APEDE


O drama da esquerda

Posted in Debate por APEDE em 25/05/2011

O Paulo até pode ter razão neste seu “post”. Seja como for, vale a pena olhar também para este outro texto a fim de vermos os dilemas com que a esquerda, em Portugal como na Europa, hoje se debate. 

Há uma enorme dificuldade, por parte dos partidos à esquerda do PS, em designar o partido de José Sócrates por aquilo que ele realmente é: um partido de direita.

Fica-se assim perante um estranho paradoxo político: um partido “de esquerda” que, sempre que está no poder, só aplica políticas de direita.

Mas percebe-se porque o Partido Comunista e o Bloco de Esquerda nunca nomeiam a natureza de fundo do PS, mesmo quando verberam as políticas de direita que esse partido invariavelmente desenvolve (e, no caso actual, as mais agressivas que alguma vez foram instauradas neste país, antes – note-se bem – de se sonhar sequer com descalabros financeiros e “troikas”). Percebe-se que o (não) façam, porque, sem o PS, uma maioria de esquerda é rigorosamente inimaginável em Portugal, dado que o crescimento do eleitorado do PCP e do BE tem limites social e culturalmente incontornáveis. É um outro paradoxo, porque o PS insiste em não ser de esquerda.

Quando lemos o “post” de Daniel Oliveira, lembramo-nos de que a história que lá se conta é ainda filha do colapso dos regimes “comunistas” do Leste europeu. Desaparecido do mapa o “espectro” que, apesar de tudo, era percepcionado como ameaça para o sistema do capitalismo global – mesmo quando alguns autores o inscrevem (paradoxalmente?) nesse sistema -, a social-democracia na Europa entendeu que era chegada a hora de se deixar absorver pelo modelo neoliberal que triunfou sobre antigos regimes comunistas. E a ex-social-democracia, mais do que os partidos da direita liberal pura e dura, tem sido a principal coveira do Estado-Providência e da economia keynesiana. Entre nós, o PS limitou-se a seguir essa tendência – se partirmos do princípio (muito discutível) de que esse poderia ser o nosso partido social-democrata (o PSD, que é apenas um partido neoliberal mal nomeado, não conta para esta história).

Sem partidos verdadeiramente social-democratas, pergunta-se: para onde emigrou então a social-democracia, no sentido que essa expressão adquiriu no pós-guerra europeu? Por bizarro que pareça, a social-democracia, com a defesa do «Estado Social» e de uma economia mista, encontra hoje o seu único esteio nos partidos que, outrora, se reclamaram de uma revolução socialista entretanto descredibilizada pelo modelo a que deu origem. Sem poderem reivindicar esse modelo, cujo colapso foi brutal e defnitivo, os partidos ditos “radicais” recuaram estrategicamente para uma defesa de um “socialismo” mínimo. Isto é, de um “socialismo” praticável no quadro capitalista.

Por outras palavras: Entre nós, os partidos social-democratas são o PCP e o BE. Mais um paradoxo.

É verdade que o PCP e o BE mantêm uma retórica anti-capitalista, para efeitos de arregimentação de hostes que continuam a praticar o “slogan” radical. Mas o que defendem, na prática, é uma espécie de “capitalismo de rosto humano”, um sistema social e económico que alie certos mecanismos da economia de mercado à preservação e ao aprofundamento dos direitos sociais e políticos dos trabalhadores, um capitalismo que produza bem-estar e o distribua igualitariamente.

Dito de maneira simples: a memória do que foram as sociedades da Suécia ou da Dinamarca – que, aliás, não foram construídas sem lutas sociais importantes – mora hoje com o PCP e com o BE.

Nada contra, bem entendido. E certamente muito melhor do que o revolucionarismo sem revolução que outros teimam em praticar.

Que a postura política desses partidos não mostre, contudo, condições para crescer eleitoralmente, é um facto que só poderá (começar a) ser resolvido no dia em que as direcções desses partidos encetem uma autocrítica e uma reflexão radicais – desta feita no sentido de ir à raiz do problema.

E o PS? Pois, essa é outra questão…

3 Respostas to 'O drama da esquerda'

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  1. Cristina Ribas said,

    Não me identifico com esta divisão entre esquerda e direita e não olho para os partidos políticos como salvadores da pátria – todos eles têm um contributo para dar ao global, à sociedade. Já está na hora de olharmos para a política de forma diferente desta que olhamos, muito mais parecida com cores clubísticas do que com convicções sociais que são, ou não, colocadas em prática. O PS de Sócrates não falhou por ter tido à frente alguém que orientasse como política de direita ou de esquerda, falhou porque teve à frente um sujeito arrogante, mal-educado, sem capacidade de ouvir os outros, incompetente,… e esse comportamento não é de esquerda nem de direita é típico de determinado perfil de pessoas… Os direitos humanos são o fim último de uma sociedade, e defendê-los não é próprio nem da esquerda nem da direita, devia ser objectivo de todos. É para esta complementaridade partidária que penso que seria importante caminhar. Muito ganharíamos com isso! Beijinhos para todos vós

  2. Mário Machaqueiro said,

    Cara Cristina,

    A política não é só uma questão de postura ética. Sócrates poderia ser o tipo mais honesto deste mundo que, se praticasse uma política objectivamente lesiva dos direitos sociais de quem trabalha, estaria a ser, objectivamente também, de direita. E, nesse sentido, teríamos de o julgar politicamente. Lamento dizer-te, mas, perante a sua prática política, a questão da “honestidade” perde boa parte da sua relevância. Estou-me rigorosamente nas tintas para a “honestidade” de um político disposto a prejudicar-me, na minha condição de trabalhador, e a continuar a beneficiar quem já goza de imensos privilégios. Mas é com raciocínios como o teu que há muito boa gente disposta a dar o seu voto ao “honesto” Passos Coelho sem olhar duas vezes para aquilo que ele, politicamente, propõe.
    As categorias políticas de “direita” e de “esquerda” continuam a fazer sentido, Cristina. Aliás, nunca, nestes últimos anos, fizeram tanto sentido como agora. Isto nada tem que ver com “clubismo” partidário. Tem que ver, isso sim, com a capacidade de pensar politicamente, que é algo que está muito para além da orgânica partidocrática – dado que se pode ser de esquerda ou de direita sem se pertencer a (ou até sem se apoiar) um partido político.
    Já agora, mostra-me alguém de direita que defenda, genuinamente, os direitos sociais e laborais (os tais direitos humanos) de quem vive exclusivamente do seu trabalho.

  3. Mário Machaqueiro said,

    Cristina,

    Em complemento do meu comentário anterior, aconselho-te vivamente a ler este texto do Daniel Oliveira, um “blogger” de que já discordei várias vezes, mas que aqui acerta na mouche, sustentando exactamente o que defendo no que escrevi acima:
    http://arrastao.org/2266264.html
    Bjs.


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