APEDE


Rompendo com um tabu

Posted in Contra o pensamento único por APEDE em 22/04/2011

Vale a pena ler esta entrevista, mesmo sabendo que o entrevistado tem uma agenda que não é propriamente compaginável com os interesses de Portugal.

Hoje, mesmo na cena internacional, há cada vez mais vozes a admitir uma nova inevitabilidade (bem distinta da defendida pelos apologistas das “receitas” do FMI): a renegociação da dívida portuguesa e um “perdão” parcial da mesma, no pressuposto de que, mesmo com toda a “austeridade” em cima, o país nunca terá condições para pagá-la integralmente.

Mas ainda são poucas as vozes que ousam pensar noutro cenário: o abandono do euro por parte de Portugal.

Ora, o que diz o entrevistado acima referido – ou, para mal dos nossos pecados, o que diz aquele senhor finlandês de ar porcino que dirige um partido de extrema-direita – tem efectivamente uma base factual: Portugal só teve a perder com a adesão ao euro, e, nos tempos mais próximos, só terá a perder se continuar com essa moeda.

Lembremos que essa adesão correspondeu a um daqueles projectos pacóvios, tão típicos das nossas “elites”, pelos quais os portugueses são levados a acreditar que pertencem ao grupo dos países mais desenvolvidos. Na altura em que se deu a adesão, o “slogan” era que Portugal tinha passado a integrar o «pelotão da frente». Lembram-se?

Hoje vemos o que essa ilusão identitária nos custou. João Ferreira do Amaral, um dos raros economistas que resistiu aos cantos de sereia e um dos poucos que admitem a possibilidade de sairmos da moeda única, mostrou que a apreciação excessiva do escudo que acompanhou o processo da nossa adesão ao euro levou a que, entre 1991 e 2006, a economia portuguesa registasse uma perda de competitividade na ordem dos 10,3% (dentro de uma perda total de 17,3%, explicável por outros factores, entre os quais não está, porém, a evolução salarial que os liberalóides gostam de apontar como a raiz de todos os nossos males). 

Ou seja, uma moeda forte como o euro pode convir a um país como a Alemanha, cuja capacidade exportadora não está dependente das taxas de câmbio. Mas, para um país como Portugal, com as insuficiências crónicas do seu aparelho produtivo, a posse de uma moeda forte, sobre a qual ainda por cima não tem qualquer soberania para poder desvalorizar, tem-se traduzido por uma perda sistemática ao nível da competição no mercado das exportações.

A fantasia de termos sido equiparados a uma Alemanha, em termos de moeda, não passa disso mesmo: de uma fantasia das nossas “elites” político-financeiras, que não hesitaram em destruir as condições de um crescimento económico sustentado, que assistiram impávidas à destruição da nossa agricultura e ao definhamento de uma indústria já de si anémica, que aceitaram que Portugal se tornasse basicamente consumidor de produtos importados, e que se lançaram na grande negociata do acesso fácil ao crédito (outro efeito perverso do euro, que nos garantiu, de um dia para o outro, um preço baixo do dinheiro).

São essas mesmas “elites” que hoje choram lágrimas de crocodilo perante o enorme desequilíbrio da nossa balança comercial. E são também elas que vêm clamar pelo crescimento económico, pelo aumento da produtividade, pela necessidade de estimularmos a produção de bens transaccionáveis – em vez de continuarmos a apostar na construção civil, nos serviços e no negócio do mega-retalho. Como se, no passado que nos conduziu aqui, não tivessem sido essas “elites” a tudo fazer para que nada do que hoje reclamam fosse possível.

A saída do euro pode ser, de facto, tremendamente dolorosa. Pode até ser, no imediato, um autêntico cataclismo. Francisco Louçã, por exemplo, não defende essa solução no seu último livro, argumentando que semelhante emenda nos sairia muito pior do que o soneto: juros repentinamente mais elevados, perda abrupta do poder de compra, efeito recessivo prolongado que levaria a uma depressão. E isto sem que o aumento das exportações, decorrente da desvalorização de uma moeda sobre a qual teríamos recuperado a soberania, fosse suficiente para compensar todas essas catástrofes.

Uma coisa é certa: com ou sem moeda única, os que não pensam pela cartilha neoliberal inclinam-se cada vez mais para propostas de ruptura com as regras asfixiantes da zona euro.

A aceitação da presença do FMI em Portugal é apenas prolongar a caminhada absurda num beco sem saída.

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4 Respostas to 'Rompendo com um tabu'

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  1. Leitor said,

    Fala-se pouco na saída da zona euro, mas não é propriamente um tabu.
    Dias antes da chegada dos homens do fraque, podia ler-se:

    “TRANSFORMAR NUM REFERENDO AS ELEIÇÕES DE 5 DE JUNHO
    Os partidos do capital – PS, PSD e CDS – estão coniventes com o FMI e a ditadura do capital financeiro. Eles desejam-na. Por isso estão a amarrar as coisas para que tal ditadura se eternize. Esta semana chega a Lisboa uma delegação do FMI. O actual governo de gestão vai, servilmente, atender às suas exigências e assumir compromissos para os próximos anos, compromissos que obrigarão o governo resultante das eleições de 5 de Junho. Se isto acontecer será uma tragédia para o povo português, como se verifica agora na Grécia e na Irlanda.
    Qual a saída? Transformar as eleições de 5 de Junho num referendo e eleger forças que ponham em causa os compromissos que vierem a ser estabelecidos com o FMI e o Fundo Europeu. Para isso é preciso que tais forças tenham propostas claras desde já. A manutenção de Portugal na Zona Euro é inviável. O país só pode resolver os seus problemas se recuperar a sua soberania monetária. É preciso ter a coragem de dizer e propor isso. Seria trágico que as forças políticas portuguesas mais consequentes, por timidez, falta de imaginação ou outra razão qualquer, não ousassem avançar as medidas de que o país precisa. Propostas claras e sem rodeios têm a capacidade de mobilizar um espectro amplo da opinião pública. Meias medidas tíbias (como propostas de “renegociações” com credores) nada mobilizam. ”
    http://resistir.info/

  2. APEDE said,

    Não acreditamos francamente que as próximas eleições contribuam para resolver seja o que for. Se elas “referendarem” alguma coisa será, quando muito, apenas isto: se Sócrates continua ou não a ser o primeiro-ministro, e se o governo será mais “centrão” ou mais “direitão”. A verdadeira esquerda será, aqui, uma carta fora do baralho. Em parte, por decisão do eleitorado, cujo voto tem sido sempre essencialmente conservador, não se vislumbrando agora quaisquer sinais de que isso mude. E, em parte, por culpa da própria esquerda, que não se tem apresentado com um discurso efectivamente mobilizador. A esquerda (englobamos aqui o PCP, o BE, mas também os sindicatos afectos à CGTP), nestes últimos tempos, tem apostado o essencial da sua intervenção nos espaços da democracia formal – o parlamento e pouco mais -, descurando a formação de movimentos sociais que escapem a esse espartilho e que poderiam constituir a base de apoio popular para uma mudança genuína de políticas. Quando optou pela “rua”, fê-lo quase sempre de forma pouco imaginativa e recorrendo às manifestações rituais que, como se viu há dias, já não atraem ninguém.
    Claro está que, para sermos justos, não podemos assacar todas as responsabilidades da letargia geral aos partidos e aos sindicatos. Se as pessoas não se querem mexer, dificilmente essas organizações se podem substituir a elas e criar, por milagre, o movimento social que não existe.
    Dir-se-á que este é um discurso estéril e impotente. Talvez. Mas é, pelo menos, um discurso que não embarca em ilusões. Pensar que, no dia 5 de Junho, o povão se vai levantar em peso e dar uma representação significativa aos partidos de esquerda é tão ilusório como imaginar que o socialismo está já aí ao virar da esquina…

  3. Helena Fraga said,

    Espero que no próximo 25 de Abril não haja a tal manifestação-ritual: a procissão laica em que se tornou há muitos anos…
    Realmente, não me sinto capaz de perceber se será melhor com ou sem o euro. Desejo sinceramente que se trilhe um caminho com o mínimo de danos possível. Que as mentes mais ou menos iluminados nunca deixem de sentir que são as pessoas que devem estar em causa; o bem estar das pessoas é que deve nortear as acções.
    Quem é que já observou um desempregado a sério? Não estou a falar daqueles que apareceram na televisão, há uns anos, a defender a flexigurança. A gabarem-se de terem empregos de curta da duração – era óbvio que se tratava de gente com grandes recursos sociais e económicos(uns betinhos da trampa).
    Há cerca de dois anos, num arraial qualquer, bebi uma cerveja com um desempregado autêntico. Ele não sabia onde colocar os braços, nem como se sentar na cadeira… como se não merecesse estar ali sentado a beber uma cerveja… e mais não digo…
    Eu sou de esquerda, porque acredito que é neste lado que reside maior humanismo, porém, disponho-me a arriscar diferentes trilhos à procura de me aproximar o mais possível da minha humanidade.


  4. Só por excesso de cegueira ou de desespero se pode falar em sair do euro. No dia em que isso acontecesse, o escudo cairia a pique, multiplicando a nossa dívida já astronómica por dez ou vinte vezes o valor actual. Mas mesmo sem esse problema, o simples facto de termos de importar quase tudo quereria dizer que teriamos de pagar esses bens importados por valores multiplicados pelos tais 10 ou 20. Seria o total colapso do país. É isto que esses apóstolos da desgraça pretendem? Então parem de correr em dircção ao abismo.


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