APEDE


Teimosias, cegueiras e molezas

Posted in Tristezas da política pátria por APEDE em 26/03/2011

Corre por aí que o PS vai dar tudo por tudo para que a suspensão da ADD, ontem aprovada, seja chumbada ou pelo Presidente ou pelo Tribunal Constitucional. É um exemplo deprimente de teimosia e de ressabiamento. O PS socratino tem uma raiva miudinha aos professores, a única classe profissional que o enfrentou maciçamente, que o contestou e que, até uma certa altura, se lhe opôs nos locais de trabalho. Sendo a ADD uma questão simbólica (e não só) e tendo estado sob o fogo mediático, o PS socratino não suporta a derrota que ontem sofreu.

A bola está agora nos pés de Cavaco Silva. E, infelizmente, os professores têm aqui de recear o pior. Cavaco foi um suporte irredutível de todos os disparates e aleivosias que marcaram a política educativa dos governos socratinos. Será que agora vai ter um lampejo de decência e fazer o que a sanidade política lhe deveria ordenar?

De resto, toda esta teimosia de Sócrates e do PS não passa disso mesmo: de uma atitude de vingança que não terá, no futuro, quaisquer frutos duradouros. Pois só na hipótese, cada vez mais improvável, de o PS socratino ganhar as próximas eleições, este modelo de ADD poderia prevalecer. Assim, tudo o que o PS possa ganhar agora neste assunto é uma aquisição – de pequeníssima política – que se irá esboroar na próxima legislatura. E só por uma vingança mesquinha? Isto diz tudo o que hoje faz a essência desse partido…

Passando da mesquinhez para a cegueira, temos outro exemplo triste: o de Pacheco Pereira. Ontem justificou ter votado contra a suspensão com dois espantosos “argumentos”: 1) a suspensão da ADD vai implicar o regresso do facilitismo às escolas; 2) essa suspensão significa que os sindicatos de professores vão passar (ou vão voltar a) mandar nas escolas. Os docentes ouvem e não acreditam: só um homem totalmente desvinculado da realidade da vida docente, do quotidiano das escolas e do que foi o processo que desembocou na votação de ontem é que pode afirmar semelhantes disparates.

Vale a pena contra-argumentar? Bom, comecemos pelo primeiro pseudo-argumento: para todos os que sofreram este modelo de avaliação, é óbvio que nenhum rigor científico pode caber em critérios e grelhas que burocratizam e o trabalho do professor até à náusea, pretendendo ao mesmo tempo uniformizar o que não é uniformizável, ainda por cima na base das premissas mais imbecis da “pedagogia” bostaniana. Pacheco Pereira ignora tudo isto? Se ignora, deve estar calado e não dizer asneiras. Se não ignora e mesmo assim as afirma, estamos então perante a mera desonestidade intelectual.

O segundo “argumento” ainda é mais hilariante. Os professores sabem bem que a suspensão que ontem ocorreu também foi feita contra os sindicatos, e não a favor. Como a ministra dos beijinhos fez questão de sublinhar, este modelo de ADD decorria, inteirinho, do acordo que os sindicatos assinaram com ela, e por isso os sindicalistas-que-temos andaram caladinhos enquanto os professores reencetaram a contestação da ADD. Dizer que, com o resultado de ontem, os sindicatos vão passar a mandar nas escolas é algo que só pode ser proferido por quem não põe os pés numa escola há muito tempo.

Mas podemos ir um bocadinho mais longe na desmontagem deste segundo “argumento”. E se os sindicatos, efectivamente fortes, coerentes e determinados na defesa dos direitos dos seus representados, tivessem influência nos locais de trabalho, qual era o problema disso? Aqui tocamos no ponto cego do dogmatismo ideológico dos Pachecos Pereiras deste mundo. O que eles apreciam é uma realidade laboral e social em que os trabalhadores comem e calam o que as entidades patronais decidem, com os sindicatos arrumadinhos a um canto. Que os trabalhadores tenham poder nos seus espaços laborais é uma imagem que provoca nestes liberalóides de trazer-por-casa o mesmo efeito que o alho produz sobre os vampiros.

Por fim, uma nota breve a propósito da moleza. Parece que, segundo o Expresso, António José Seguro, sobre o qual nos entretivemos a fantasiar num “post” lá mais para baixo, está disposto a «dar uma mão» a Passos Coelho. Não sabemos se é por uma questão de solidariedade entre antigos “j’s”. Sabemos apenas que, se a notícia for verdadeira, só vem reforçar o lado fantasista do que escrevemos: o nosso filme imaginado não vai mesmo acontecer.

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6 Respostas to 'Teimosias, cegueiras e molezas'

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  1. mimo said,

    O facto é que continuamos a ter que a suportar até que se decidam. A alegria foi curta. Que motivos levarão tantas cabeças a errar em matérias com as quais lidam diariamente? Dá que pensar…

  2. sim carolina said,

    Era um descanso se tivessem sido os professores a acabar com a coisa.

  3. Reserva Infederal said,

    O que o Pacheco quer é tacho? Se não o tiver no PsD…

  4. Leitor said,

    Refrescando a memória:

    “O ACORDO SOBRE A CARREIRA
    O Governo, repetidamente, afirma que este modelo de avaliação resultaria de um acordo com os sindicatos, esquecendo-se de acrescentar que tal acordo incidiu essencialmente sobre a carreira, sendo a avaliação o seu aspecto mais negativo. A FENPROF denunciou, desde logo, esse facto, demarcando-se de forma bem notória em termos públicos.
    O que foi efectivamente acordado, com excepção para o actual modelo de avaliação de desempenho, foi desrespeitado pelo ME, tendo o seu não cumprimento impedido milhares de professores de progredirem na carreira, conforme o tempo de permanência estabelecido nos escalões.
    Só por falta de seriedade política pode alguém alegar tal acordo em sua defesa quando impôs, por força do Orçamento de Estado para 2011, o congelamento das progressões e reduziu unilateralmente o valor das remunerações de cada escalão.
    É ainda de referir que esta avaliação, ao contrário das afirmações da Ministra da Educação, não estava a ser aplicada com normalidade nas escolas, como atestam as centenas de posições por estas tornadas públicas, assim como pelos próprios dirigentes das escolas. Foi a FENPROF – convém recordar – que, face a tão evidente constatação da anormalidade deste processo, exigiu a sua suspensão, quer junto do Governo, quer da Assembleia da República, logo no final do 1º período lectivo do ano em curso.”
    http://www.fenprof.pt/?aba=27&mid=115&cat=53&doc=5592

    Caluniando sempre:
    “Os professores sabem bem que a suspensão que ontem ocorreu também foi feita contra os sindicatos, e não a favor. Como a ministra dos beijinhos fez questão de sublinhar, este modelo de ADD decorria, inteirinho, do acordo que os sindicatos assinaram com ela, e por isso os sindicalistas-que-temos andaram caladinhos enquanto os professores reencetaram a contestação da ADD.”


  5. Creio ser grave que uma personagem como Pacheco Pereira se posicione desse modo, e, pior ainda, tal opinião seja tb partilhada por outros comentadores de serviço em várias estações televisivas. É grave porque todas essas pessoas se tornaram mais conhecidas por serem críticos contundentes do socratismo. E, no entanto, não hesitam em alinhar acriticamente com esta bandeira do sr. Sousa. Já que se acham tão conhecedores do assunto sem ter a mínima noção do que falam, poderiam ao menos reflectir um minuto que fosse sobre este facto simples:- Digam-me que aspectos positivos sairam da ADD nestes anos que tivessem contribuído para melhorar a educação deste país???? Apontem um único que seja! Estão a ver que não são capazes!!!! E continuam a afirmar a pés juntos que a avaliação docente é muito importante. Mas importante para quê? O que se espera conseguir com ela? Isso não sabem, nem lhes interessa! É a prova provada do sucesso das campanhas socratinas de marketing descarado onde muitos continuam a embarcar.

  6. Mário Machaqueiro said,

    Leitor,

    Poderá invocar, tantas vezes quanto quiser, as discursatas da Fenprof. O que importa são os actos. E, uma vez mais, se comprovou que, se não tivessem sido os professores a mexerem-se, nas várias declarações colectivas contra a avaliação que foram sendo divulgadas, é quase certo que os deputados da oposição não teriam tomado a iniciativa que tomaram. A Fenprof, em contrapartida, preferiu assobiar baixinho contra uma coisa que, de facto, decorria do acordo que assinaram com a ministra. Mas é claro que, para o «Leitor», tudo o que a Fenprof faça releva dos artigos de fé.


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