APEDE


A propósito da manifestação do dia 12…

Posted in Simplesmente precários por APEDE em 09/03/2011

Há duas semanas atrás, um dos melhores canais europeus da TV por cabo – o canal franco-alemão «Arte» – dedicou uma noite das suas emissões a um tema: o declínio social (ou a «desclassificação») da classe média. Dois documentários foram transmitidos, ambos centrados na Europa, focando especialmente os casos da França e da Alemanha.

O primeiro documentário falava de jovens altamente qualificados que não conseguem arranjar empregos à altura das suas habilitações, que passam a vida a fazer biscates mal remunerados, saltitando de subemprego em subemprego, incapazes de aceder a casa própria num mercado habitacional de preços inflacionados, sem o mínimo de autonomia e de perspectivas de futuro estável. E os jovens franceses que ali davam a cara como exemplos desta nova precariedade não eram exactamente recém-licenciados com um diploma fresquinho nas mãos. Andavam quase todos na casa dos 30 anos, uma idade, como um deles dizia, em que seria razoável pensar em criar uma família, se para tal houvesse condições.

De repente, vemo-nos a olhar para a França como se estivéssemos a contemplar Portugal. As mesmas queixas, a mesma frustração, o mesmo horizonte cerrado. E percebemos que o fenómeno da precariedade, de que tanto se fala agora, é afinal um fenómeno de escala europeia, e talvez mesmo ocidental (se incluirmos os Estados Unidos). Uma precariedade que, de resto, não incide unicamente numa específica «geração à rasca». O documentário de que falamos abordava também o caso de quadros altamente qualificados, que passaram por postos com elevadas remunerações e que se vêem, mercê da «reestruturação» das empresas, atirados para o desemprego e para a espiral descendente do subemprego mal pago. E aqui estamos a falar, não de jovens com 20 ou 30 anos, mas de pessoas com 40 ou mais anos, daquelas que chegaram a encetar o tal projecto de criar uma família e que, de um momento para o outro, se confrontam com uma existência amputada de futuro. Alguns ainda esbracejam para ostentar a imagem do seu anterior estatuto social nos bairros luxuosos onde pensaram poder viver. Ainda envergam as antigas roupas de marca. Mas, para alimentarem os filhos, ei-los a vender as jóias da família na «feira da ladra» lá do sítio.

Sintoma de uma doença profunda deste capitalismo do século XXI, a organização interna do mercado laboral mostra-se incapaz de absorver, de forma estável e duradoura, os que possuem elevadas habilitações, cujo número não tem cessado de crescer por toda a Europa. Existe hoje uma desproporção dramática entre a criação e manutenção do nível de emprego, por um lado, e a oferta de trabalhadores qualificados, por outro – como se o sistema nada tivesse para dar aos que iludiu com a perspectiva de que o acesso democratizado ao saber se traduziria em progressão na pirâmide social.

Quando olhamos para um passado não muito distante, perguntamo-nos como foi possível chegarmos aqui. Nos anos 80, o que uma certa esquerda europeia discutia era a possibilidade de transformar o «desemprego técnico» – aquele desemprego estrutural e inevitável – em oportunidade de um novo bem-estar social. Pensava-se então que os países industrializados conseguiriam gerar riqueza suficiente para que ela fosse distribuída de modo a assegurar um rendimento mínimo – bem acima do limiar de sobrevivência – a todos aqueles que se encontrassem desempregados. Estes teriam então a possibilidade de uma vida decente, mesmo sem emprego. A equação trabalho-tempo livre seria repensada, e o «desempregado» poderia dedicar o seu tempo a tarefas de auto-enriquecimento – voluntariado social, actividades artísticas, investigação, etc. Acreditava-se que a concretização desta utopia estava ao virar da esquina – esquecendo, aliás, o «pequeno» detalhe dos muitos milhões de seres humanos que continuariam, fora do pequeno núcleo dos «países ricos», a penar na pior das misérias.

Alguma coisa correu mal, entretanto, para que hoje essa utopia tenha sido relegada para o limbo das coisas impensáveis…

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2 Respostas to 'A propósito da manifestação do dia 12…'

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  1. Gato Preto said,

    Este programa é assustador.
    Cheque-ensino? Sabem o que significa? É o Estado (ou seja, todos nós) a pagar os colégios dos filhos dos ricos. Sim, porque alguém acredita que o S. João de Brito ou o Valsassina aceitarão pretos da Cova da Moura, ciganos ou alunos com NEE?
    E, depois, é tudo a falar de empresarialização, de “performance” e outras trampas tecnocráticas.
    E, como muito bem notou o Paulo, é a ideia de submeter todo o sistema educativo à lógica do mercado. No Reino Unido, essas políticas levaram a que, em algumas universidades, os departamentos de Filosofia fechassem, porque os administradores da universidade achavam que não davam rendimento nem garantiam empregabilidade. E atrás deles irão a História, a Geografia, a Sociologia e as Ciências Humanas em geral. É isto que querem?
    Comigo não contam. Nem socretinos nem passinos. Como diria o outro: Safa!Safa!Safa!

  2. Mário Machaqueiro said,

    Gato,

    Este seu comentário é, com certeza, destinado ao “post” que vem a seguir. Mas tudo bem. Subscrevo tudo o que diz. Os mitos da “empresarialização” e do “empreendedorismo”, associados a outros mitos – a “eficácia” e o “sucesso” -, andam a tentar assassinar tudo o que é pensamento crítico. Há poucos anos atrás, andou por aí nas escolas (não sei se ainda anda) um tal Programa EPIS que, entre outras maravilhas, prometia ensinar às criancinhas as vantagens do “empreendedorismo”. Esse programa era financiado pelo Sr. João Rendeiro. Ora aqui está um modelo de “empreendedor” que toda a gente deveria seguir!


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