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Memórias de Abril: uma estranha coisa chamada «reforma agrária»

Posted in Para recordar (sempre) por APEDE em 25/04/2011

Não se pode falar do período que vai de Abril de 1974 a 1976-77 sem se referir a famosa «reforma agrária».

Algumas das imagens que aqui publicamos ajudam a recordar essa experiência. Imagens uma vez mais extraídas da rica forma de comunicação e “agitprop” constituída pelas muitas centenas (milhares?) de autocolantes que foram criados ou reinventados na altura.

Também aqui a história está por fazer. Sabemos os lugares-comuns, os chavões ideológicos que, à esquerda e à direita, circularam durante o PREC e depois, no seu rescaldo, quando a «reforma agrária» começou a ser rapidamente desmantelada.

Sabemos que o Alentejo foi a  única região do país onde ela foi verdadeiramente reclamada, dado que a norte do Tejo a situação era outra e outro o país, sobretudo nas regiões mais setentrionais, de pequena propriedade rural e com um campesinato simultaneamente miserável, temente a Deus e ultra-conservador.

Sabemos que, no Alentejo, a «reforma agrária» deu origem a uma multiplicação de cooperativas agrícolas formadas na base da ocupação de terras pelos camponeses.

Sabemos que essas cooperativas tinham nomes que eram, por si só,  todo um programa político:

Sabemos que o Partido Comunista Português, pelos laços históricos que o uniam às lutas camponesas no Altentejo, se apresentava como:

Sabemos que, por via da intervenção do PCP na região do Alentejo, houve toda uma propaganda que recebeu o apoio dos regimes comunistas da Europa de Leste:

E sabemos que, afinal, a «reforma agrária» não foi, realmente, reforma agrária, visto não ter chegado a traduzir-se numa legislação que alterasse, de forma estrutural, o regime de propriedade e de distribuição da terra, a organização da produção agrícola, etc.

O que se chamou «reforma agrária» visou tão-só (e já não era pouco) responder à pobreza profunda do campesinato alentejano, pobreza cujo correpondente era a improdutividade de largos latifúndios deixados ao abandono pela burguesia estéril que nos coube em sorte.

Está ainda por fazer, para além das formatações ideológicas (à esquerda e à direita), o balanço desta experiência. Foram as cooperativas agrícolas, como o PCP pretendeu, uma história de sucesso social e económico, apenas traído pelos estrangulamentos financeiros que os «governos da burguesia» impuseram? Ou foi a «reforma agrária», conforme as forças de direita insistiam, uma ruína nos domínios da gestão empresarial e da produtividade? Ou houve antes uma variedade de casos que se inscreveram ora numa, ora noutra destas categorias?

Não temos ainda uma resposta cabal para tais perguntas.

Sabemos apenas que, com os governos PS, se encetou o processo de restituição das terras aos antigos proprietários e sua indemnização.

 Sabemos que, uma a uma, as cooperativas foram morrendo.

Sabemos que a pobreza, nos anos 80, regressou ao Alentejo e, com ela, a necessidade de emigração.

Sabemos que, com a Barragem do Alqueva – um dos sorvedouros inúteis de dinheiros públicos de que ninguém hoje fala -, se visa transformar o Alentejo num gigantesco campo de golfe para turista estrangeiro ver e jogar.

Sabemos que o Alentejo continua longe de cumprir aquelas promessas enunciadas nas estrofes finais do «Cantar Alentejano» de José Afonso.

7 Respostas to 'Memórias de Abril: uma estranha coisa chamada «reforma agrária»'

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  1. Leitor said,

    O balanço da experiência da “Reforma Agrária” está feito.
    Foi sendo feito nas 12 conferências realizadas entre 1976 e 1989
    http://www.omilitante.pcp.pt/pt/309/Tema/543/As-12-Confer%C3%AAncias-da-Reforma-Agr%C3%A1ria-Realiza%C3%A7%C3%B5es-e-ensinamentos-de-um-processo.htm
    Foi particularmente feito num rigoroso e bem documentado estudo de Lino de Carvalho: “A Reforma Agrária – Da Utopia à Realidade” (2004).
    A sua leitura evitaria, provavelmente, conclusões apressadas e redutoras.
    E a ilusão de que existe uma “terceira via”, “independente”, para fazer o balanço da exaltante experiência da Reforma Agrária e da grande ofensiva contra-revolucionária que levou à sua liquidação e à restauração da propriedade latifundária.

  2. APEDE said,

    Leitor,

    Por muito estimáveis que as análises oriundas do PCP possam ser, elas próprias constituem, antes de mais, documentos para o estudo historiográfico. O que falta é justamente uma análise conduzida por historiadores sem marca político-partidária. Ou acha que a palavra do PCP é última e definitiva e que nada mais se lhe pode acrescentar?

  3. Leitor said,

    A palavra do PCP não é a última, nem a definitiva.
    Nem existe qualquer história definitiva do quer que seja.
    Toda a história está sujeita a reinterpretações.
    Assim como não há historiadores assépticos em lado nenhum.
    Só talvez no idealismo romântico da APEDE…

  4. APEDE said,

    Um esclarecimento que não devia ser necessário:
    «historiadores sem marca político-partidária» não é o mesmo que «historiadores assépticos» ou «historiadores neutrais». Claro que nada disto esgota a questão intrincadíssima das relações entre «objectividade», «metodologia científica», «perspectiva histórica» e «ponto de vista político».
    Quanto a «idealismo romântico», é certamente mais bonito e menos letal do que os delírios ascéticos do «socialismo científico»…

  5. Leitor said,

    Esclarecimento necessário que seria interessante:
    Conhece a APEDE algum historiador actualmente “sem marca político-partidária” (produto que vende bem) que não tome partido, nem posição política, apesar da sua proclamada isenção e independência?
    De quem falamos?
    De Rui Ramos, António Barreto, Vasco Pulido Valente, Maria Filomena Mónica, Maria de Fátima Bonifácio, António Costa Pinto?

  6. Lúcio said,

    A malta andava toda c’os copos; só podia ser isso!

  7. Lúcio said,

    Atão não conhece, sr. Leitor?! São Rosas, sr, são Rosas!


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