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Mobilização/desmobilização dos professores

Posted in Mobilização/Desmobilização por APEDE em 19/11/2010

Ainda em jeito de balanço, importa alargar um pouco mais o foco da análise, e perceber o que verdadeiramente sucedeu nestes últimos anos quanto à mobilização dos professores e o que levou ao estado actual de abatimento generalizado.

Antes de mais, há uma honestidade analítica que se impõe:

a mobilização dos professores, ao longo de 2008 e na transição de 2008 para 2009, foi um fenómeno efectivamente inédito e surpreendente.

Surpreendente porque partiu de uma classe profissional tradicionalmente avessa a acção radicais, sem ousadia na reivindicação dos seus direitos, mais propensa a obedecer aos ditames do Ministério do que a reclamar, com baixa auto-estima e escassa consciência política, e muito descrente das suas organizações ditas representativas. Nesse sentido, dir-se-ia que os professores condensam as características de resignação queixosa com que os portugueses costumam, em regra, reagir às injustiças sociais que sobre eles se abatem.

Em 2008, porém, pareceu que tudo poderia ser diferente. Já o dissemos antes: a mobilização dos professores foi, nessa altura, avassaladora e sem precedentes, apanhando toda a gente desprevenida, a começar pelos jornalistas habituados a ler a realidade social portuguesa pelas lunetas estreitas de certos lugares-comuns.

Como explicar então a transição, aparentemente tão abrupta, da mobilização para o conformismo do presente (talvez também mais aparente do que real)?

Para tentar responder a esta questão, é necessário determo-nos um pouco no que foi a natureza dessa mobilização dos professores.

Em nosso entender, ela resultou de factores cuja combinação foi, em grande medida, circunstancial e irrepetível:

– um conjunto de medidas altamente gravosas para a profissão docente, que os professores percepcionaram como atentatórias de alguns dos seus direitos mais elementares;

– um discurso ministerial e governamental de uma imensa arrogância, apostado em agredir e humilhar os professores na praça pública, e em voltar contra eles a opinião do comum dos portugueses que desconhece a realidade do sistema educativo nacional;

– a acumulação de anos de cansaço e de revolta surda de muitos docentes, exauridos pelas exigências de uma profissão com tanto de exaltante como de esgotante, e tendo atingido o limiar da tolerância para com um poder político que – independentemente dos partidos com assento na governação – nunca foi capaz de dar um sinal público de apreço pelo papel dos professores neste país.

A articulação de todos estes factores acabou por convergir numa figura particularmente odiada e especialmente odiosa – Maria de Lurdes Rodrigues – e numa das suas medidas mais opressivas e achincalhantes: o famigerado modelo de avaliação do desempenho docente.

Tivesse José Sócrates a clarividência de escolher para ministra da Educação do seu primeiro governo uma pessoa com outro “perfil” – uma Isabel Alçada – e é muito provável que a revolta dos professores não tivesse atingido os picos que alcançou. O comportamento detestável de Lurdes Rodrigues – em si mesmo um símbolo da pesporrência desse primeiro governo socratino – teve o condão de reforçar a convergência dos três factores acima assinalados. Às vezes há pessoas assim, que mudam a história (pelas piores razões).

Isto significa, porém, que a mobilização dos professores teve uma base bem mais frágil do que gostamos de admitir. O sentimento de indignação e de dignidade ferida que levou muita gente para as manifestações massivas de 8 de Março e de 8 de Novembro era demasiado volátil e episódico para perdurar por muito tempo – ainda que baseado em razões bem mais fundas e estruturais. Bastava uma táctica de abertura e umas manobras divisionistas para que uma parte importante das tropas debandasse.

A burrice política do governo tardou a perceber isso. Mas quando, finalmente, o entendeu – extraindo da cartola o modelo-“simplex” de avaliação -, um grande número de professores desertou do combate e depressa regressou àquilo que tem sido a raiz de todas as nossas fraquezas: as estratégias e os cálculos individuais, a lógica do «salve-se quem puder, a começar por mim próprio».

É claro que os sindicatos também ajudaram (e de que maneira) a essa deserção, adoptando uma atitude ambígua e timorata na “grande forma de luta” que advogaram – a não entrega dos objectivos individuais – e dando, desde logo, o sinal de que o modelo de avaliação era para ser, afinal, cumprido no seu desfecho: a entrega da auto-avaliação. Como referimos aqui, os dirigentes dos sindicatos têm uma quota importante na responsabilidade pela desmobilização dos professores. Eles desejaram-na e estimularam-na.

A curta duração é o horizonte temporal dos grandes movimentos colectivos. A maioria das pessoas não é naturalmente combativa. Prefere o conforto e a segurança, mesmo num contexto de opressão, aos riscos que o exercício da liberdade e da desobediência sempre acarretam. O velho Freud explicou que isto tem um preço. Um preço chamado neurose – e daí tantos professores a sofrer de depressão e a recorrer ao psiquiatra.

A combatividade que a classe docente demonstrou e a sua capacidade de mobilização não estavam, pois, destinadas a prolongar-se no tempo. Por isso, teria sido fundamental que os mais bem colocados para liderar esse movimento utilizassem a sua força no sentido de ir o mais longe possível e de encostar rapidamente o governo à parede. Os sindicatos preferiram não o fazer.

E não o fizeram porque a sua forma temporal não coincide com a dos trabalhadores que deveriam representar. O tempo dos trabalhadores, e dos professores em particular, é o tempo da urgência – explicável pela gravidade dos problemas que os afectam -, o tempo da revolta de grande intensidade mas de curto fôlego. O tempo dos sindicatos, em contrapartida, é o tempo lento, o tempo mastigado das rondas negociais no qual vão justificando a sua existência. Dentro desta lógica, as lutas de rua e nos locais de trabalho são apenas o complemento ou a adenda da coreografia negocial. E os «colectivos» de que os dirigentes sindicais tanto falam não são mais do que um interruptor para ser accionado ou desligado quando lhes convém.

E isto, meus caros, também explica muito da desmobilização que hoje constatamos e que tanto nos perturba.

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2 Respostas to 'Mobilização/desmobilização dos professores'

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  1. Aqui está mais uma criteriosa análise, extremamente bem fundamentada e em tudo conforme com a realidade. Só gostaria de adicionar mais um detalhe.Quando a nossa primeira mega-manif descia a avenida, muitos passantes anónimos vinham vitoriar-nos, incentivar-nos, batiam palmas e exprimiam uma grande alegria. Isso deixou-me intrigado por ser óbvio que o público não estava a par dos pormenores das nossas reivindicações. Percebi então que nós eramos, naquele momento, o rosto de uma corajosa oposição ao governo socratino, e era isso que o público aplaudia.Nós eramos a esperança de muitos outros grupos socio-profissionais achincalhados pelo então menino de ouro. Mesmo depois disso, em outras acções de protesto, foram os próprios polícias que montavam a segurança que, muito discretamente, nos deram a entender quanto a nossa teimosa resistência era importante tb para eles. Pesada responsabilidade esta. Penso que deveríamos estreitar os contactos com outros sectores profissionais que têm sido injustamente perseguidos pela clique instalada de modo a que sintam que não estão sozinhos na luta.


  2. Houve realmente um momento (uma curta janela temporal) em que o ME e o mentiroso Sócrates podiam (e deviam) ter sido encostados à parede sem margem para fugas. Esse momento foi lamentavelmente desperdiçado na noite de 8 de Novembro, quando os dirigentes da Plataforma Sindical anunciaram, perante 120 mil professores, uma greve para 19 de Janeiro e um cordão humano, algures, numa data a decidir. Foi o sinal que o governo precisava para perceber que, afinal, os sindicalistas só queriam mais do mesmo, o mesmo de sempre: negociar, negociar, negociar. Foi o convite óbvio para o xeque-mate: o “simplex” do início de Janeiro. E esse foi o momento decisivo na luta. Muitos claudicaram aí, ficando por cortar a cabeça do monstro.


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