a lei do menor esforço.

  6. José said,

    A grande prova da ineficácia desta avaliação está feita e o governo sabe-o!, mas não lhe interessa. Dificil é enterder a adesão maioritária a algo como uma manifestação de desagrado. Se o Sócrates ganhar de novo as eleições, tal seria entendido que queríamos era ser governados pelo Paços Coelho!
    Minar por dentro serve encapuçados e genuínos.

  7. CUMÉQUIÉ said,

    Como sempre, sem nenhuma eficácia
    são essas manifestações e greves que se repetem apesar de inúteis.
    Há outras formas de luta que podem ser tentadas.

    Por exemplo, estratégias de boicote à palhaçada da ADD, como esta que já está a ser posta em prática em algumas escolas do meu agrupamento.
    E que ninguém nos ouça, principalmente o ME.Fica só entre nós, certo?

    É muito simples: nas aulas assistidas -principalmente as obrigatórias (3º e 5º escalão)- o relator (que não tem horas suficientes para o preenchimento de tanta papelada) faz de conta que assiste e é o “relatado” que preenche as grelhas de observação conforme lhe for mais conveniente, o relator apenas assina.

    E mais nada! Nada de conflitos,nada de stress, pelo contrário, amizades reforçadas, união, etc.
    Basta isso para pôr fogo nesse circo!
    O que acham?

  8. CUMÉQUIÉ said,

    E o relator, em vez de ficar a chorar e a reclamar pelos cantos, que veja que tem aí uma janela de oportunidades a aproveitar…eheheheheh

    … para fazer um bom negócio e se compensar do roubo no vencimento… sempre fica bem uma retribuiçãozinha pelo muitabom e uma maiorzinha ainda pelo xalente…

    E que venha mais lenha pra fogueira!
    A nossa alegria é ver esse circo pegar fogo!


  9. Não estive nesta manifestação, mas saúdo aqueles que lá estiveram. Talvez eu já esteja ‘velho’ para este tipo de manifestações. Além disso, a capital fica muito longe do local onde moro. Haverá muitos professores que pensam como eu. No entanto, o Governo não deverá ler nisto a aceitação das suas políticas. É verdade que a avaliação começa a fazer caminho. E começou pela parte mais fraca: os contratados. Quem quer continuar a ficar para trás em termos de concursos, só porque recusa participar na farsa da avaliação?
    Temos de aceitar essa adesão e de estudar maneiras mais eficazes de lutarmos contra tal. A mim toca-me agora ser Relator, mas antes de chegar o momento, já elaborei um requerimento para entregar na CAP, a fim de serem esclarecidas algumas incongruências (ilegalidades?) da legislação em vigor.
    Se todos estivermos mais atentos, talvez consigamos mudar alguma coisa. E não ganhamos nada em criticar os sindicatos. Viveríamos mais felizes sem sindicatos? Julgo que não!


  10. Caro Telmo Bártolo,

    Não se trata de criticar os sindicatos. São essenciais! Nunca o discutimos ou colocámos alguma vez em causa. Encontre-se um texto da APEDE que sugira o contrário, deixo o desafio.

    O que se trata, isso sim, é de criticar a actuação das DIRECÇÕES sindicais.

    Desculpe-me as maiúsculas, mas é preciso que isto fique claro de uma vez por todas. Pessoalmente, considero que a actuação das direcções sindicais, que assinaram memorandos e acordos, desmobilizaram e esvaziaram a luta, defraudaram as expectativas de milhares de professores e não consegue definir com coerência e independência, um caminho, um plano de luta consequente e mobilizador. Por essa razão, muitos professores vão deixando caír os braços, porque sentem que na hora da verdade alguém assina acordos nas suas costas! Ou decidem greves de duas horas, ao arrepio da consulta feita nas escolas. Ou mentem, dando por garantido o que, afinal, nunca esteve.

    Apesar de tudo, estive ontem na manifestação, em conjunto com alguns colegas da APEDE. Não podia deixar de estar, as razões para lutar são válidas e justas, ninguém de bom senso o poderá discutir. Só lamento que quem dirige a luta o faça da forma lamentável que tem feito e que aqui no blogue não deixaremos de denunciar!

    Por esse motivo, não desci a avenida, nem o voltarei a fazer, ao lado de quem já demonstrou que não soube estar à altura de nos representar!

    Abraço


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