APEDE


Cavaco Silva…

Posted in mesmo mauzinho por APEDE em 06/05/2011

… OU A INUTILIDADE AMBULANTE

Cavaco Silva falou hoje ao “país” para proferir as banalidades do momento. Pelo meio, disse umas coisas que, apesar de tudo, merecem um comentário. Disse que Portugal não sai da fossa em que está metido se não forem cumpridas três condições. Esqueçamos a terceira – conquistar a “confiança” dos mercados financeiros (pois, está bem, nós sabemos o que isso quer dizer) – e detenhamo-nos nas duas primeiras: aumentar a poupança interna e aumentar a produtividade dos chamados «bens transaccionáveis» que, de repente, toda a gente parece ter descoberto.

Comecemos pela poupança. Falar em pôr os portugueses a poupar só pode ser uma piada de mau gosto nos tempos que correm. Com as famílias pobres ou remediadas ou simplesmente desempregadas, todas envididadas até à pontinha dos cabelos, está-se mesmo a ver a margem de manobra que vai existir para a poupança. É verdade que terá de chegar ao fim o consumismo desenfreado e bacoco a que muita gente se entregou sem ter as mínimas condições para tal – estimulada pelo permanente assédio que a banca lhe montou até um passado bem recente. Mas esse fim faz parte da “natureza das coisas”. Não é uma opção individual de portugueses subitamente convertidos às virtudes espartanas. É porque tem mesmo de ser. E isso não deixa espaço para o que se chama poupança propriamente dita. Numa economia em recessão, com um desemprego galopante e os preços de bens essenciais a treparem por aí acima, em lugar da apregoada poupança vamos ter, isso sim, é mais endividamento. Vai uma apostinha? (Ok, a malta não tem dinheiro para apostas, a não ser no mirífico Euromilhões).

Quanto ao aumento da criação de produtos transaccionáveis e da nossa capacidade de exportar os mesmos, convém lembrar esta evidência singela: não é em três anos – o tempo que dura o programa do FMI – que se vai conseguir o que não conseguimos em vinte ou trinta, os anos necessários para se montar uma indústria nacional habilitada a competir no mercado internacional dos bens transaccionáveis. E, em três anos, muito menos se consegue a burguesia industrial com visão, poder de investimento e vontade genuína de apostar nesse sector da economia. Sorry, mas a nossa burguesia está mais interessada naquilo que sempre contou para ela: os negócios protegidos por arranjos mirabolantes com o Estado, os monópolios resguardados da concorrência e os “nichos” de bens (como a energia ou as telecomunicações) não transaccionáveis e de rentabilidade muito mais garantida. Mais ou menos o tipo de coisas que o memorando da “troika” quer agora pôr a leilão para os mesmos do costume abocanharem.

Portanto, se é como Cavaco diz, então estamos tramados, e daqui a três anos vamos estar mesmo pior do que estamos agora. Ou seja, na situação de termos de fazer o que podíamos já ter feito: exigir a renegociação da dívida, significando isso não pagar parte dela.

Mas, se é esse o corolário, Cavaco Silva perdeu uma boa ocasião para se manter calado.

 

4 Respostas to 'Cavaco Silva…'

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  1. maria said,

    Cavaco e a esposa pouparam e até “compraram”, ou não, umas acções que lhes renderam umas patacas…
    O Banco que escolheram é um exemplo de que se devia orgulhar e da-nos umas ideias para aplicar nossas “poupanças”…

  2. Helena Fraga said,

    Gostava, como muita gente, de encontrar razões para ter esperança. O Cavaco fica calado quando devia falar, mas quando fala devia era estar calado. Por que raio é que não lhe descubro qualidades?
    Mas é um homem muito certinho: sabe reproduzir a lição que aprendeu, sempre com muito cuidado porque o cargo é muito importante

  3. APEDE said,

    Boa, Maria! Esse exemplo é, de facto, óptimo. Aqui está um homem que tem toda a autoridade para nos falar de “poupança”!

  4. Zé Manel said,

    De facto, o grande timoneiro Cavaco traçou três objectivos para o país e para o governo que toda a gente sabe serem impossíveis de aproximação, menos ainda de total concretização.Não contente com isso, postulou que eles são absolutamente fundamentais e acenou com o espantalho da catástrofe no caso do seu incumprimento. Razões possíveis desta postura:
    1 – Infundir o medo no povão e assim manter as pessoas na defensiva e num estado de ovina aceitação das acções de rapina que se acumulam no horizonte;
    2 – Arranjar um pretexto fundamentado para entalar o governo seja ele qual for e depois poder dizer:- Eu bem os avisei;
    3 – Eximir-se da sua quota-parte de responsabilidades no que toca ao desastre nacional e continuar a pairar diáfanamente acima do abismo que afecta o país.
    Amigos!! Se se lembrarem de outras motivações, tragam-nas. São sempre benvindas!


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