APEDE


Operação silêncio

Posted in Alternativas rasuradas por APEDE em 09/04/2011

Uma das coisas mais deprimentes do debate político actual no nosso país é a forma como as máquinas de fabricação do consentimento silenciam as alternativas que têm sido pensadas e propostas para responder à crise em que estamos mergulhados. Os “media” e os opinadores tudológicos, mais os que pertencem aos partidos do centrão e que têm sempre acesso privilegiado à comunicação social, tudo fazem para persuadir o zé povinho de que só há uma via e de que ela é inevitável.

Contudo, existem propostas como as do PCP, que apontam para a renegociação dos prazos, dos montantes e dos juros a pagar pela dívida, para a criação de uma frente comum dos países com problemas de endividamente de forma a que, juntos, imponham a Bruxelas uma outra política que não a do empobrecimento maciço dos seus povos, bem como para a diversificação das fontes de financiamento, com recurso a empréstimos, em condições muito mais favoráveis, junto de outros países fora da Europa – uma ideia que também está incluída nas medidas advogadas por Boaventura de Sousa Santos.

Também existem sugestões ainda mais ambiciosas, que passam pela remodelação profunda das instituições europeias e da lógica que preside ao euro enquanto moeda única, já que é aí que assentam muitas das disfuncionalidades que conduziram Portugal e outros países à situação catastrófica em que se encontram. Propostas como a que faz o economista Frédéric Lordon na última edição francesa do Monde Diplomatique, sugerindo que o euro seja desdobrado em dois níveis: o de uma moeda única para as relações monetárias exteriores e o de várias “moedas” nacionais, com paridades não rigidamente fixadas, que poderiam ser desvalorizadas para efeitos de competitividade quando fosse necessário – e isto tendo em conta que, na ausência de moedas nacionais desvalorizáveis por decisão de bancos centrais nacionais, está-se actualmente a querer atingir o mesmo efeito da desvalorização da moeda através da diminuição radical dos salários e das prestações sociais, com os resultados trágicos que estão à vista de todos.

Ora, nenhuma destas ideias chega ao debate público em Portugal. É como se elas não existissem, nem merecessem ser discutidas.

E esta mentira também vai a votos no próximo dia 5 de Junho.

Assim se vai criando na cabeça do cidadão comum, sem meios para aceder a informações alternativas, a noção de que só existe um caminho: o do FMI, com a sua criminosa política de depauperação dos trabalhadores, de desemprego maciço, de reforço draconiano das condições de exploração e de opressão nos locais de trabalho, de redução do Estado a pouco mais do que um distribuidor de esmolas (porque o resto foi privatizado). Tudo para que a transferência brutal de rendimentos do Trabalho para o Capital se possa efectuar tranquilamente e sem resistências, colocando os países periféricos numa situação de quase escravatura em relação aos banqueiros que detêm as suas dívidas. Países subjugados a uma economia em permanente recessão e em permanente endividamento, que não conseguirão gerar mais produto senão o necessário para pagar juros de uma dívida interminável.

A dívida “soberana” que matará toda a soberania nacional.

Mas há outros caminhos. O problema é que estão a ser rasurados da discussão pública.

 

 

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2 Respostas to 'Operação silêncio'

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  1. Filipe said,

    Tal como na Islândia, é necessário que os portugueses sejam chamados a referendar qualquer acordo com o FMI.

    • Leitor said,

      A Islândia não faz parte da União Europeia.
      A UE não respeitou o referendo na Irlanda que disse não ao “tratado de Lisboa”, em 2008, e fez chantagem até haver novo referendo favorável.
      A solução era mesmo sair da zona euro.


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