APEDE


Observações pós-eleitorais – 3

Posted in Cenários da pequena política à portuguesa por APEDE em 23/01/2011

Outro aspecto eloquente dos resultados eleitorais de hoje tem que ver com o facto de todas as dúvidas, mais do que legítimas, que se levantaram durante a campanha eleitoral sobre os negócios de Cavaco Silva não terem sido suficientes para demover o «bom povo português» de lhe dar o voto. Isto revela, uma vez mais, como qualquer escrutínio sobre as figuras que exercem cargos públicos é invariavelmente esmagado pela falta de exigência ética de uma boa parte dos portugueses. Vivemos num país onde os políticos que preenchem funções da mais elevada responsabilidade nunca são punidos pela revelação de aspectos mais sombrios do seu comportamento moral ou até pela demonstração cabal de actos criminosos. Basta recordar a forma como  os eleitores deram vitórias eleitorais generosas a figurões como Fátima Felgueiras, Isaltino Morais ou Valentim Loureiro, e está tudo dito sobre o elevado sentido de responsabilização ético-política que habita a cabecinha de muitos dos nossos conterrâneos. Embora seja bastante provável que Cavaco Silva não tenha incorrido em qualquer ilícito criminal, foram aduzidos dados mais do que bastantes para levantar dúvidas fundamentadas sobre a sua transparência e a qualidade moral de vários dos seus actos, os quais, sendo do foro privado, nem por isso deixam de ter impacto e relevância no plano público e político. Porém, nada disso pareceu incomodar um grande número de eleitores.

Sabe-se, de resto, como diversos comentadores encartados se apressaram a classificar de «campanha negativa» ou «negra» a tentativa de escrutinar certos gestos menos límpidos de Cavaco Silva. Ora, se houve aqui algo de «negativo» ou «negro» terá sido o facto, demasiado gritante, de apenas agora, durante o período da campanha eleitoral, terem sido levantadas suspeitas acerca do carácter e do comportamento de Cavaco Silva e se ter encetado uma investigação jornalística a seu respeito, quando se sabia, desde a publicação de uma já longínqua notícia no «Expresso», que havia motivos para escavar um bocadinho mais na praia do Excelentíssimo Presidente.

Isto esclarece-nos, por sua vez, sobre o tipo de jornalismo praticado em Portugal. Foi preciso que o partido no governo, por motivos de mero interesse eleitoralista, atiçasse essa mesma investigação para que ela fosse efectivamente desencadeada.

Agora, com Cavaco reeleito, podemos estar certos de que tudo irá morrer, e que as suspeitas regressarão à primeira gaveta circunspecta que apareça, apesar dos vários detalhes que ficaram por clarificar.

Entretanto, existe um traço comum a unificar, de modo deprimente, as falcatruas do BPN, a compra e venda das acções de Cavaco Silva, a aquisição da sua moradia no bairro onde se aboletaram alguns mafiosos do cavaquismo e a forma, igualmente opaca e fedorenta,  como o governo de Sócrates telecomandou a investigação jornalística desses casos. Em tudo isso se nota o triunfo do chico-espertismo elevado ao estatuto de filosofia dominante de uma certa classe política.

(I)moral da história:

No país dos chico-espertos, todo o chico-esperto (ou aspirante a tal) está disposto a perdoar a um chico-esperto bem sucedido. E até a votar nele.

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