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Portugal: questão que temos connosco mesmos

Posted in Ai Portugal por APEDE em 13/04/2011

(Sob o signo de Alexandre O’Neill)

Face à terrível crise actual, podemos perguntar-nos o que ela nos diz sobre o nosso país.

E aí temos duas hipóteses possíveis. Uma, a mais fácil porque menos intelectualmente exigente, é entregarmo-nos aos discursos identitários do costume: «Portugal é uma piolheira», «Portugal é o cú da Europa» (variante metafórica do mais directo «este país é uma merda»), «país pequenino» ou «Portugal dos pequeninos», «Pátria madrasta», «vergonha de país», etc., etc. Estes discursos, que praticam uma espécie de auto-racismo (quase sempre glosado por quem possui de si mesmo uma imagem que o resgata de todos os seus conterrâneos), são tão delirantes como os discursos inversos, que prometem de nós mesmos uma representação hipertrofiada:

Em alternativa a estes discursos, que dizem muito mas pensam pouco, é preferível ensaiarmos uma tentativa para perceber, fora dos estereótipos, que parte nos cabe na situação em que hoje estamos.

Ora, uma primeira constatação, já assinalada por vários historiadores e que Francisco Louçã recorda no seu livro recentemente publicado, é que crises como a que estamos a viver têm sido frequentes, se não mesmo regulares, ao longo da história de Portugal, com particular incidência no nosso pobre século XIX, numa sucessão de catástrofes que culminaram com a bancarrota de 1891, e cujos efeitos políticos se fizeram sentir, para além da queda da monarquia, até à ascensão ao poder de Oliveira Salazar. Num certo sentido, Salazar foi o FMI dos anos 30, e todos sabemos (ou devíamos saber) o que isso custou ao país: uma ditadura e um prolongadíssimo atraso.

A pergunta que cumpre fazer é esta: por que raio é que, com 200 anos em cima, nunca conseguimos sair deste ciclo vicioso de atraso, de dependência e de endividamento?

A resposta é, seguramente, complexa e multicausal (como é “fino” dizer).

Antes de mais, Portugal é um país pobre, sem matérias-primas de vulto, prejudicado por uma geografia que acentua a sua posição periférica e afastada do centro (rico) da Europa. Com um tipo de relevo que não ajuda, sobretudo a norte do Tejo, à criação de grandes propriedades agrárias onde se possa produzir com capacidade exportadora, Portugal sempre viveu o drama do défice de produção agrícola, especialmente num domínio tão vital, no passado, como era o dos cereais (o Alentejo, obviamente, jamais conseguiu suprir essa lacuna). Este país nunca teve recursos para ser auto-suficiente e dispensar o apoio do exterior – chame-se a esse apoio «expansão marítima», «exploração colonial» ou «integração na União Europeia».

A tudo isto soma-se a particularidade da estrutura de poder social e político: desde, pelo menos, a era dos «Descobrimentos» que em Portugal se criou uma classe dominante essencialmente rentista, ociosa, dependente de um Estado hipercentralista. Isto explica boa parte do nosso atraso económico, da dificuldade em aceder à modernidade capitalista, do carácter sempre incipiente desse capitalismo – traços que o Portugal oitocentista partilhou com a Espanha (“por supuesto”), mas também com outro país da periferia europeia: a Rússia.

Em Portugal, o Estado foi comprando a anuência da nobreza e, mais tarde, da burguesia, distribuindo por essas classes prebendas e negócios. Isto faz-nos lembrar qualquer coisa do nosso presente, não?

Finalmente, temos os próprios portugueses como causa. Sem querer cair nas generalizações fáceis dos tais discursos identitários – até porque há estudos científicos sérios que o comprovam -, o facto é que os portugueses se vêem a si próprios como predominantemente passivos, infantis, irresponsáveis (com escasso superego), pouco tementes à lei (e, portanto, ao sentido do dever), etc. Numa palavra: os portugueses não são, nunca foram nem serão, alemães, dinamarqueses ou finlandeses. E isto explica muito da nossa complacência para com a corrupção, o chico-espertismo, o desenrascanço, explica a tendência para sacudir a responsabilidade e atribuí-la ao vizinho do lado. Explica, em suma, aqueles aspectos caracteriais que são uma parte substancial do nosso atraso.

Quando criticamos os políticos que temos, é bom não esquecer que eles são, afinal, o nosso reflexo: somos nós que votamos neles. 

Este peso multissecular que carregamos, que se confunde connosco, é um lastro pesadíssimo. E não vai desaparecer tão cedo.

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3 Respostas to 'Portugal: questão que temos connosco mesmos'

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  1. Outra parte substancial do nosso atraso radica num outro ponto que gostava de abordar: ainda há dias, numa entrevista à TSF, um português “estrangeirado” na Holanda mostrava o seu espanto por encontrar em Portugal, em comparação com a Holanda, muito mais casas e carros de luxo. Dizia ele que, na Holanda, os ricos não tinham por hábito ostentar a sua riqueza e dirigi-la para investimentos de imagem e status social. E aqui tocou realmente num ponto importante: a questão da mentalidade. Se olharmos a História percebemos facilmente que Portugal não soube orientar,coerente e sistematicamente, os recursos financeiros de que dispôs (por exemplo, no tempo da Expansão africana e oriental, ou nos tempos do ouro brasileiro) para o investimento produtivo, antes caíndo frequentemente numa “política de transporte”, em que as riquezas (e não vou discutir aqui a forma odiosa como foram obtidas) passavam por Portugal acabando por ir alimentar outras economias, a Norte, em que a burguesia era efectivamente burguesia (e não um conjunto de cavaleiros-mercadores ou mercadores-cavaleiros), com uma mentalidade verdadeiramente capitalista, de reinvestimento na economia, e não de gastos sumptuosos, luxos e ostentação. Isto para já não falar da intolerância religiosa que teve, nos países do sul da Europa e, nomeadamente, em Portugal, efeitos muito negativos, ao longo dos séculos, para a economia e o desenvolvimento do país. A perseguição aos judeus e a acção repressiva da Inquisição originou, certamente, uma significativa fuga de capitais e de empreendedorismo precisamente para o Norte da Europa, reforçando o dinamismo económico daqueles países e marcando o nosso atraso. E a verdade é que os traços dessa mentalidade ainda persistem, grosso modo, na nossa sociedade. E nem preciso de lembrar o exemplo do Porsche amarelo do Futre para ilustrar tal facto, embora ele seja bastante elucidativo.

  2. Mário Machaqueiro said,

    Olá Ricardo,

    O papel da Inquisição é um velho argumento para explicar o nosso atraso, mas continua a fazer todo o sentido. Assim como faz sentido contrastar, na esteira de Max Weber, o papel do Protestantismo no tipo de cultura que estimula o capitalismo, nas regiões setentrionais da Europa, com o papel bloqueador que o Catolicismo teve nos países do sul. E a verdade é que estes – Itália incluída – nunca lograram um desempenho comparável ao da Alemanha ou dos países nórdicos, sendo que estes últimos (convém recordá-lo) partiram, no início do século XX, de uma situação de miséria similar à de Portugal na mesma altura. E hoje estão como estão.
    A cultura da ostentação de que falas é típica de classes dominantes ociosas, perdulárias, e habituadas a viver dos benefícios distribuídos pelo Estado.
    Um abraço

  3. José Manuel said,

    Como tu próprio acabas por reconhecer, outros países com condições semelhantes à Lusitânia souberam guindar-se às primeiras linhas do desenvolvimento. O Japão também não possui matérias-primas e tem solo muito montanhoso, a Coreia do Sul, o minúsculo Luxemburgo e muitos outros além dos escandinavos. Por outro lado, o México e a Argentina têm petróleo e outros minerais e são países paupérrimos para já nem falar da Nigéria. O problema não são portanto as condicionantes geográfico-naturais, mas antes as pessoas, as elites, as estratégias, e sobretudo a organização. Uma marca indelével do subdesenvolvimento é precisamente uma das características mais marcantes aqui do rectângulo. Falo das enormes carências nos mais variados domínios por um lado, exactamente a par dos mais escandalosos desperdícios dos escassos meios existentes. Aqui, quanto a mim, está um dos pontos fundamentais. Nunca nenhum país progrediu no esbanjamento de recursos. Cabe-nos só a nós o saber como nos organizar para levar a cabo as tarefas que se impõem. Já Raúl Brandão constatava no início do séc. XX que em Portugal só havia uma única actividade organizada, a da destruição. Ora, se os indivíduos do mal se sabem conjurar para levar a cabo os seus pérfidos intentos, os do bem também terão de se juntar para prosseguir as suas acções benéficas. Quem cala consente. Vamos todos consentir?????


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