APEDE


O trabalho como opressão

Posted in O trabalho do nosso descontentamento por APEDE em 12/11/2010

A última edição francesa do Monde Diplomatique traz um artigo que incide numa dimensão importante das recentes lutas laborais em França, dimensão que tem sido, normalmente, negligenciada nas análises que essas lutas suscitaram.

Com efeito, muitas das manifestações realizadas pelos  franceses deram expressão à recusa profunda de uma vida laboral cada vez mais sentida como penosa e insuportável.

Hoje em dia, não são só as reduções salariais e outras perdas de direitos no plano material que mobilizam a revolta das pessoas. É também a percepção de que as condições de trabalho se tornaram de tal modo opressivas e stressantes que os trabalhadores estão a atingir o limiar da angústia mais extremada. Num número que não cessa de aumentar, o suicídio motivado pelas condições laborais começa a ser a “saída”, o grito final, que muitos trabalhadores encontram.

Isto explica porque tantos franceses se mobilizaram para lutar contra a passagem da idade de reforma dos 60 para os 62 anos. Não foi por mero egoísmo ou picuinhice gaulesa, como alguns comentadores-serventuários referiram. Foi porque existe em França um forte sentimento de rejeição perante a perspectiva de se acrescentar mais dois anos que seja a uma vida laboral onde muitos poucos se sentem realizados e que quase todos vivem como prisão asfixiante.

Este fenómeno de recusa explica-se pelas transformações no modelo de gestão do trabalho imposto às empresas e, posteriormente, alargado ao funcionalismo público. Trata-se de um modelo em que a obsessão da performance, da produtividade a todos o custo, e, claro está, da competitividade, introduziram no espaço laboral novas e refinadas formas de poder e de opressão. Na área dos serviços, como no sector das indústrias, o trabalhador é hoje compelido a cumprir metas e objectivos previamente fixados, cada vez mais exigentes, e é mesmo pressionado para superá-los – sem nunca saber verdadeiramente onde se situa a fasquia dessa superação. E sobre ele pesa, qual chantagem permanente, o espectro da avaliação do desempenho, que pode determinar a perda ou a conservação do posto de trabalho num tempo em que o desemprego paira como ameaça sempre presente.

O que atrai actualmente muitos trabalhadores para as lutas emergentes não é, pois, apenas a destruição do chamado Estado Social. É a própria natureza do trabalho, o modelo gestionário que dele se apropriou, são as micro-opressões no interior das empresas, das repartições públicas ou das escolas. Micro pela forma local de que se revestem, mas certamente grandes pela extensão da miséria psíquica que produzem.

 

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