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O mito dos dois sindicalismos – 1

Posted in Sindicatos por APEDE em 20/12/2010

A propósito da recente transferência (e auto-promoção) de um sindicalista do SPGL para o Ministério da Educação, anda por aí na blogosfera (nomeadamente aqui e aqui) uma discussão em torno de duas formas de sindicalismo: um sindicalismo «amarelo» ou «reformista», ao qual supostamente se opõe um sindicalismo «vermelho», «de classe» ou «revolucionário».

Antes de tentarmos descortinar alguma substância nesta discussão, convém começarmos por dar os nomes às coisas, considerando que, em Portugal, existe o mau hábito de se preferir os ínvios caminhos e as meias-palavras em lugar da clareza de propósitos. Ora, na verdade, a oposição conceptual acima referida é, no essencial e para efeitos práticos, uma outra maneira de falar do confronto entre duas linhas que actualmente de defrontam no SPGL: a do Bloco de Esquerda e do PS, que dominam a direcção actual, e a do PCP, que se viu derrotada nas duas últimas eleições para os corpos directivos. No vocabulário de certos comentadores, a primeira corresponde ao tal sindicalismo «amarelo» e «reformista», ao passo que a segunda pretende corresponder ao sindicalismo «de classe» ou «vermelho». A terminologia, claro está, parece (e é!) extraída do mais estafado manual dos centros de trabalho marxistas-leninistas.

Quando descemos, porém, ao que tem sido a prática política do sindicalismo-que-temos, no SPGL ou noutro lado qualquer, percebemos que a distinção entre um sindicalismo «amarelo» e um sindicalismo «vermelh0» se esbate consideravelmente numa triste noite em que todos os gatos são pardos e todas as cores se misturam.

Os que acusam a actual direcção do SPGL de pactuar com o reformismo esquecem o “piqueno” pormenor de que essa direcção tem alinhado sempre, no fundamental, com a orientação global da Fenprof, estando essa orientação plasmada nos deprimentes memorandos de entendimento e acordos assinados com o Ministério da Educação. Ou seja, para o que realmente conta, o sindicalismo «reformista» do SPGL e o sindicalismo «de classe» de Mário Nogueira comem na mesma gamela. E essa gamela está muito bem caracterizada no texto de José António Faria Pinto com que gozámos no “post” anterior.

Com diferentes matizes, e não obstante os desalinhamentos político-partidários e ideológicos, hoje o sindicalismo em Portugal é, todo ele, politicamente conformista. E isto leva-nos a analisar o papel que o Partido Comunista Português – pomos assim por extenso para não haver dúvidas – tem desempenhado no movimento sindical deste país.

Diga-se, desde já, que não vale a pena dedicar mais de dois minutos a falar da UGT. Ela serve, basicamente, os interesses do patronato e do centrão (ou direitão) político, e esse desígnio esteve na sua génese. Nos idos de 1974 e 75, houve um combate contra a unicidade sindical reclamada pelo PCP, que pretendia restringir todo o sindicalismo à Intersindical com o fito de realizar a única estratégia que os comunistas sabem implantar em termos políticos: a hegemonização tendencialmente completa do espaço público. Para nossa desgraça, esse combate foi conduzido dentro da versão portuguesa da Guerra Fria, levado a cabo pelas organizações político-partidárias que representavam (e representam) os interesses dos grandes grupos económicos. Por isso, o desejável pluralismo que deveria ter resultado da derrota das pretensões hegemónicas do PCP acabou confinado a uma alternativa paupérrima: de um lado, uma CGTP essencialmente controlada pelos comunistas; do outro, uma UGT concebida para limitar a influência política do PCP e, invariavelmente, fazer o frete às entidades patronais e a todas as políticas governativas mais atentatórias dos direitos laborais. Com uma extrema-esquerda sem influência sobre o meio laboral e a rica experiência do anarco-sindicalismo há muito morta e enterrada, o sindicalismo da 2.ª República ficou limitado a este preto-e-branco no qual se joga muito mais o destino de tácticas político-partidárias do que os interesses reais dos trabalhadores.

(Continua)

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3 Respostas to 'O mito dos dois sindicalismos – 1'

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  1. leitor said,

    O longo e elaborado post sobre a inexistência de dois tipos de sindicalismo não justifica ainda qualquer comentário contra-argumentativo, pela simples razão deste primeiro post se limitar a repetir estafadas velharias do anti-sindicalismo, ainda que com uma lavagem de pós-modernismo. Aguardam-se os seguintes posts, com alternativas ao sindicalismo de classe, mas sem grandes expectativas. É que, por amostras recentes, o “sindicalismo” que se preconiza por estas bandas não é muito diverso das propostas do Faria Pinto e do J P Videira de fragmentar a luta em movimentos “expontâneamente” organizados.
    Mas, aguardemos.

  2. APEDE said,

    Algo me diz que este leitor «expontâneo» vai ainda salivar mais com o “post” que publicámos a seguir…

  3. Cristina Ribas said,

    A Apede merece-me todo o respeito e consideração pela forma como sempre se posicionou na defesa da educação. Quando chegou a altura apresentou uma proposta muito credível, de modelo de avaliação. Já os sindicatos, quando chegou a altura, envergonharam a classe… Ainda assim, Apede, PROmova e Mup, não deixaram de estar unidos aos sindicatos, muito pelo contrário. Mas a união aos sindicatos não significa ausência de espírito crítico. Será que a crítica construtiva aos sindicatos, é entendida como anti-sindicalismo? Então estamos mesmo mal e muito mais longe do que imaginei, dos valores e ideais de liberdade, supostamente conquistados em Abril…

    Um abraço APEDE


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