APEDE


Ainda sobre a avaliação: um comentário que se impõe

Posted in (Des)avaliação por APEDE em 08/04/2011

Nas semanas que antecederam a lamentável decisão de Cavaco Silva, fomos brindados, na comunicação social, com um coro de “opinadores” que afinaram pela mesma bitola da pressão política. O “argumento”, sem vírgulas nem pontos, resume-se assim:

a avaliação dos professores não pode ser suspensa porque a avaliação é uma coisa muito boa e porque sem avaliação dos professores o ensino é um caos os resultados dos alunos descem no PISA o mérito não é reconhecido os professores não são diferenciados os melhores e os piores ficam todos a ganhar o mesmo o que é uma injustiça e a avaliação é muito boa e os professores devem ser todos avaliados.

Quem assim “opinou” pertence à erva daninha que, de há algum tempo a esta parte, grassa por tudo o que é órgão de comunicação: são os famosos “tudólogos” que, como o conceito sugere, de tudo falam e de nada percebem.

Se os tudólogos descessem da sua elevada tudologia para o terreno onde as escolas se situam e onde os professores trabalham, se os tudólogos se tivessem dado ao trabalho de (ao menos) lerem os critérios e as grelhas de avaliação com que o Ministério pretende avaliar os professores, talvez (talvez!) percebessem uma coisa elementar:

com aqueles critérios e com aquelas grelhas é absolutamente impossível identificar um bom professor, um professor que se dedica à aquisição e à transmissão do saber, que consegue galvanizar e marcar os seus alunos – os que estejam, obviamente, dispostos a aprender -, que é justo e rigoroso na avaliação desses alunos, etc., etc.

Porque um bom professor não cabe no colete-de-forças, concebido e imposto em doses maciças de “eduquês”, no qual o modelo ministerial de avaliação o quis meter. Um modelo cujos dislates foram tão bem desmontados pelo Mário Carneiro no seu blogue. Aliás, os tudólogos que se entretiveram, nas semanas anteriores, a perorar sobre a avaliação dos professores, deviam ser obrigados a ler o que o Mário escreveu sobre o assunto. A ler tantas vezes quantas fossem necessárias até encornarem aquilo que é evidente para qualquer pessoa com sanidade mental:

este modelo, por ser uma completa aberração, não só não consegue identificar o bom professor como faz até pior:

penaliza o bom professor, castiga-o, fá-lo sentir-se encurralado.

Em contrapartida, o mau professor que fizer muitos “bonitos” na escola, muitas visitas de estudo só para exibir na lapela, muitas florinhas para pôr no porta-folhas, que dê umas tantas aulas encenadas para assistente ver, que distribua muitas notinhas positivas pelos alunos e que encha de baba o seu avaliador, pode ser eventualmente a maior nulidade científica e pedagógica deste mundo, mas o modelo ministerial de avaliação passa-lhe, garantidamente, o certificado de «porreiro, pá».

Ora, de que serve um modelo de avaliação assim, um modelo que premeia o medíocre e reprime o que é realmente bom?

Resposta: só serve para acentuar o que, no nosso sistema educativo, já é suficientemente disfuncional.

Portanto, arriscamo-nos a “ousar” uma pequena tese:

entre este modelo de avaliação dos professores e a total ausência de avaliação dos professores, é mil vezes preferível a segunda hipótese.

Os tudólogos que durmam descansados: se os professores não forem avaliados nos tempos mais próximos, o sistema de ensino não fica melhor, mas também não fica pior (como certamente ficaria se o actual modelo sobrevivesse a esta legislatura).

Na mais benevolente das eventualidades, fica na mesma.

 

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4 Respostas to 'Ainda sobre a avaliação: um comentário que se impõe'

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  1. Infelizmente para todos nós, não são só os tudólogos a professar tal opinião. Diversos intervenientes de vários quadrantes surgem amiude nos media a verberar o chumbo da ADD porque, dizem, agora se vai cair no facilitismo.Isso só mostra quanto a máquina propagandística do sr. Sousa tem trabalhado no sentido de ir amaciando os espíritos (alguns), repetindo as mentiras tantas vezes até parecerem verdade. Nenhum desses iluminados, e já vi muitos, tem a mínima noção do conteúdo da ADD ou sequer das suas perniciosas consequências. Mas sabe (ou julga saber) uma coisa: a ADD é em si mesmo algo de bom, de importante e de positivo, logo nunca devia ter ido para o lixo (que é o seu lugar próprio). Temos portanto, um longo trabalho pela frente, nós professores, para desfazer um mito tão falso como falsas são as habilitações de quem o sustenta (leia-se sr. Sousa e acólitos).

  2. Mário Machaqueiro said,

    Na verdade, Zé, seria necessário ir ainda mais longe e desmontar o mito da premência absoluta da avaliação do desempenho dos trabalhadores, um mito importado da ideologia gestionária que se impôs no mundo empresarial e ao qual todos nós capitulámos um pouco nestes últimos anos.

  3. maria said,

    Ser Professor é perigoso para quem quer manter a ignorância.
    Analfabetismo, ileteracia, nacional porreirismo e boas taxas de “sucesso” é o que agrada e ao que nos convidam.
    Mas que o ambiente, nas Escolas, é de medo e nada tem do convívio saudável de País Democrático é uma realidade que já ninguém pode esconder.
    Trama o colega e esconde o que sabes, ouves, ou pensas…para agradar ao que está no poder que é tão pequeno…(o director, o coordenador, odelegado, o nomeado)!

  4. gorditamini said,

    Esta ADD só me dá vómitos; em todo o caso solicitei Aulas Observadas… passaram-se cerca de duas semanas após a Observação referida. Entretanto o Velho de Belém mandou para o TC- MAS, o que me preocupa, para além desta Insana ADD é, também, o facto de o Relator, nada ter dito/escrito sobre as aulas que observou!!! Cerca de 2 semanas… O que devo fazer? Outros colegas têm o mesmo problema com o Relator?


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