APEDE


Fabricação do consentimento

Posted in Contra a miopia analítica por APEDE em 07/04/2011

Ontem, em várias escolas deste país, havia professores firmemente convencidos de que o governo já tinha decidido suprimir o subsídio de férias dos funcionários públicos. Apetece perguntar: e que tal dizer a esses nossos colegas que, para a semana, os seus nomes vão constar de uma lista de excedentários para serem despedidos da escola? Já que fazem tanto gosto em sofrer por antecipação…

Se esta conformação com o «estado das coisas» aparece tão enraizada em gente com cursos superiores – e que, portanto, deveria dispor de instrumentos cognitivos para desmontar melhor a realidade que a cerca -, imagine-se como estará o restante «bom povo português»…

Neste momento, assiste-se a uma campanha mediática de fabricação do consentimento como já não se via neste país há algum tempo. Essa campanha, em que participam jornalistas acríticos e economistas serventuários, assenta em três discursos devidamente articulados: o discurso do medo, o discurso da fatalidade e o discurso da culpa.

O discurso do medo destina-se a colocar as pessoas num estado tal de insegurança anímica que elas ficam predispostas a aceitar todo o mal que lhes possa acontecer por antevisão de algo ainda pior (a que elas, de resto, já anuíram psicologicamente).

O discurso da fatalidade opera uma distorção, típica dos dispositivos ideológicos, que consiste em tomar como natural e inevitável aquilo que, na verdade, é político e histórico, ou seja, resultante de escolhas entre alternativas diferentes. O discurso da fatalidade pretende convencer-nos de que não há alternativas, mas apenas um único caminho. De cada vez que um economista surge na TV a afirmar que «a vinda do FMI é uma inevitabilidade», está simplesmente a escamotear o facto de que existem outras vias e que só por uma escolha política elas são eliminadas.

Finalmente, o discurso da culpa. Este procura levar os cidadãos comuns, que trabalham e pagam os seus impostos, a interiorizarem que, se o país está como está, é por se terem endividado «para além do admissível», por terem vivido «acima das suas possibilidades», e que agora vão ter de pagar pelos seus pecados de soberba financeira. O discurso da culpa é o discurso do Pai castigador (o FMI) ou da Mãe punitiva (a Sra. Merkel) que vêm abater toda a sua ira correctiva sobre o Filho irresponsável. Cedendo à pressão deste discurso, é a própria possibilidade de revolta que fica cancelada – visto que ela tornaria o cidadão ainda mais culpado aos seus próprios olhos.

Juntos, estes três discursos formam uma narrativa que, de facto, não passa de uma história mal contada. Para retomarmos o fio à meada da nossa capacidade crítica, há que nos apropriarmos da História que esta «estória» não deixa ver.

4 Respostas para 'Fabricação do consentimento'

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  1. Todos sabemos a que conduzem as receitas do FMI, mas tenho para mim que a diabolização que o sr. Sousa faz dessa instituição não tem nada a ver com patriotismos ou ainda menos com mais austeridade em cima do povão. A razão é muito outra. Quando os técnicos do FMI de que Portugal é sócio, aterrarem na portela, iniciarão de imediato um escrutínio minucioso às contas públicas e assim se saberá das vigarices, leia-se desorçamentações, adiamentos, contratos ruinosos, gestão danosa, etc, em que o consolado socratino tem sido fértil (basta lembrar as 50 PPPs da autoria do animal feroz). Assim, compreendendo tardiamente que essa “ajuda” estava à porta, o sr. Sousa inicia uma fuga para a frente, fazendo crer que o odioso dessa vinda era culpa de outrem. Estas manobras só podem levar cada vez mais vastas camadas da população a abominar a classe política. E depois ainda se queixam.

  2. Mário Machaqueiro said,

    Caro Zé,

    Creio que essa ideia de que a entrada em força do FMI em Portugal trará um escrutínio rigoroso das contas públicas é outro dos mitos que nos andam a ser impingidos. Os srs. do FMI estão-se nas tintas para saber se as contas são ou não rigorosas desde que consigam garantir, através de uma punção maciça nos rendimentos de quem trabalha e nas prestações sociais do Estado, que a cáfila usurária tem o seu reembolso assegurado. O resto são “detalhes” que os “nossos” credores nem estão muito interessados em revelar, pois desse modo muitas das suas cumplicidades no estado actual do país se tornariam conhecidas.
    Abraço


  3. Com FMI, sem FMI, está na hora de aprofundar a justiça social e uma melhor redistribuição da riqueza, encarando de frente a necessidade de se taxarem a sério as grandes fortunas e os grandes lucros das empresas que, directa ou indirectamente, têm sido “protegidas” pelo Estado. Dou um pequeno exemplo: se há empresas privadas que se dão ao luxo de pagar salários mensais na ordem dos 50 mil euros (falo das empresas de comunicação social) não deveriam ser chamadas a pagar mais impostos, nestes tempos de crise? Se podem pagar salários desse nível é porque têm lucros, se têm lucros devem ter também uma maior consciência social e o Estado terá de tomar medidas nesse sentido. A crise não pode ser paga sempre à custa dos mesmos, enquanto outros se riem de tudo isto.

  4. Mário Machaqueiro said,

    Ricardo,

    Um bocadinho mais e estou-te a ver a militar no Ruptura/FER (!!!).
    Agora a sério, é óbvio que tens razão. Mas isso que indicas seria só o princípio do muito que teria de ser feito neste desgraçado país.
    Abraço


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