APEDE


Para que servirá o 5 de Junho?

Posted in Barrela necessária por APEDE em 23/05/2011

Dado que o programa do futuro governo já está escrito – pela “troika” – e que não se vislumbra uma qualquer vontade do eleitorado em produzir um terramoto político que pudesse abalar a ditadura de Bruxelas e do FMI, podemos então perguntar para que servirá, ao certo, o momento eleitoral do dia 5 de Junho?

É difícil, se não mesmo impossível, descobrirmos eleições mais deprimentes em 37 anos de democracia portuguesa.

Mas há, pelo menos, uma coisa que se poderá obter deste próximo acto eleitoral:

suprimir liminarmente a presença de José Sócrates em qualquer cargo governativo,

impedir que ele se aproxime sequer do Palácio de São Bento, a não ser para arrumar rapidamente os tarecos e pôr-se a milhas, o mais longe possível.

As razões para este imperioso objectivo são mais que muitas. E já foram todas  repisadas. Ainda assim, recordamo-las, não se vá dar o caso de algum leitor passar por aqui com hesitações a respeito de um desiderato tão profiláctico:

– José Sócrates revelou-se como o primeiro-ministro de Portugal com o pior desempenho ético de todos os que passaram por esse cargo desde o 25 de Abril, só isso bastando para aconselhar o seu afastamento de quaisquer funções executivas: 

  • usou a mentira e a ocultação sistemática de dados inconvenientes (para si) como método político;
  • trocou de posição sempre que tal lhe deu jeito para se manter no poder;
  • com o beneplácito de uma comunicação social servil e manietada por poderes económicos em conluio com o governo, Sócrates serviu-se dos tentáculos ministeriais para montar uma gigantesca máquina de propaganda destinada a iludir as pessoas e a ocultar a distância abissal entre as promessas e os resultados reais;
  • utilizou, sem o menor escrúpulo, gente incauta ou desfavorecida para atingir fins puramente pessoais ou de mero calculismo político (de que o recente episódio do recurso a imigrantes  indianos e paquistaneses para “fazer número” nos comícios do PS é somente um exemplo, com tanto de eloquente como de abjecto).

– Sócrates rodeou-se, quer no governo, quer no seu próprio partido, de algumas das figuras mais medíocres da política nacional, as quais ascenderam a tais cargos simplesmente pela fidelidade canina ao chefe e pelo oportunismo rastejante com que se faz carreira neste país. Sem querermos ser exaustivos, basta nomearmos (com os dedos a tapar as narinas) algumas delas: Maria de Lurdes Rodrigues, Valter Lemos, Silva Pereira, Augusto Santos Silva, José Lello, Vitalino Canas, Edite Estrela.

– Embora Sócrates não tenha sido o primeiro, e muito menos o único, responsável pela cadeia de acontecimentos que nos conduziram ao actual descalabro económico e financeiro, não se coibiu de contribuir desastrosamente para esse desfecho ao entrar numa verdadeira orgia de parcerias público-privadas que hipotecaram (ainda mais) o futuro deste país. A isso acrescenta-se o ter deixado arrastar o défice das contas públicas a um ponto tal que a tesouraria de diversos ministérios se vê hoje sem dinheiro para fazer face às despesas mais imediatas – a começar pelos vencimentos dos funcionários. Tamanha incompetência tem de ser castigada nas urnas de voto.

– Em 6 anos de governação, Sócrates não resolveu um único dos problemas estruturais do país. Em vez disso, contribuiu para os agravar. A ele se devem os passos mais decisivos no desmantelamento do Estado-Providência ou «social» – de que ele gosta de se apresentar como paladino, quando foi, na verdade, seu coveiro. Com ele, assistiu-se a uma regressão generalizada no acesso aos cuidados de saúde, a uma educação de qualidade, à segurança social, à estabilidade no emprego, etc. A Sócrates deve-se ainda a destruição das mais básicas infra-estruturas de apoio às pessoas nas regiões interiores do país, com isso acentuando a desertificação, as assimetrias entre regiões e os graves desequilíbrios de desenvolvimento em Portugal.

– Sempre numa lógica de favorecimento dos grandes grupos económicos a desfavor de quem trabalha, é de Sócrates que proveio o mais lesivo (até ver) dos códigos laborais, e foi com ele que se agravou para níveis inauditos a precarização do emprego – mesmo antes de estalar a crise internacional.

– Com Sócrates, deu-se o maior ataque alguma desferido à Escola Pública e à dignidade profissional dos professores. Uma produção legislativa maciça, errática, hiper-centralista e contraditória, foi orientada para minar a autonomia das escolas, promovendo o facilitismo e reprimindo a exigência. O sistema educativo viu-se, assim, privado dos instrumentos necessários a um ensino de rigor e de qualidade. Como se isso não bastasse, os governos de Sócrates vilipendiaram os professores na praça pública, estrangularam-lhes as expectativas de progressão na carreira, burocratizaram-lhes as tarefas até à exaustão, impuseram-lhes formas despóticas de administração, tornando-os um dos grupos profissionais mais desmoralizados e  desmotivados que hoje este país apresenta. Se atendermos a que a educação deveria ser o esteio de todas as formas de desenvolvimento de que Portugal carece desesperadamente, o saldo final dos governos de José Sócrates é, a esse respeito, absolutamente deplorável.  

– Finalmente, Sócrates é, hoje, o principal bloqueio para uma renovação na esquerda portuguesa. A sua mera existência política impede que, nesse sector da nossa sociedade, seja possível uma política alternativa ao modelo neoliberal que tenha alguma perspectiva de chegar ao governo do país. Não significa isto que basta afastar Sócrates para que tal perspectiva se concretize. Esse afastamento não é condição suficiente. Mas é, com toda a certeza, uma condição necessária.

Estas e outras razões impõem, pois, que Sócrates seja removido, de vez, da nossa paisagem.

Se isso acontecer com os resultados eleitorais de 5 de Junho, não teremos, ainda assim, razões para abrirmos garrafas de champanhe (pois a política da “troika” continuará a fazer os maiores estragos).

Mas poderemos, pelo menos, sorrir. Portugal ver-se-á livre do pior primeiro-ministro da sua história recente.

 

10 Respostas to 'Para que servirá o 5 de Junho?'

Subscribe to comments with RSS ou TrackBack to 'Para que servirá o 5 de Junho?'.

  1. Zé Manel said,

    Dentro desta análise extremamente lúcida dos aspectos gerais relativos à actuação do grande lider, gostaria de particularizar um pouco, olhando para a sua menina dos olhos que dá pelo promissor nome de Novas Oportunidades. A posição de quase todos os partidos é francamente abaixo de confrangedora, na medida em que não lhes interessa nem um pouco o que lá se passa.Na visão tacanha e cretina das cliques partidárias, o conteúdo e os efeitos das N.O. nem sequer existem:
    BE= O Coelho só quis passar um atestado de burrice aos utentes…
    PCP= Lamenta que Coelho desqualifique os utentes e critica a sua instrumentalização pelo animal feroz.
    PS= Deplora que Coelho tenha insultado (?) os utentes que tanto se esforçaram (?)
    PSD= Critica a falta de credibilidade, a instrumentalização e exige inquérito.
    Portanto, só os laranjas aludem ao fundo da questão e se preocupam com o que lá se passa.
    Do que se faz por lá, tenho alguma noção, pois há algum tempo foi-me pedido que elaborasse um curso e quando percebi as condições em que aquilo iria funcionar, recusei definitivamente por não querer associar-me à prática das farsas socratinas por mais poéticas que sejam as denominações. É o país-que-temos!!!!!!!!!!!!!!

  2. Mário Machaqueiro said,

    Caro Zé,

    Já tivemos oportunidade de abordar o assunto nestes dois “posts”:
    https://apede08.wordpress.com/2011/05/17/e-nao-podiam-ter-colocado-isso-no-vosso-programa-eleitoral/
    https://apede08.wordpress.com/2011/05/19/por-que-e-que-uma-certa-esquerda-mas-ha-outra-tem-feito-muitos-estragos-no-ensino/
    Tens toda a razão. A forma como os partidos se têm referido à fraude das «Novas Oportunidades» fornece quase um argumento para não votarmos neles. Mesmo o PSD foi errático e pusilânime nas suas declarações (e o seu programa é praticamente omisso na matéria). Mas o mais deprimente é a forma comprometida e envergonhada como os partidos à esquerda do PS lidam com a questão. Como as NO são para os “coitadinhos” dos trabalhadores, não se pode dizer mal de maneira aberta (ou até fechada!). Se a isso somarmos o facto de algumas figuras do Bloco de Esquerda, por exemplo, estarem associadas à elaboração de certos conteúdos e programas das “disciplinas” dos CEFA, está tudo dito…

  3. Leitor said,

    Colocar agora no centro do debate público o programa das Novas Oportunidades é uma boa maneira de desviar atenções do fundamental.
    Mas já que se pretende debater, sejamos rigorosos nas apreciações que fazemos, sem deturpar ou omitir as opiniões “à esquerda do PS”:

    Logo em 10 de Dez. de 2007, quando foram entregues os primeiros certificados das N.O’s, a Fenprof criticou duramente o programa:
    “Novas Oportunidades”: Governo não deve ceder à tentação das estatísticas nem ao facilitismo na certificação”
    http://www.fenprof.pt/?aba=27&mid=115&cat=63&doc=2994

    Já antes, nas Jornadas Parlamentares do PCP, tinha sido definida uma posição muito crítica:
    “Quanto às “Novas Oportunidades”, e respeitando totalmente o esforço e a intenção dos que a elas recorrem, como forma de melhorar as suas habilitações escolares, designadamente tendo em vista a sua situação no emprego, elas centram-se no fundamental numa obsessão estatística de atribuição facilitada de diplomas sem correspondência com um real sucesso educativo.”
    (10 Out. 2007)

    É um esclarecimento que deixo, até porque a APEDE continua muito mal informada sobre a “esquerda à esquerda do PS” e insiste em em misturar água turva na água clara e transparente.

  4. Leitor said,

    A gravura da defenestração do traidor Miguel de Vasconcelos, que ilustra o texto sobre a barrela que deve ser feita a 5 de Junho, é pouco fidedigna.
    O secretário é representado com vida e a resistir, o que não é verosímil depois de ter sido abatido a tiro quando o encontraram escondido num armário.


  5. O problema caro Leitor, é que o que se escreve, no passado, nem sempre é o que se diz, no presente, no momento em que a discussão se abre na praça pública. Sobre as NO não vi nenhuma reacção pública, de crítica, ao programa, nos últimos dias, por parte do PCP/FENPROF (curiosíssima a sua referência cruzada às duas organizações em simultaneo🙂 ), com base nas tomadas de posição que refere. Mas mais que isso: o que se lamenta é que o PCP, na mesma frase, diga bem e mal das NO, mas depois não retire nenhuma ilacção, ou consequência prática, do que afirma. Afinal, e isso é que interessa, o PCP dá, ou não, razão a Passos Coelho nesta questão das NO? E acompanha-o, ou não, no pedido de uma avaliação externa sobre a eficácia e qualidade das certificações atribuídas nas NO. Isso é que seria politicamente relevante saber.

  6. Leitor said,

    Além da reacção do António Filipe no Parlamento, houve declarações de Jerónimo de Sousa, no mesmo sentido.
    A Fenprof pronunciou-se sobre o assunto no último Conselho Nacional, há cerca de um mês.
    E não faço mais comentários por hoje, para não desencadear ao RS mais uma sessão de exercícios de auto-massagem. O excesso pode ser nocivo e é preciso conservar as espécies raras.

  7. Mário Machaqueiro said,

    O Leitor perdeu uma oportunidade de meter a “erudição” no saco. A gravura que ilustra o texto não se reporta à defenestração de Miguel de Vasconcelos, mas à dos regentes católicos pelos protestantes no Castelo de Praga, em 1618, um episódio que deu origem à Guerra dos Trinta anos que opôs católicos e protestantes na Europa.
    Quanto ao fundo da questão, faço minhas as palavras do Ricardo. Os exemplos que o Leitor dá, tanto do texto do PCP como da declaração da Fenprof são ilustrações acabadas do que é “dar uma no cravo e outra na ferradura”. Também nós gostamos da clareza e da transparência. E parece-nos muito mais claro e transparente defender a supressão, pura e simples, do programa das Novas Oportunidades, e a reposição, no ensino nocturno, dos currículos que vigoram para o ensino diurno. Antes de o Ministério começar a inventar tretas para o ensino nocturno – as primeiras foram as famigeradas unidades capitalizáveis -, este funcionou perfeitamente em consonância com os programas e a estrutura curricular do ensino diurno, única forma de credibilizar as habilitações de quem quer que seja. Quer o Leitor clareza e transparência? Defenda isto, se se atrever.

  8. Leitor said,

    Trata-se, de facto, da 2ª Defenestração de Praga.
    Fui induzido em erro pela relação que supus existir com o texto.
    E esqueci-me, por momentos, que o tipo de lógica da APEDE é sempre muito difuso.


  9. Caro Leitor,

    Não faz mais comentários porque não consegue (ou não lhe dá jeito) responder às duas questões que coloquei acima e, também, porque poderia levar-me a perorar, mais exaustivamente, sobre o subliminar “descuido” que teve ao referir-se à FENPROF e ao PCP, simultaneamente, referindo posições miméticas, como se uma organização fosse apenas uma extensão da outra😉

    Quanto à sua passagem de sociólogo (ontem) a historiador (hoje)… estamos conversados. Foi brilhante a sua tirada sobre o Miguel de Vasconcelos🙂 Como “castigo” devia era ir buscar o cilício para uma “auto-massagem” de penitência e mortificação😉

    P.S. Às tantas nem precisa de cilício… o blog da APEDE tb serve e já vicia.

  10. maria said,

    Entristece-me que se continue a atacar Sócrates, desta forma que só ajuda a despolitizar tudo e todos.
    Se o ataque fosse pela sua falta de ideologia, o seu oportunismo, o seu ataque aos avanços sociais e à melhor redistribuição de riqueza…
    A falta de políticos com ideologia e coerência na defesa dos mais desprotegidos é um problema que alastra mundialmente. Essa é a doença que nos deve preocupar,parece-me.


Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s


%d bloggers like this: