APEDE


Reflexões actuais (mas pouco natalícias)

Posted in Revoltas por APEDE em 22/12/2010

A revolta de que se fala aqui – cada vez mais patente nas manifestações da Grécia e de Itália – parece prolongar uma violência urbana muito próxima de uma «guerra civil que não ousa dizer o seu nome». Ou de uma luta de classes travada num terreno insuspeitado pelo marxismo clássico. A natureza dessa luta, porém, é de molde a reduzir drasticamente o alcance ideológico (mas não a magnitude agressiva) da conflitualidade social: já não o confronto entre estratos, económica e ideologicamente determinados, mas tão só o conflito, nu e aparentemente “linear”, entre os que têm e os que não têm, entre os que acedem ao mercado de consumo e os que dele são arredados, mas que sofrem do mesmo modo o seu apelo. A revolta destes aparece, por isso, dissociada de qualquer projecto de emancipação (que, entre muitos outros aspectos, teria também de ser anti-mercantil e pós-consumista).

Deste modo, não se nos afigura possível subscrever a visão, apesar de tudo heróica e um tanto romântica – que aqui transparece -, desta revolta sem direcção, órfã e descrente de todos os «sentidos da história».

Certos autores vão ao ponto de afirmar que, no capitalismo do Estado-Providência – e ainda mais quando este surge corroído por todos os lados – a «luta de classes central» se deslocou do conflito entre capitalistas e trabalhadores, para se localizar no conflito entre os que possuem um emprego estável e decentemente pago e os que estão privados de aceder a um tal emprego. Tais autores referem igualmente as dificuldades que se opõem à formação de uma consciência de classe dos job poor e, portanto, de um movimento político neles baseado: a heterogeneidade do grupo dos desempregados ou dos trabalhadores precários, a ausência de orgulho ou até da simples noção de se pertencer a esse grupo, a inexistência de meios de pressão (como a greve) que pudessem ser utilizados de forma reivindicativa, etc.

À primeira vista, não parece prudente, tanto do ponto de vista da análise sociológica como numa perspectiva política, sustentar que o conflito entre empregados e desempregados suplantou, ou relegou para segundo plano, a luta entre capitalistas e trabalhadores. E, contudo, não é de excluir a possibilidade de, no futuro, virmos a assistir a uma aliança perversa entre capitalistas e detentores de empregos estáveis contra a oposição dos desempregados.

Contrariar uma tal aliança passa, assim, por alargar aos que ainda acedem ao trabalho assalariado a consciência da precaridade dessa situação, e, por conseguinte, da afinidade que os liga à massa dos desempregados.

Estamos todos no mesmo barco, à espera de que ele não se chame Titanic…

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2 Respostas to 'Reflexões actuais (mas pouco natalícias)'

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  1. maria said,

    Devemos todos, europeus, desempregados ou com emprego precários, criar uma plataforma de discussão e acção.
    Quem são os actuais políticos europeus, que Europa queremos conservar e valorizar, desmascarar os que tentam minar a de democracia, os que pretendem a supremacia hegemónica, os que fingem fechar os olhos a um fascismo e a uma xenofobia crescentes, os que se vão apoderando de um poder que não lhes foi conferido aquando da criação da União.
    É urgente essa «Plataforma»!.


  2. Entendo perfeitamente o sentido desta análise e até partilho algumas das suas teses, mas estou mais de acordo com o comentário e a proposta da Maria. A fluidez das situações e a explosão de movimentos algo desconexos e efémeros torna difícil uma análise teórica mais coerente. Gostava de realçar o apelo explícito do PC grego ao povo para que inicie uma guerra a sério, bem pensada e bem organizada com o objectivo de derrubar o governo(sic)!!!
    Entre nós, creio que a luta se tem vindo a acentuar em moldes um pouco diversos.Não é tanto entre quem tem trabalho e quem não tem (isso aqui não faz sentido), mas sobretudo entre os que se agarram a toda a casta de mordomias e de vencimentos e subsídios milionários e os que ganham misérias ou nem ganham nada. Por esta razão não me parece que estejamos todos no mesmo barco. A clique instalada está claramente noutro barco e provavelmente ambos estão destinados a ir a pique a curto prazo, sobretudo se nada for feito para mudar drásticamente de rumo.


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