APEDE


Um filme que não vai acontecer

Posted in Realidade virtual por APEDE em 24/03/2011

Era uma vez um político chamado António José Seguro.

(Está aqui uma fotografia dele para saberem de quem estamos a falar)

José Seguro era assim uma espécie de sempiterno líder do PS que há-de vir mas que nunca vem. Não arriscava, aguardava sempre a melhor oportunidade, a conjuntura mais favorável, etc., etc. Talvez por achar que devia fazer jus ao seu nome (às vezes há coisas assim, um bocado estranhas…).

Ora acontece que um dia, farto de jogar pelo seguro, o António José (Seguro) resolveu, por uma vez, contrariar o destino traçado pelo seu nome e arriscar.

Conseguiu então juntar à sua volta o que restava da esquerda (muito, mas mesmo muito moderada e muito, mas mesmo muito tresmalhada) no seu partido e…

… não é que conseguiu vencer as eleições internas contra a camarilha de um fulano que passava por engenheiro e que tinha um nome de filósofo ao qual era incapaz de fazer jus?

Ao contrário do que alguns poderiam vaticinar, o António José Seguro tinha, de facto, um programa de esquerda (muito moderada, é certo). Entre ele incluía-se a ideia – que algumas pessoas poderão achar estranha – de que políticas apostadas em empobrecer quem trabalha e em fazer regredir as sociedades europeias para níveis sociais do século XIX não eram compatíveis com a recuperação da economia e com o fim do envididamento. Vai daí resolveu fazer uma aliança com uns senhores que fingiam de trotskistas mas que, na verdade, eram cada vez mais parecidos com os social-democratas da Suécia (havia de facto, entre eles, alguns que ainda acreditavam ser trotskistas mas esses não contavam para nada).

O programa que o António José Seguro construiu com eles não tinha nenhuma revolução lá dentro, não prometia o fim da exploração do homem pelo homem nem pretendia ir rumo ao socialismo (seja lá onde isso for).

Pretendia, tão-só, umas tantas coisas singelas:

– Procurar uma concertação de todos os países da zona euro em risco de total falência social devido a uma equação que somava empobrecimento, desemprego, declínio económico, endividamento que levava a mais empobrecimento, a mais desemprego, a mais declínio económico, a mais endividamento. Essa concertação teria, como objectivo, obrigar os credores da Alemanha e da França a renegociar o resgate da dívida em prazos mais longos e com base noutras políticas em ruptura com as regras do PEC. A ideia era explicar, devagarinho, que, se não fosse esse o caminho, o próprio euro estaria em risco (coisa de que a Alemanha não devia gostar).

– Introduzir medidas de equidade fiscal, que colocassem o maior peso das contribuições sobre quem detinha os maiores rendimentos, e gerassem assim meios para financiar o tal Estado Social de que muitos falavam sem estarem dispostos a sustentá-lo devidamente.

– Lutar para que essas medidas fossem adoptadas à escala europeia, na base de uma harmonização que impedisse o “dumping” fiscal.

– Estimular o crescimento económico através de políticas definitivamente voltadas para o apoio às indústrias produtoras de bens transaccionáveis – desincentivando a indústria do betão e os monopólios rentistas.

– Cortar em todos os gastos realmente supérfluos no Estado e varrer todo o nepotismo partidário dos cargos públicos.

Com este programa, o António José Seguro até pôde contar com o apoio (tácito, bem entendido) de uns senhores que se diziam comunistas e que até eram comunistas mas que, lá no fundo, muito lá no fundo, sabiam que o comunismo iria ficar sempre para as calendas gregas (que são assim uma coisa muito, mas mesmo muito distante).

E não é que, com tudo isto, o partido do António José Seguro ganhou as eleições em Portugal com uma maioria relativa, mas folgada?

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4 Respostas to 'Um filme que não vai acontecer'

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  1. carlos marinho rocha said,

    Era bem urgente! Mas será Seguro capaz de enfrentar Sócrates?


  2. De facto, alguns (poucos) barões socialistas, gostam de assumir uma postura de certa dignidade, dão-se ares sérios e aqui e ali até concordam a contragosto com uma ou outra crítica de somenos ao sr. Sousa. Estão nesta categoria nomes como o José Seguro, a Mª de Belém, o Vitor Ramalho e poucos mais. Mas, que ninguém se engane com o seu ar sizudo. Nenhum ousou jamais distanciar-se quer da essência do consulado socratino em geral quer dos principais cambalachos, vigarices e escandaleiras onde o sr.Sousa e os seus mais directos colaboradores sempre se envolveram. Bem pelo contrário. Todos, mesmo todos optaram por pactuar activa ou passivamente com a série interminável de actuações políticas que precipitaram o país no maior desastre da sua história. Como poderão ter a desfaçatez de vir agora fingir que não têm nada a ver com isso? Que poderão dar a volta aos problemas? Ainda acreditam no pai natal?????

  3. Mário Machaqueiro said,

    Por tudo isso, Zé, é que este “post” leva o título de «Um filme que não vai acontecer». No entanto, risca o nome de José Seguro e coloca, em seu lugar, uma incógnita, e verás que o filme da realidade alternativa de que precisamos teria de passar por algo parecido com o que aqui se imagina.


  4. […] Um filme que não vai acontecer […]


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