APEDE


Lições da Tunísia e do Egipto

Independentemente da evolução futura – ainda tão incerta – nas condições políticas e sociais de países como a Tunísia e o Egipto, há pelo menos duas evidências que deveriam ser irrecusáveis mesmo para os mais cépticos ou cínicos:

– Que o fim do «fim da história» não cessa de terminar, e que as transformações chegam de onde menos se espera. Tal como os pseudo-especialistas em sovietologia que, no início dos anos 80, se mostravam perfeitamente convencidos da total imobilidade da URSS e dos seus satélites europeus, e que foram depois apanhados numa completa surpresa perante o colapso, sucessivo e acelerado, desses regimes, também agora os pseudo-especialistas em islamologia devem andar desesperados, sem saber muito bem o que fazer com os seus mapas cognitivos. De facto, a mudança surge em sociedades que têm sido pintadas, na arrogância ignorante do «Ocidente», como estruturalmente conservadoras, cheias de pessoas cabisbaixas que, no conformismo político face a ditaduras, se limitariam a reproduzir a «submissão» própria do Islão . Em suma: sociedades de gente supostamente incapaz de amar a liberdade e de viver em democracia. Não sabemos ainda se a democracia se instalará na sequência da queda dos ditadores, mas parece evidente que, como na canção do Sérgio Godinho, a liberdade está a passar por ali. Lição maior: a fome de liberdade também pode crescer à sombra das mesquitas.

– A outra evidência, que deveria encerrar para nós, portugueses e europeus, a mais básica das lições: uma população explorada e oprimida, quando se une e toma consciência da sua força, constitui uma força imparável e irreprimível. Não há polícia ou exército que a faça deter ou a possa quebrar. Por um motivo muito simples: é que ela representa, na simples aritmética dos números, uma maioria muito mais maciça e esmagadora. Uma população assim é um maremoto político. Bem podem os ditadores ensaiar os truques do costume, como Mubarak intentou e como, bem antes dele, Ceausescu experimentou na Roménia. Em vão.

Muitos milhares, que se percebe serem a guarda avança de muitos milhões, são um argumento de peso irresistível.

E esta verdade não pode deixar de ser embaraçosa para nós, europeus, assolados por um poder político-económico apostado em espoliar quem trabalha, em precarizar crescentemente as suas condições de vida, em destruir direitos sociais duramente conquistados, e que perante tudo isto não esboçamos um gesto de revolta consequente e preferimos ficar amodorrados no nosso cantinho, a remoer as nossas desgraças e a contar os cêntimos que ainda nos permitam iludirmo-nos com uma vidinha de consumidores, passivos e aflitos.

Será preciso regredirmos socialmente na Europa ao ponto de miséria em que vive a maioria dos povos no mundo árabe para sermos, finalmente, capazes de sacudir o jugo?

Se assim for, teremos de reconhecer que é bem triste a vida dos escravos… 

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