APEDE


O programa do nosso descontentamento – 3

Posted in (Des)educação,(Des)governo,De olhos bem abertos por APEDE em 30/06/2011

Continuemos a penosa missão de desmontagem do programa do governo PSD/CDS para a Educação.

Esse programa repete, em várias passagens, a ideia de «reforçar a autoridade do professor». É uma daquelas declarações de princípio feitas para acariciar a “auto-estima” dos docentes. Afinal, que professor não quer ver a sua autoridade «reforçada»?

Acontece que essa declaração, tal como aparece no programa do actual governo, é totalmente vazia. Pois não esclarece como é que essa autoridade vai ser reforçada, nem diz, na verdade, de que autoridade se está a falar.

A famosa «autoridade» do professor pode significar coisas muito diferentes. Pode referir-se à autoridade perante os alunos e, nesse caso, obedece a requisitos e a condições particulares, que tentámos enunciar num “post”  já antigo. Mas também pode remeter para a autoridade social do professor no espaço público ou cívico. Como pode reportar-se à autoridade do professor perante os seus colegas ou pares, à autoridade perante os pais e demais encarregados de educação, à autoridade face ao Ministério, etc., etc.

Acontece, porém, que todas estas várias dimensões da autoridade do professor estão minadas, à partida, no programa de governo. Este vem confirmar e aprofundar mecanismos nas escolas que só contribuem para cercear, desmentir ou achincalhar as condições em que essa autoridade se poderia exercer. Como o Octávio apontou aqui, que autoridade docente, individual ou colectiva, pode sobreviver num cenário em que se pretende reforçar as competências dos directores das escolas? Competências que, sabemo-lo bem, se prestam  já hoje a usos suficientemente discricionários e tendencialmente despóticos. Dois dedos de testa bastam para perceber que não é possível conciliar o «reforço» da «autoridade do professor» com o «reforço» das «competências dos directores».

E isto leva-nos direitinhos a um dos vícios maiores do programa com que Nuno Crato vai governar. Conforme previmos e denunciámos em “posts” anteriores, o PSD e o CDS, agora juntinhos no governo, nunca pretenderam mexer numa vírgula do modelo de administração escolar cozinhado por esse grande partido “de esquerda” que é o PS. Tal modelo serve às mil maravilhas para instalar uma cultura de subserviência e de “respeitinho” entre os professores, subordinados a chefias quase irremovíveis, escolhidas com base em influências que escapam, por completo, ao controlo democrático de que os docentes se viram privados. Essas chefias, que nada devem a professores que, de facto, não as elegeram, vão continuar a representar, acima de tudo, os interesses políticos do Ministério no interior das escolas. E serão as primeiras a aplicar, diligentemente, todas as medidas do programa da “troika” que visem reduções arbitrárias de “custos”, estrangulamentos ainda maiores na carreira docente, cortes no pessoal, etc.

Um modelo de administração escolar exclusivamente assente em direcções unipessoais é o sonho de qualquer estadista apostado em impor a política do austeritarismo dentro do sistema de ensino.

Perante isso, nenhum blá-blá sobre a autoridade do professor consegue persuadir os mais incautos.

A propósito da (in)coerência do PSD quanto à suspensão da ADD

A pergunta (a primeira de todas) que tem de ser feita a Pedro Passos Coelho é esta: porque motivo o PSD votou CONTRA a suspensão da ADD em Janeiro de 2011?

É estranho que ainda ninguém lhe tenha perguntado isso. Estranho e importante. Porque se somarmos a essa votação, contrária à suspensão, em Janeiro, a intenção ontem declarada de “conversar com todos” sobre o futuro da ADD (pela voz de Nuno Crato) e a promessa (constante no programa de governo – em que o tema da Educação surge na página 109 de 129)  de  “reformar” o modelo em vigor, é caso para nos perguntarmos se a incoerência do PSD não foi, afinal, ter protagonizado aquela apressada “caldeirada” parlamentar, provavelmente muito bem orquestrada, em Março último.

Para apoiar esta tese, existem outras evidências da coerência do PSD em NÃO APROVAR a suspensão da ADD: a célebre “cambalhota” de Aguiar Branco (altura em que o PSD colocou o seu logótipo num documento escrito e apresentado por Santana Castilho, no Parlamento, em iniciativa patrocinada pelo PSD, que defendia que o único destino possível do modelo de ADD era “o caixote do lixo”) e as famosas faltas cirúrgicas à sessão parlamentar onde os seus votos podiam também ter sido decisivos.

Resumindo e concluindo: o PSD foi, afinal, sempre coerente, e continua a sê-lo. Com a única e “estranha” excepção de Março. Altura em que, por acaso, e só por acaso certamente, se estava às portas de umas eleições legislativas. Sim, é verdade, PPC também deu mostras dessa incoerência momentânea, numa ou noutra entrevista ou declaração pública acenando o compromisso da suspensão (rotulando o processo de ADD de monstruoso e “kafkiano”). No fundo, foram as excepções que vieram confirmar a regra 🙂

E o resto (porque há-de vir pior, bem pior) a seu tempo se verá, ficando bem claro que é urgente, é preciso, continuar a luta. Uma luta que não deverá repetir velhas fórmulas e caminhos de “traição”. Uma luta que terá de ser travada, em primeiro lugar, nas escolas, usando as “armas” que estão à nossa disposição. E essas “armas” existem. Lá voltaremos.

Quanto à moral da história, sobre a coerência e/ou incoerência do PSD poderíamos usar, parafraseando alguém, uma frase simples e lapidar: “É a política, estúpidos”. Ou então… a “magnífica” expressão de Maria de Lurdes Rodrigues, proferida em pleno Parlamento: são os “votozinhos”.

O programa do nosso descontentamento – 2

Posted in (Des)educação,(Des)governo,De olhos bem abertos por APEDE em 29/06/2011

Quando chegamos à parte do programa do governo dedicada à carreira docente, o caldo, já de si pouco apetitoso, fica consideravelmente entornado.

Em primeiro lugar, a redução dos professores (ou de outros profissionais quaisquer) a «recursos humanos» indicia essa intrusão ideológica do pior “economês”. E nós sabemos bem tudo o que está implicado nesse conceito: os «recursos humanos» são menos «humanos» do que «recursos», e por isso são eminentemente descartáveis. É preciso não esquecer que o programa para o ensino está cercado, por todos os lados, pelo “resto” do programa de governo…

Mas então o que diz ele sobre a carreira docente? Duas coisas. A primeira reproduz uma “tese” já presente no programa do PSD: «Simplificação do Estatuto da Carreira Docente a par do estabelecimento de medidas que reforcem as competências dos directores de escola.» Frase singela que fecha, a cadeado, qualquer veleidade de alterar o ECD e de acabar com o modelo de administração autoritária e antidemocrática das escolas. Se algum professor esperava algo de diferente do PSD e do CDS, é caso para perguntar que substâncias ilegais esse colega andou a consumir nos últimos meses…

A outra ideia “brilhante” é, honra lhe seja feita, imputável a Nuno Crato, que fez gala em divulgá-la aos quatro ventos como o alfa e o omega da qualificação da profissão docente:

«Uma selecção inicial de professores que permita integrar no sistema os mais bem preparados e vocacionados designadamente através da realização de uma prova de avaliação de conhecimentos de acesso à profissão.»

A este respeito, fazemos nossas as palavras do Paulo: que sentido faz sujeitar os professores a uma prova adicional de avaliação de conhecimentos depois de aqueles terem sido avaliados e aprovados numa licenciatura, num mestrado e num processo de profissionalização para a docência, todos efectuados em estabelecimentos do ensino superior tutelados, neste momento, pelo mesmo ministro que tutela o ensino básico e secundário? Não são esse ministro e o seu Ministério que certificam os cursos do ensino superior que os candidatos a professores frequentaram? A prova de acesso não é, nessas condições, uma completa redundância? E, se não for, não será então a mais acabada confissão de que o Ministério não possui um pingo de autoridade e de credibilidade?

O programa do nosso descontentamento – 1

Posted in (Des)educação,(Des)governo,De olhos bem abertos por APEDE em 28/06/2011

Vamos lá então desmontar a coisa. Vai ser trabalho para vários “posts”, ainda que a escassa substância da parte relativa à Educação aconselhasse, provavelmente, um comentário mais expedito. Mas nós vamos levar o cinismo ao ponto de fingir que aquilo tudo é para levar a sério.

Assim sendo, comecemos pelos primeiros parágrafos. A sensação é imediata: grandiloquência e aquelas “boas intenções” que se afivela para disfarçar muita vacuidade. Exemplos:

«O Governo assume a Educação como serviço público universal e estabelece como sua missão a substituição da facilidade pelo esforço, do laxismo pelo trabalho, do dirigismo pedagógico pelo rigor científico, da indisciplina pela disciplina, do centralismo pela autonomia.»

«(…) Criar consensos alargados sobre o plano estratégico de desenvolvimento tendo como horizonte temporal o ano de 2030.»

«(…) Apostar no estabelecimento de uma nova cultura de disciplina e esforço, na maior responsabilização de alunos e pais, no reforço da autoridade efectiva dos professores e do pessoal não docente.»

Espremendo, não sai nada: blá-blá.

Depois lá vem a piscadela de olho à mui liberal “liberdade de escolha” das famílias que, como se verá mais à frente, parece não apontar (ainda?) para o famoso «cheque-ensino» (pois o tempo é de vacas esqueléticas e o Estado não dispõe de dinheiro para experimentalismos liberalóides):

«Desenvolver progressivamente iniciativas de liberdade de escolha para as família em relação à oferta disponível, considerando os estabelecimentos de ensino público, particular e cooperativo.»

Encerrado o blá-blá dos “grandas” princípios, surgem as medidas. E aqui há que dizer que as primeiras a serem enunciadas primam por um bocejante dejá vu:

«Definição de metas para a redução do abandono escolar, melhoria do sucesso escolar em cada ciclo e aumento da empregabilidade dos jovens, associando estas metas a princípios de rigor na avaliação, de exigência nas provas e de mérito nos resultados.»

Onde está a novidade disto? Não é o que as escolas andam já a fazer e que, em bom rigor, se traduz em impactos invariavelmente nulos nas práticas educativas? Todos os anos os órgãos das escolas – direcções, conselhos pedagógicos, departamentos – consomem boa parte do seu tempo e energia a elaborar e a discutir «metas», «objectivos», «projectos educativos» – lérias que se limitam a uma retórica estafada, inócua, inútil.

A verdade é que, dissipado todo esse fumo e as tais “boas intenções” de que está cheio o inferno dos professores, estes continuam, melhor ou pior, a tentar realizar o núcleo essencial da sua profissão: ensinar, preparar aulas, acompanhar os alunos (muitas vezes, demasiadas vezes, substituindo-se a famílias que eles não têm ou que, se têm, não deviam ter). Se há mais alguma coisa para além disso, é certo e garantido que as escolas não o descobriram. E o Ministério ainda menos.

Em seguida, aparece no programa de governo a ideia de «um sistema nacional de indicadores de avaliação da Educação, em linha com as melhores práticas internacionais, garantindo transparência e confiança aos cidadãos e incentivando as famílias a tomar decisões mais informadas no exercício da sua liberdade de escolha». Pode ser que estejamos a ver mal o filme, mas esta conversa cheira a qualquer coisa de parecido com os tão sobrevalorizados rankings. Um critério qualquer para hierarquizar os estabelecimentos de ensino e as famílias ficarem todas informadas. A pergunta impõe-se: mas, se assim for, é mesmo disso que a Educação precisa em Portugal? Com tanto de importante para fazer, o Ministério vai andar entretido a escalonar escolas? Áh, espera lá! É para os pais “escolherem” a melhor escola para os filhos! Mas há ainda alguém no planeta, para lá da seita de fanáticos de Milton Friedman, que verdadeiramente acredite em semelhante treta?

Finalmente, a única medida com conteúdo prático:

«Generalização da avaliação nacional: provas para o 4.º ano; provas finais de ciclo no 6.º e 9.º anos, com um peso na avaliação final; exames nacionais no 11.º e 12.º ano.»

Ainda assim, isto precisa de ser esclarecido. Temos aqui três conceitos aparentemente distintos: «provas», «provas finais com um peso na avaliação final» e «exames nacionais». Esta última expressão significa o retorno a exames de carácter eliminatório, ou remete para exames que, tal como as «provas finais», se limitam também a ter um peso na avaliação final? Se esta última hipótese for a correcta, para quê então tanta dispersão vocabular? Não era melhor usar um único conceito? Para um crítico do «eduquês» como “novilíngua” dispensável, não está mal, não senhor!

Por fim, a medida que se segue é deprimentemente idêntica ao que já vinha exposto no programa do PSD: «Reestruturação do Programa Novas Oportunidades com vista à sua melhoria em termos de valorização do capital humano dos Portugueses e à sua credibilização perante a sociedade civil.» Realmente é caso para perguntar, como o Paulo Guinote fez várias vezes, que teia de interesses se move à sombra das Novas Oportunidades para que semelhante aberração se mantenha intocada nos seus pressupostos… 

 

Ainda não aqueceu o lugar e já está em “estado de desgraça” (por mérito próprio, claro)

Posted in Novo record de um ministro por APEDE em 28/06/2011

Logo à noite, pela fresquinha, iremos proceder a uma análise detalhada do programa do governo para a Educação (se o João Pestana deixar…).

Para já, juntamos a nossa voz aos que (aqui, aqui e aqui, por exemplo) se manifestam contra a intenção do governo de “reformar” o irreformável: o actual modelo de avaliação do desempenho docente.

Pela nossa parte, porém, não podemos dizer que esta pulsão “reformadora”nos surpreenda. Não é, afinal, este governo que continua (começou no programa do PSD e é agora confirmado) com a intenção de “credibilizar” aquilo que é a negação mesma do conceito de credibilidade, isto é, as Novas Oportunidades?

Por outras palavras:

Nuno Crato arrisca-se a bater um novo record: o de um ministro que passou, em escassos dias, de um estado de “graça” mitigada para um estado de absoluta desgraça. A dele. Mas, sobretudo, a nossa.

Os outros trabalhos de Crato

Posted in De olhos bem abertos por APEDE em 25/06/2011

Nuno Crato é ministro da Educação, do Ensino Superior e da Ciência. No primeiro “post” que escrevemos após a sua nomeação congratulámo-nos por ver essas três dimensões debaixo de uma só tutela. Esta “inovação” governativa vem repor a unidade política que, num passado não muito distante, juntou tais vertentes.

Só que há um problema.

Como sucede com outros ministros deste governo, Nuno Crato tem agora a seu cargo não um, mas dois ministérios. O golpe de prestidigitação de Passos Coelho, subjacente à estrutura do actual governo, consistiu em eliminar ministros como se isso correspondesse à eliminação de ministérios. Pura ilusão para português engolir. Na verdade, não há (e muito provavelmente não haverá no futuro mais próximo) qualquer lei orgânica que funda efectivamente ministérios diferentes, o que exigiria coisas muito complicadas e difíceis de articular com o programa da “troika” e os seus prazos: coisas como a supressão de secretarias de Estado e  de directorias gerais, a redistribuição de funcionários, etc. Digamos que os custos imediatos de uma tal reforma iriam, quase de certeza, suplantar largamente os seus ganhos no médio prazo. Portanto, o governo “mais pequeno” é só um isco para uma comunicação social alarve e subserviente vender aos “tugas” como um achado brilhante de poupança nas contas públicas. Tretas e lérias que não auguram nada de bom em quem dizia querer romper com o lastro demagógico da era socratina.

Voltando a Nuno Crato. Ele vai ter, portanto, dois ministérios para gerir. Conhecemos todos o monstro tentacular que é o Ministério da Educação. O do Ensino Superior e Ciência é, supomos, mais levezinho. As suas exigências e desafios não são, porém, menores.

Nuno Crato herda de Mariano Gago um legado contraditório. Este ex-ministro introduziu, de facto, um corte profundo nos hábitos da investigação científica em Portugal. Antes dele, Portugal  encontrava-se numa situação de enormíssimo atraso, face ao restante “mundo ocidental”, no tocante à produção científica. O investimento era diminuto, não havia praticamente centros de investigação de relevo, os professores universitários podiam arrastar-se toda uma carreira a criar teias de aranha sem terem de publicar um único artigo numa revista nacional ou estrangeira. Não vamos dizer que, no cenário actual, essa paisagem lamentável se dissipou totalmente. Mas, sob o consulado de Mariano Gago, o panorama sofreu, sem dúvida, uma transformação considerável.

Hoje Portugal dispõe de unidades de investigação que se aguentam razoavelmente nas comparações internacionais, a produção científica cresceu exponencialmente e aumentou a sua qualidade, os centros de investigação multiplicaram-se e ganharam escala, a sua actividade está sujeita a avaliação e escrutínio por entidades credenciadas para esse efeito, os investigadores portugueses entraram nos circuitos e redes internacionais de investigação, e Portugal conseguiu beneficiar de muitas linhas de financiamento para a ciência – ou para aquilo que, pomposamente, se designa por I&D (Investigação e Desenvolvimento).

Mariano Gago teve vários méritos nesta “revolução”, por perceber há muito o alcance estratégico da ciência para um país como o nosso. Mas também é um facto que, num certo sentido, ele foi o homem encarregue de conduzir este «jardim à beira-mar plantado» a um destino quase inevitável. Numa fase de internacionalização e globalização crescente da ciência, com muito dinheiro a jorrar de diversos programas da União Europeia, era quase fatal que Portugal teria de apanhar esse barco se não quisesse ficar condenado à total irrelevância. Digamos também que certos sectores na academia portuguesa desejaram agarrar essa oportunidade e pressionaram nesse sentido – movidos às vezes por interesses que não tinham necessariamente que ver com a “ciência pura” (e aqui, para bom entendedor, meia palavra basta).

A investigação científica em Portugal continua, entretanto, a debater-se com enormes dificuldades e carências. Não há uma carreira científica digna desse nome que seja sustentada inteiramente pelo erário público. Isto significa que a ciência se faz, quase sempre, por pessoas com contratos a prazo e, pior ainda, por um batalhão de investigadores que vivem (ou sobrevivem) de bolsas de investigação da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), sempre sob o espectro do desemprego, sem qualquer direito a subsídio quando aquele lhes bate à porta, e sem terem sequer direito a uma pensão de reforma – visto que as bolsas não são consideradas propriamente um salário.

Se a isto somarmos o actual estrangulamento financeiro da FCT e os próprios cortes no investimento europeu em ciência – particularmente no domínio das ciências sociais e humanas -, diremos que não se avizinham tempos auspiciosos para a ciência num país periférico como Portugal. E a este último respeito o programa austeritário da “troika” só vem enegrecer ainda mais o cenário.

Se Mariano Gago deixou uma herança relativamente positiva na ciência em Portugal, já o mesmo não se pode dizer no que respeita ao ensino superior. Com ele, prosseguiu o aperto financeiro das universidades, a acentuada escassez de meios, situações caricatas (e dramáticas) em que certos estabelecimentos de ensino se aproximaram da falência técnica, com a ameaça de nem sequer poderem pagar os vencimentos do pessoal. Diversas universidades foram-se safando, melhor ou pior, com o aumento por vezes obsceno das propinas e com os chamados overheads (a parte do dinheiro atribuído aos projectos de investigação científica que reverte a favor das faculdades).

Em tudo isto Mariano Gago parece ter caracterizado a sua actuação por uma espécie de olímpica indiferença.

Claro está que esta nossa análise ficaria incompleta se não mencionássemos essa floresta de enganos e de engodos que tem sido o famigerado «modelo de Bolonha». Com as licenciaturas reduzidas a bacharelatos que não ousam dizer o seu nome e os mestrados reduzidos a conclusões de licenciatura a preços de luxo, a bolonhice transformou-se num negócio a que as universidades, famintas que estão de vil metal, se têm entregue com a voracidade dos predadores famélicos. É ver multiplicar, como cogumelos, os mais variados programas de mestrado e de doutoramento, feitos à medida para captar o estudante incauto e drenar a bolsa dos respectivos progenitores. O resultado mais proeminente é que as licenciaturas estão cada vez mais parecidas com um “ensino secundário níumero dois” e as pós-graduações descambaram no facilitismo total (sabiam que hoje uma tese de mestrado não deve ultrapassar umas escassas dezenas de páginas?)

É caso então para perguntar: e agora, Nuno Crato?

Confessamos que, em relação a tudo isto, desconhecemos a doutrina do actual ministro. Olhando, porém, para o programa do PSD, há razões mais que muitas para temermos o pior.

O programa do PSD para o ensino superior e a ciência foi congeminado por uma cabecinha, supostamente mui liberal e amiga do mercado, que subordina por completo o ensino e a investigação científica aos superiores interesses da economia exportadora. Não há, nesse programa, um único vislumbre do que seja a especificidade da produção do conhecimento, o interesse estratégico de uma produção científica autónoma e sustentável em todos os domínios do saber, a qual, se bem sucedida, até poderá ter mais impacto no crescimento económico do que a estreiteza de tal programa deixa entender.

Terá Nuno Crato sensibilidade para trocar as voltas à paupérrima ideologia que enforma o programa do PSD para o ensino superior e a ciência?

Ou iremos ver o grande crítico do «eduquês» deixar-se encantar pelas sereias do «economês»?

 

Importa-se de repetir?

Posted in Humor por APEDE em 25/06/2011

ANTÓNIO JOSÉ SEGURO DEFENDE «CAPITALISMO ÉTICO»

 

 

 

 

 

 

O senhor da foto acima importa-se de sair, por uns momentos, do reino dos mortos e explicar a um jovem e promissor político português, candidato a dirigente de um partido chamado «socialista», que capitalismo e ética são duas coisas estruturalmente incompatíveis?

Pensamento político do dia

Posted in Conversa de escárnio e mal-dizer por APEDE em 25/06/2011

«Quem combate os fogos são os incêndios.» – Santana Lopes, hoje, no telejornal da TVI, à noite.

(Ok, foi um acto falhado do senhor – entre tantos que ele já fez -, mas deixem-nos ser mauzinhos, tá?)

Dúvida muitíssimo pertinente

Posted in (Des)avaliação,Cadáver adiado por APEDE em 24/06/2011

Tem toda a razão o Octávio quando levanta esta questão.

Se, no final da legislatura, o PSD se apressou a aprovar uma lei da Assembleia da República que suspendia o actual modelo de avaliação dos professores, lei essa depois “chumbada” pelo Tribunal Constitucional, será agora da mais elementar coerência que esse mesmo partido, já no governo, assuma uma medida legislativa que vá no mesmo sentido – desta vez blindada contra quaisquer “chumbos” políticos, e, de preferência, antes do final do ano lectivo (enquanto ainda tiver efeito). 

Caso contrário, teremos de dar razão a todos os que, na altura em que a referida lei foi aprovada, acusaram o PSD de mero oportunismo e calculismo eleitoralista. 

 

Algo que sobrou do “post” anterior

Posted in O trabalho do nosso descontentamento,Professores,Profissão por APEDE em 23/06/2011

No rol de aspectos negativos que pesam, como toneladas, sobre o exercício da profissão docente, muito se tem falado de avaliação do desempenho, de divisões arbitrárias na progressão da carreira, de precariedade dos contratados, etc., etc.

Há, porém, dimensões mais básicas e mais quotidianas de que nos esquecemos, demasiadas vezes, de falar:

– As horas a fio que os professores passam nas escolas preenchendo resmas de papel absurdas e inúteis, relatórios disto e daquilo, fichas de registo que ninguém vai ler mas que um colega “bem posicionado” sempre se lembra de inventar.

– O tempo que se gasta e nos desgasta com o preenchimento da componente não lectiva, especialmente com as famigeradas “aulas” de substituição, feitas apenas para prender absurdamente professores e alunos às salas de aula sem vantagem para ninguém, nem didáctica nem pedagógica, horas quase sempre aproveitadas para os alunos se vingarem sobre os professores por assim ficarem constrangidos nos seus movimentos, testando os limites de uma autoridade que não reconhecem.

– As centenas de horas que são exauridas em reuniões atrás de reuniões atrás de reuniões onde se discute o ponto e a vírgula de outros tantos documentos que nada acrescentam ao bom funcionamento das escolas.

Tudo isto é roubado ao tempo, cada vez mais escasso, de que os professores dispõem para preparar as suas aulas, para ler e corrigir testes e trabalhos de casa. E tudo isto vai minando, como gangrena lenta e insidiosa, a disponibilidade psíquica para dar aulas estimulantes, para a dedicação aos alunos, para, em suma, tudo aquilo que deveria ocupar o centro da vida profissional dos professores e que é cada vez mais atirado para a sua periferia.

De vez em quando, algum jornalista menos distraído chama a atenção para o número maciço de professores que recorrem a apoio psicológico ou psiquiátrico. Mas raros são os que retiram desse quadro deprimente as devidas ilações.

Apesar de os professores surgirem sistematicamente bem colocados nas sondagens de opinião sobre as profissões mais valorizadas deste país, a verdade é que subsiste uma enorme insensibilidade social a respeito da falta de qualidade de vida no quotidiano dos professores.

E essa insensibilidade social tem-se traduzido, invariavelmente, por insensibilidade política.

Os responsáveis que passam pela pasta da Educação não fazem a mais pequena ideia do que é o dia a dia dos professores dos ensinos básico e secundário. A verdade é que esses responsáveis não trabalham nas escolas, não têm qualquer contacto directo com as dificuldades que afectam a profissão docente, não fazem a mais leve ideia de tudo o que lhe tem infernizado a existência. Ministros e secretários de Estado da Educação têm sido recrutados entre professores universitários, ou entre “técnicos” e burocratas da 5 de Outubro. Se alguma vez deram aulas no básico ou no secundário, já foi há tanto tempo que a lembrança se volatilizou, entretanto, por entre os sofás de uma carreira confortável. E quase todos, independentemente do lugar de onde saltaram para o Ministério, partilham uma visão hierárquica, arrogante e de menosprezo para com os professores, a qual ficou, para sempre, bem plasmada na triste alusão de Jorge Pedreira aos «professorzecos».

Vem a isto a propósito do facto de nada indicar que Nuno Crato, com a sua trajectória profissional, apresente um perfil capaz de contrariar a longa tradição de indiferença ministerial relativamente ao imenso, ao infinito cansaço que se apoderou dos professores. Um cansaço que só raramente desemboca na revolta. Mas que alimenta muita desilusão, muito desânimo, muito “piloto automático”, muita reforma antecipada. 

A outra julgava que perdia os professores mas que conquistava a sociedade. Alguém pensa que se pode conquistar a causa do ensino em Portugal, perdendo ao mesmo tempo os professores? 

O que se pode esperar de Nuno Crato

Posted in Educação por APEDE em 23/06/2011

Antes de partirmos para grandes prognósticos acerca do que possa vir a ser a actuação de Nuno Crato como ministro, importa sempre colocarmos à cabeça a lembrança de que este governo tem um programa a aplicar e que esse é o famigerado receituário da “troika”. Não o frisamos apenas à laia de ritual de uma crítica banalizada de tão repetida. Fazemo-lo porque sabemos bem como isso irá condicionar todas as políticas deste governo.

Entretanto, à luz do que Nuno Crato tem vindo a defender – e também do que ele tem silenciado -, podemos inferir, com alguma razoabilidade,  algo do que ele poderá fazer. Se algumas das suas decisões previsíveis são, em nosso entender, boas notícias para a chamada «Escola Pública», outras nem por isso.

Comecemos pelas boas (com as respectivas reservas ou condições necessárias para que o bom não se venha a transformar em mau ou péssimo):

  • Introdução de exames nacionais a todas as disciplinas no final de cada ciclo de ensino. Uma medida positiva, desde que não traga consigo o fetichismo do exame, com a noção delirante de que ele será a panaceia milagrosa para todos os males que afectam o sistema educativo.
  • Revisão profunda do Estatuto do Aluno, ou revogação do actual com sua substituição pura e simples, no sentido de reforçar a autoridade do professor na sala de aula, de agilizar e de desburocratizar os mecanismos disciplinares e de dotar as escolas de real autonomia para a implementação dos mesmos. Temos pena, como agora se diz, mas esta é uma medida básica para acabar com a cultura “eduquesa” do coitadinho e da vítima, para proteger professores e alunos da violência que se abate sobre eles em tantas escolas, e para reintroduzir nos estabelecimentos de ensino condições mínimas de trabalho e de convivência. Para quem, como Nuno Crato, tem clamado contra a degradação do ambiente escolar, esta medida deve ser fundamental. Entretanto, sabemos bem que o fim da violência nas escolas e o desrespeito que muitas vezes atinge a figura do professor não se resolvem só com alterações na lei. Mas é um primeiro passo. É, pelo menos, um instrumento sem o qual tudo se torna mais difícil.
  • Fim das «Novas Oportunidades» e dos CEFAS e eventual reintrodução do currículo diurno no ensino nocturno. O programa do PSD é omisso e vago nesta matéria, o que abre caminho para todas as eventualidades, mesmo para as piores. Mas pode Nuno Crato, enquanto ministro, pugnar por critérios de exigência e de rigor no ensino e continuar, na prática, a pactuar com a imensa fraude propagandística que tem marcado as «Novas Oportunidades»? Um módico de coerência e de pudor político aconselham, nesta matéria, uma decisão rápida e expedita.
  • Simplificar os programas e os currículos, desembaraçá-los das tretas “pedagógicas”, definir claramente os conhecimentos a adquirir e a avaliar, e reforçar a autonomia dos professores no ensino dos mesmos. Uma medida, ou um conjunto de medidas, essenciais para a sanidade do sistema educativo e das práticas lectivas. Só que isto envolve um problema: a tentação de se fazer mais uma mega-reforma dos currículos e dos programas, com todos os custos e desgastes que isso implica. Uma solução alternativa poderia ser a de reformar profundamente, e para já, os três ciclos do ensino básico, visto que é aí que reside a raiz de todos os nossos problemas e atrasos. O que, por sua vez, acarreta um perigo (nada negligenciável): o de que essa reforma, dentro do espírito austeritário do actual governo, se faça contra os professores – com supressão arbitrária de disciplinas e cortes nos tempos da sua leccionação – sem quaisquer vantagens para os alunos. As últimas equipas ministeriais já começaram a dar um lamiré nesse sentido.

Depois temos aquelas zonas de sombra acerca das quais não se conhece a doutrina de Nuno Crato. A maior dessas zonas prende-se com o modelo de avaliação dos professores. O actual ministro atirou para o ar, no passado recente, umas tantas fórmulas nebulosas que pouco esclarecem. Algumas são mesmo preocupantes, como a ideia de avaliar os professores com base nos resultados que os seus alunos atingem nos exames. Sejamos claros neste ponto: os professores não são inteiramente alheios a esses resultados, como é óbvio. Mas também não são os seus únicos responsáveis. Existem vários outros factores, a começar pelos próprios alunos. Em contrapartida, também é verdade que remeter a avaliação do desempenho para a consideração das “muitas variáveis” que determinam o trabalho docente quase sempre desagua no pesadelo das grelhas “multidimensionais” que fizeram do modelo ainda em vigor um monstro absurdo. Uma avaliação dos professores que se queira mais do que formativa, e ao mesmo tempo simples, justa e não burocrática, é um enigma que permanece por resolver. A este respeito, as soluções de Nuno Crato estão no segredo da sua cabeça, se é que ela dedicou algum tempo a pensar seriamente o assunto…

Finalmente, temos os aspectos claramente negativos que os professores podem esperar do consulado de Nuno Crato. E esses não são de molde a deixar-nos tranquilos:

  • Tudo indica que Nuno Crato não pretende modificar uma linha no Estatuto da Carreira Docente para retirar dele os estrangulamentos espúrios que bloqueiam a progressão na carreira. Isto casa, de resto, com o programa da “troika”. Por aqui, les jeux sont faits.
  • Nuno Crato fala muito em acabar com o centralismo do Ministério da Educação e em devolver às escolas uma efectiva autonomia, que inclusive abranja as cargas lectivas, os horários, etc. Nós também achamos que a autonomia é uma coisa muito bonita e necessária. Mas temos de saber em que quadro essa autonomia se realiza. Porque se o quadro é o de uma gestão autoritária e semi-empresarial das escolas, sem qualquer controlo democrático por parte de quem nelas trabalha, a autonomia facilmente se converte em arbitrariedade e despotismo. Às vezes, o chamado «centralismo» do Estado, com leis claras que cobrem todos de forma equitativa, pode ser a condição sem a qual o trabalhador fica totalmente desprotegido face à entidade patronal ou à chefia no seu local de trabalho. Até ver, não nos parece que Nuno Crato se mostre sensível a este “pormenor”.
  • Dado que o programa do PSD sugere claramente a intenção de prosseguir com a aberração que consiste em multiplicar os mega-agrupamentos, e não parecendo que Nuno Crato se oponha a semelhante delírio, temos razões para pensar que nenhum travão será colocado a uma medida de efeitos puramente economicistas, que irá infernizar ainda mais a organização e o funcionamento das escolas, minando em grande medida o belo desiderato da «autonomia». 
  • Em linha com a sua defesa da autonomia das escolas (mitigada como vai ser pelo que acabámos de referir), tudo aponta para que Nuno Crato veja com bons olhos a municipalização dos estabelecimentos de ensino, a sua crescente “empresarialização”, o fim dos concursos nacionais como forma de garantir uma colocação dos professores feita com regras de transparência e de justiça, e a correlativa entrega às escolas (e aos ditos municípios) dessa mesma colocação, com tudo o que isso envolve de arbítrio e de nepotismo, etc., etc. O único comentário adicional que isto nos merece é a surpresa de vermos certos apoiantes entusiastas de Nuno Crato, que têm também sido dos mais críticos deste modelo de «autonomia» das escolas, silenciosos a respeito desta muito previsível orientação do actual ministro. Poderão dizer que é ainda muito cedo para desenharmos tais cenários. Mas este é um aspecto em que estamos francamente de “pé atrás”.

O balanço antecipado que aqui fazemos peca certamente por várias lacunas. Mas elas também se devem ao facto de pouco sabermos, afinal, sobre o que Nuno Crato pretende efectivamente fazer. Estamos, por ora, condenados a fazer prognósticos com base nas declarações, apesar de tudo vagas, com que ele foi construindo a imagem de “especialista” em educação.

Se quisermos ser honestos, diremos que, no mais essencial, Nuno Crato é, por enquanto, muito parecido com a Rússia de Churchill: um mistério embrulhado num enigma. 

Certeiro e discutível

Posted in Debate por APEDE em 23/06/2011

Anda por aí, na blogosfera dedicada ao ensino, uma discussão um bocado (só um bocado?) malsã entre os que apoiam entusiasticamente a escolha de Nuno Crato para ministro da Educação e os gostariam de ver Santana Castilho nesse cargo. Como tantas vezes acontece neste desgraçado país, tal polémica rapidamente desceu do debate de ideias e de opções políticas para a fulanização, os remoques, as directas e as indirectas, o fel e o ácido sulfúrico. Queremos deixar, desde já, bem claro que não iremos embarcar nesse filme. Não porque pretendamos arrogar-nos uma qualquer superioridade moral em relação ao contendores dessa discussão. Mas porque achamos que esse tipo de refregas não levam a lado algum ou, pelo menos, não contribuem para a salubridade do ambiente. Contamos, aliás, com amigos e pessoas que estimamos nos dois lados da barricada. Uma razão mais para querermos situar a reflexão noutro plano – nem acima, nem abaixo: simplesmente ao lado.

Dito isto, importa referir que a última crónica de Santana Castilho merece a nossa quase total concordância nas críticas que faz ao que é conhecido das intenções do PSD para o ensino, isto é: o seu programa. Também subscrevemos, claro está, as observações de Castilho sobre a política económica que subjaz a essas medidas (e que as cerca por todos os lados). Uma política que, não o esqueçamos, vai estar a pesar sobre cada decisão tomada por Nuno Crato. 

Ainda assim, afastamo-nos de Santana Castilho nalguns pontos que nos parecem importantes.

Em primeiro lugar, parece-nos redutora a associação implícita entre o espírito quantitativista da econometria e a exigência de avaliar os conhecimentos dos alunos através de exames – uma crítica que Castilho endereça a Nuno Crato. Defendemos, na proposta global da APEDE para a reforma do sistema educativo, que a introdução de exames para todas as disciplinas, no fim de cada ciclo de ensino, é o melhor meio – pelo menos no imediato – de instaurar exigência, rigor e até transparência na avaliação dos alunos e na avaliação do sistema. É óbvio que esse não é, nem nunca poderá ser, o único instrumento para a necessária reforma nas inquinadas práticas de que o sistema padece. Como também não é, nem pode ser, a única forma de avaliar os conhecimentos do alunos. E também estamos cientes de que os contextos locais (sociais, culturais, individuais, etc.) obrigam a complementar os resultados dos exames com outros dispositivos de avaliação – e aqui a avaliação contínua do trabalho dos alunos continuará a ser incontornável.

São estes últimos aspectos, aliás, que nos levam a concordar com Santana Castilho quando considera disparatada – diríamos: perigosa e preocupante – a ideia de Nuno Crato de basear a avaliação do mérito dos professores nos resultados obtidos pelos alunos em exames nacionais. Isso equivaleria a reintroduzir, na avaliação do desempenho docente, um indicador que mereceu, da parte dos professores, a maior contestação quando Maria de Lurdes Rodrigues tentou impô-lo como bitola. E note-se que, no caso do modelo defendido por esta senhora, nem sequer se tratava dos resultados de exames, mas tão-só dos resultados atingidos em processo de avaliação contínua.

Em contrapartida, a ideia de Nuno Crato de retirar do Ministério a concepção dos exames nacionais parece-nos bastante acertada como condição para garantir a independência desses exames em relação a pressões governativas ou partidárias. Todos nos lembramos do regabofe de facilitismo que se apropriou do GAVE a partir do consulado de Lurdes Rodrigues. Na crítica que Santana Castilho faz, não nos parece claro se ele rejeita esta ideia na sua integralidade ou se contesta apenas que a concepção dos exames seja entregue a uma empresa privada – uma sugestão que, de facto, nos parece aberrante, não só pela sua aparente inexequibilidade, mas também porque semelhante solução dificilmente asseguraria a independência em relação aos interesses do Ministério: nada garantiria que a empresa privada não fosse uma emanação desses mesmos interesses. Já a ideia de entregar os exames a associações de professores ou a entidades científicas de credibilidade reconhecida parece-nos pertinente, indo ao encontro do que defendemos na proposta da APEDE.

Este nosso “post” nada diz ainda do que pensamos sobre as perspectivas de governação de Nuno Crato. Reservaremos isso para próximas luas.

Sem nobreza

Posted in Coisas que não dá para acreditar por APEDE em 20/06/2011

A tremenda humilhação que Fernando Nobre sofreu nesta segunda-feira presta-se a várias leituras. Por um lado, é o desfecho mais do que previsível de uma combinação fatal: um ego, com tanto de desmesurado como de tontinho (o de Nobre), junta-se à imensa dose de parvoeira política de Passos Coelho. Como dizia o outro: “Não habia nexexidade”.

Mas há uma inferência mais deprimente a retirar deste episódio de baixíssima política: o humano não cessa de nos surpreender, e sempre pelas piores razões.

Aqui está um homem, Fernando Nobre, que a maioria de nós se habituou a respeitar e até a admirar perante o trabalho, generoso e empenhado, a que se dedicou na AMI. Durante anos vimos nele uma referência ética, e das mais elevadas. E eis que, de um dia para o outro, Nobre resolve extrair de si a pior versão de si mesmo e projectá-la na praça pública, com um prazer quase perverso em se expor ao opróbio, como se todo o seu empenho estivesse agora em mostrar que o seu passado não foi, afinal, mais do que um logro e que a máscara do humanista escondia o oportunista mais banal.

Podemos rir da triste figura de Nobre. Mas, no fundo, lá muito no fundo, o que sobra é uma enorme tristeza e um sabor a asco.

Dizer tudo, com as palavras necessárias

Posted in Lucidez por APEDE em 17/06/2011

Inveja de não termos escrito este texto (extraído daqui):

Há algumas semelhanças entre o que se passa hoje e o que se passou há um século, mas  as  diferenças são muito mais relevantes. Então, estava em vias de terminar a primeira globalização iniciada na segunda metade do século dezanove; hoje, a segunda globalização aparentemente reforça-se, apesar da crise; há um século, a globalização levou à bancarrota de vários países; hoje, acontece quase o mesmo; há cem anos, o padrão-ouro imposto pela potência dominante acabou por ser fatal para os menos competitivos; hoje, o euro tem exactamente o mesmo efeito; há um século, o desemprego nos países europeus decorrente do desenvolvimento industrial e dos progressos tecnológicos originou um movimento migratório nunca antes visto para os novos territórios, principalmente da América do Norte e do Sul; hoje, o desemprego europeu, salvo o muito qualificado, não é absorvível em nenhuma outra parte do mundo; há um século, havia um forte movimento operário, internacionalmente ligado, com um projecto político de tomada de poder; hoje, o movimento operário, como tal, tem uma força meramente residual, ancorada nos sindicatos que restam, e não tem qualquer projecto de tomada de poder; por outro lado, a força laboral dos demais sectores, com predominância dos serviços, não se encara como classe social e partilha em larga medida os mesmos valores do capital, apesar de impiedosamente fustigada pela crise; há cem anos, havia a convicção da existência de uma forte solidariedade internacionalista que três anos mais tarde se revelou não existir; hoje, há quem utopicamente sonhe com essa solidariedade para dar a volta a crise, sem que tal “sonho” seja alicerçável em qualquer tipo de base; há cem anos, havia um projecto de mudança radical que parecia inatingível, mas que acabou por se concretizar não tanto pelas “condições objectivas”que o proporcionaram, mas porque na cabeça de quem lutava e, principalmente de quem dirigia a luta, havia uma ideia muito clara do que se pretendia alcançar; hoje, o descontentamento resulta do que se perdeu ou do que não se conseguiu alcançar e dá lugar a um sentimento difuso mais dirigido a um regresso ao passado do que propriamente à construção de um novo futuro. Por outras palavras,  ainda vai ter de acontecer muita coisa antes que uma nova mentalidade surja.

Importam-se de explicar?

Posted in Outra perguntinha singela por APEDE em 17/06/2011

É desta que o eduquês leva com a merecida barrela?

Posted in De olhos bem abertos por APEDE em 17/06/2011
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Já o dissemos várias vezes: o momento não está para foguetes. Muito pelo contrário. E o PSD/CDS e o FMI e Bruxelas e a estratégia do capitalismo financeiro. E etc.

Mas, dito isto, alguns comentários se impõem sobre a nomeação de Nuno Crato para o Ministério da Educação, Ensino Superior e Ciência.

Em primeiro lugar, é da mais elementar justiça saudar o facto de a tutela da Educação pré-universitária e do Ensino Superior, associado à investigação científica, voltar a estar concentrada num único pólo governativo, como faz sentido para quem possui do ensino uma visão integrada, que pense na globalidade as questões do acesso ao conhecimento e da sua produção. A solução que vigorou nestes últimos anos, orientada para a desarticulação dos vários níveis de ensino, com a inferiorização do ensino pré-universitário, foi epistemológica e politicamente absurda.

A segunda observação vai para a figura do nomeado. Sabemos que Nuno Crato cria muita comichão nos tolinhos da cientologia da educação que pululam por aí. Só por isso, e pelo eventual medo que a esta hora se está a apoderar de certas alminhas que têm pontificado no Ministério da Educação, a nomeação do dito cujo tem qualquer coisa de saboroso.

É claro que também sabemos que muitas análises que Nuno Crato foi tecendo ao longo dos últimos anos pecam, por vezes, de algum tremendismo, de uma boa dose de reducionismo na leitura dos problemas e, claro está, de um alinhamento pouco saudável com o primarismo analítico de um Medina Carreira.

Ainda assim, e com todas as precipitações em que possa ter incorrido, Nuno Crato é daqueles que pôs o dedo em muita ferida purulenta do nosso sistema de ensino. É inevitável que, por isso, crie fundadas expectativas em muitos professores.

Sobretudo, há que lhe reconhecer alguma coragem em ter aceite uma pasta ministerial onde é tão fácil sair esturricado. Não é todos os dias que um indivíduo que ganhou notoriedade pelas críticas e sugestões que fez em sede jornalística é chamado a aplicar, na prática, as suas ideias. E que aceita esse desafio. Teria sido mais fácil para Nuno Crato continuar resguardado no conforto das colunas de opinião onde tanto treinador de bancada faz carreiras inconsequentes. Não reconhecer isto é pura hipocrisia política.

Num certo sentido, Nuno Crato tem aqui o desafio da sua vida. A margem de manobra de que dispõe é estreitíssima, se tivermos em conta os apertos impostos pela “troika”, o muito pouco promissor programa do PSD para o ensino e toda uma classe profissional, a dos professores, que não suportará mais outro ministro frustrante.

Se Nuno Crato não estiver minimamente à altura dos conselhos e das posições que foi defendendo nas tribunas da comunicação social, é caso para dizer que, no futuro, nunca mais deverá articular uma só palavra sobre educação.

Vamos aguardar, pois, com um pé vigilantemente atrás e os olhos bem abertos.

 

Este país não é para pessoas livres

Posted in Coisas que fazem revolver as entranhas por APEDE em 13/06/2011

Já várias vezes, neste blogue, analisámos a escassa apetência do tugazinho médio pela fruição da liberdade cívica. Parece que continuamos a arrastar o atávico peso de séculos de cultura inquisitorial aos quais, em época mais recente, se somaram os quase 50 anos de um fascismo que penetrou no mais fundo das sinapses de boa parte dos portugueses para lá depositar os ovos do “respeitinho é que é bonito”, do “a minha política é o trabalho”, da espinha dobrada diante do chefe (à espera de que ele não olhe para então se transgredir a lei, mas só um bocadinho), do culto do ditador austero e protector.

Portugal destaca-se pela ausência quase total de uma cultura de debate aberto, de troca desassombrada de argumentos, de livre recurso a expressões fortes, contundentes e até malcriadas para vituperar adversários – tudo aquilo que, por exemplo, na Inglaterra e até na puritana América constitui o pão nosso de cada dia de debate público. Um décimo do que é perfeitamente normal no Daily Show de John Stewart provocaria, por cá, as reacções mais histéricas e os escândalos mais descabelados.

Entre nós, o normal é a figura “pública” (político, jornalista, escritor, etc.), visada por uma crítica mais acutilante, tentar remeter para o foro judicial aquilo que é, tão-só, expressão do exercício de uma opinião que, com 37 anos de democracia, devia ser livre mas que continua armadilhada.

Tivemos já o caso de uma escrevinhadora de romances cor-de-rosa-merda que quis levar a tribunal um crítico, sob a espantosa acusação de que ele estava a prejudicar a venda daquelas coisas parecidas com livros que ela perpetra com a regularidade das descargas de esgoto. 

Mais recentemente, a cavacal figura também processou o director de uma revista por ele ter ousado uma comparação – mais uma vez, um mero argumento – que desagradou ao fenómeno de Boliqueime.

Num país em que estar de cócoras é a posição mais apreciada para, paradoxalmente, se subir na vida, o delito de opinião está a tornar-se a norma. Isto porque, até prova em contrário, toda a opinião é um delito.

O recente autoritarismo socratino, com o seu cortejo de compadrios impunes, não veio, como é óbvio, tornar a atmosfera mais respirável.

Vem tudo isto a propósito da queixinha que o jornalista Paulo Chitas resolveu intentar contra Paulo Guinote.

Daqui estendemos o nosso abraço solidário ao Paulo, esperando que este processo termine como outros terminaram: com arquivamento e humilhação do queixinhas.

O que aconteceu e o que vai acontecer ao Bloco de Esquerda

Posted in Debate por APEDE em 12/06/2011

Por estes dias, muito se tem escrito acerca da derrocada eleitoral do Bloco de Esquerda. Não vamos acrescentar mais ruído à discussão que anda por aí, na qual se misturam reflexões sérias com ressabiamentos vários, algumas punhaladas nas costas e aquele pendor autofágico para o estilhaçamento identitário que é apanágio de muito “boa” esquerda. No meio de tudo isso, tropeçámos num “post” que, talvez por estar distanciado de alguma poluição verbal que se tem apoderado do assunto, consegue levantar, com rigor, questões essenciais que, de resto, ultrapassam o âmbito do BE para se dirigirem a toda a esquerda:

É o projecto de transformação socialista da sociedade compatível com as regras e os limites da democracia liberal? Ou esse projecto só se pode afirmar em ruptura com tais regras? E significa essa ruptura mais democracia (do que aquela que o liberalismo pode oferecer) ou menos?

Podem partidos como o BE (ou o PCP) aceder ao poder político – à governação do país – por via eleitoral? Ou estão condenados a não ser realmente mais do que partidos de protesto, tendo em conta que essa via de acesso ao poder lhes está completamente vedada?

A estas questões podíamos acrescentar uma outra, que o “post” acima citado não chega a explicitar:

Se o BE assumir a sua vertente social-democrata, excluindo de vez as facções esquerdistas que ainda por lá campeiam, e se, nesse movimento, conseguir que o PS retome, por sua vez, essa matriz política, este último resultado não tornará o BE um partido totalmente redundante na cena portuguesa?

Nulidades pátrias

De entre os vários enigmas em que a nossa pátria é fértil, há um mistério menor (absolutamente menor) que temos alguma dificuldade em entender: o prestígio que rodeia essas vacuidades intelectuais que dão pelo nome de Manuel Maria Carrilho e António Barreto.

De vez em quando, ainda nos forçamos à tarefa de passar os olhos por um artigo que uma destas duas criaturas perpetra num periódico, com a ingénua esperança de que a regra tenha a sua excepção e que dali saia alguma coisa vagamente memorável. Em vão. A meio do artigo já desistimos da atenção concentrada, optando pelo modo «leitura em oblíquo», o único capaz de fazer justiça às banalidades que o texto expõe à nossa curta paciência. 

É totalmente inglório o esforço de encontrar qualquer substância, um pequeno rasgo, um esboço de uma ideia interessante naquilo que escrevem ou naquilo que dizem.

E, no entanto, os dois lá vão mantendo colunas regulares nos jornais e são regularmente convidados para, nas televisões, cumprirem o seu papel de pitonisas do nosso tédio. 

O mais bizarro é o coro de elogios que estas rotundas nulidades conseguem arrancar, vindos até de pessoas que lhes são infinitamente superiores e que, desse modo, dão mostras de que o curto-circuito cerebral pode afectar as cabeças mais insuspeitas.

Vem isto tudo a propósito do discurso de António Barreto nas comemorações do 10 de Junho.

Por uma vez, houve alguém que, de forma brilhante, destapou a nudez deste paupérrimo rei da nossa tristeza e do nosso bocejo:

10 de Junho de 2011

Posted in Ai Portugal por APEDE em 10/06/2011

Oh! Se eu soubesse que o Inferno

não era como os padres mo diziam:

uma fornalha de nunca se morrer…

mas sim um Jardim da Europa

à beira-mar plantado…

Eu teria tido certamente mais juízo,

teria sido até o mártir São Sebastião!

E inda há quem faça propaganda disto:

a pátria onde Camões morreu de fome

e onde todos enchem a barriga de Camões!

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