APEDE


Bom povo português

Posted in Ai Portugal por APEDE em 03/06/2011

Telejornal da SIC-Notícias, 9h da manhã. Um sujeito é entrevistado na estação de comboios da Amadora. Perguntam-lhe: «O que pensa da greve dos maquinistas?» Resposta: «Uma vergonha». E o sujeito acrescenta, ar severo e orgulhoso: «Tenho 53 anos e nunca fiz uma greve na vida. Sempre trabalhei.»

Uma pessoa olha para o dito sujeito e fica a matutar na enorme quantidade de portugueses que poderiam, com o mesmo orgulho e a mesma severidade, fazer uma afirmação como essa. Para certos lunáticos de esquerda, que acham que meia dúzia de «acampadas» no Rossio significam já a revolução ao virar da esquina, é bom lembrar que este é o país que teve a mais longa ditadura fascista da Europa (quase meio século). E que tão extensa duração não se ficou a dever, exclusivamente, à repressão.

Nenhuma ditadura se aguenta tanto tempo apenas com base em medidas repressivas. A tristíssima verdade é que a «heróica resistência do povo português» não passa de um mito – que o PCP, por exemplo, gosta tanto de evocar para efeitos de autolegitimação histórica. A resistência e o combate estiveram a cargo de nichos muito reduzidos da população, que nunca conseguiram atrair as chamadas «massas», a não ser em dois momentos episódicos (ainda que significativos): o fim da Segunda Guerra Mundial e a campanha eleitoral de Humberto Delgado em 1958. Tirando isso, na maior parte do tempo o «bom povo português» tratou de se adaptar, melhor ou pior, à situação de miséria e de cinzentismo que se vivia, sem se preocupar grandemente com a ausência de liberdades cívicas e esforçando-se, numa base quase sempre individual, por se desenrascar em várias estratégias de sobrevivência – que, nos anos 60-70, se traduziram pela emigração de mais de 1 milhão de portugueses.

Ora, além das estratégias de adaptação, um número muito grande de portugueses apoiava activamente a ditadura de Salazar. E, por muito que isso custe à mitologia da resistência antifascista, as manifestações de apoio ao ditador não eram só compostas por gente arrebanhada das aldeias em camionetas. Se a isso juntarmos a rede de “bufos” com que a PIDE contava, a qual se calcula ter chegado às 20.000 almas (número provavelmente subavaliado), está feito o quadro completo do «bom povo português» e daquilo com que os resistentes podem contar, neste país, em tempos de ditadura.

Porque o PREC foi um brevíssimo interregno numa longa história de submissões, porque a liberdade não ocupa, de facto, a prioridade na cabeça da maioria dos portugueses, continua a haver tanta gentinha a suspirar por um qualquer Salazar, coisa que o senhor de 53 anos que nunca fez uma greve na vida muito possivelmente subscreve e apoia.

A realidade é esta: a democracia em Portugal é um facto bem mais frágil do que gostamos de imaginar.

Uma resposta to 'Bom povo português'

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  1. maria said,

    É essa realidade que nos faz pensar: será genético?
    Hoje vamos ter uma ajuda na resposta eleitoral.


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