APEDE


Pós-Sócrates

Posted in E agora? por APEDE em 05/06/2011

Nota positiva (a única, a bem dizer): José Sócrates está arrumado politicamente.

É claro que, neste país de Lázaros – onde um Santana Lopes consegue sair da cova aparentemente mais funda -, é difícil afirmar que o enterro (politicamente falando) de Sócrates seja definitivo. E, neste país de muitos tráficos, também é impossível prever que a «travessia do deserto» por parte do «engenheiro» não se fará numa qualquer mordomia dourada. Sabendo nós que aquele é dos que não dá ponto sem nó.

Temos agora uma maioria absoluta de direita. Como dissemos várias vezes, é relativamente indiferente que sejam o PSD, com (ou sem) CDS, ou o PS a estarem no governo, visto que o programa por eles assinado era rigorosamente o mesmo: a “troika” já o cozinhou. E o que os portugueses hoje aprovaram é o programa que os vai enterrar e que eles aceitaram como uma fatalidade, interiorizando todos os estribilhos que foram sendo matraqueados. A fabricação do consentimento em democracia liberal tem artes superiores a qualquer ditadura.

Curiosidade para o futuro imediato: ver como a dupla PSD/CDS se desenvecilha dos prazos despoticamente impostos pelo memorando da “troika”, de como consegue conciliar o cumprimento dos mesmos com esse “incómodo” que são as regras processuais de um regime democrático. Se os conteúdos associados a esses prazos não fossem tão trágicos para os portugueses, seria divertido assistir às trapalhadas e aos atropelos previsivelmente abundantes nas próximas semanas e meses.

Prognóstico com muitas hipóteses de acertar: a estabilidade do governo PSD/CDS, apesar da maioria absoluta, não estará tão garantida como isso. É que o tempo que aí vem é de vacas esqueléticas, de empobrecimento generalizado, de desemprego a crescer, de instabilidade social e de uma mais que provável contestação nas ruas (agora que o PCP e os sindicatos deixaram de estar inibidos pela presença de um partido “de esquerda” no governo). Se a isso somarmos o facto, mais do que previsível, de que o programa da “troika” não vai funcionar e que a espiral de endividamento e de recessão só irá disparar, está-se mesmo a ver que a margem de manobra do governo será limitadíssima – mesmo para aplicar “à outrance” um programa de neoliberalismo radical, insustentável num país com as assimetrias sociais de Portugal. Juntemos-lhe ainda um ingrediente: a inexperiência e o amadorismo políticos de Passos Coelho, que não desaparecem pelo milagre de um resultado eleitoral favorável. O que vão fazer os senhores deste próximo governo quando tiverem de renegociar a dívida, isto é, quando forem confrontados com o cenário que têm andado a negar a pés juntos?

Passos Coelho pode estar feliz agora. Mas o seu pesadelo (e o nosso) começa já amanhã.  

5 Respostas to 'Pós-Sócrates'

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  1. Zé Manel said,

    Eu atá me arriscava a afirmar que o pesadelo do Coelho já começou há algum tempo atrás. Mas vejamos mais de perto o resultado de mais este processo eleitoral. Em primeiro lugar constatamos a esmagadora vitória do maior partido português que obteve um score nunca visto. A abstenção venceu largamente com mais de 41%, o que quer dizer que perto de metade dos eleitores não se revê nem no espectro partidário nem nas elites que se apresentaram. Por outro lado deu-se uma clara viragem à direita com a subida evidente do PSD e um ligeiro aumento do CDS. O PCP manteve-se igual a si próprio e o BE caíu a pique. Quanto ao animal feroz, nunca ele apareceu tão conciliador, tão cordato, tão bonzinho, tão inofensivo, tão humilde. Até faz lembrar A. Vieira no sermão sobre o polvo:- “Com aquele não ter osso nem espinha, parece a mesma brandura, a mesma mansidão…”
    A ponto de A. J. Seguro acreditar que tal se devia a uma enorme nobreza de caracter (esta é dose!!!).
    Quanto ao Bloco temos de registar com algum desgosto não apenas o seu recuo quase para metade mas, mais grave que isso, a total incalacidade dos seus dirigentes de tomarem consciência das causas e razões que estão na base de tão grande descalabro. Esta incapacidade de autocrítica que tem acompanhado a contínua descida de popularidade vem já muito de trás, desde o falhanço da opção Poeta Alegre, passando pela moção de pseudo-censura e pela adesão ao TGV a outras posições igualmente erróneas. É talvez por isso que avulta dentro do partido um ou outro movimento fracionário que pretende formalizar a sua saída. Por estas razões, alguns comentadores já aludem a uma provável implosão do BE. Quando a direita cerra fileiras e cumpre o sonho de Sá Carneiro, a esquerda estilhaça-se. É a política-que-temos.

  2. Mário Machaqueiro said,

    Caro Zé,

    Subscrevo inteiramente a tua análise. A abstenção marca, efectivamente, um divórcio cada vez maior entre os cidadãos e uma democracia reduzida a um regime de oligarquias partidocráticas. Que ninguém veja aqui uma crise desse mesmo regime é o que surpreende e o que inquieta. Significa que as rotinas partidárias não estão minimamente preparadas para enfrentar a emergência de “soluções” antidemocráticas que, no entanto, o cidadão comum bem pode vir a apoiar no futuro.
    Quanto à esquerda, tens toda a razão: parece empenhada em não extrair qualquer lição do seu colapso. O BE, depois de todos os tiros no pé que foi dando, fez uma campanha desastrada, meramente pela negativa, incapaz de apresentar alternativas de combate à crise, do ponto de vista económico e financeiro, que o eleitorado percebesse poderem ter tradução governativa. O mesmo sucedeu com o PCP, só que esse conta com aquela população eleitoral fixa cuja teimosia desafia todas as análises sociológicas. O BE ou faz uma revisão profunda dos objectivos estratégicos e dos processos para os alcançar ou ainda se afundará mais em próximas eleições.
    O problema do BE é que só pode crescer eleitoralmente à custa do PS e não do PCP, e só assim, aliás, é que se poderia afirmar como alternativa de esquerda com peso eleitoral. Sucede que o BE agora perdeu votos provavelmente até para o PSD (não vi ainda as análises das transferências de votos)!
    Muito se falou da necessidade de o PCP e o BE formarem uma aliança com um programa de governo. Isso tê-los-ia, sem dúvida, credibilizado junto do eleitorado. Acontece, porém, que nenhum desses partidos pareceu verdadeiramente interessado nisso, empenhados como estão naquelas tácticas suicidas e autofágicas em que a esquerda tem sido tão fértil ao longo da história. O BE foge como o diabo da cruz de se comprometer com algo mais do que discursos contestatários e pseudo-soluções mágicas (do género “só se pode combater a crise se todos os países do sul da Europa se unirem contra as políticas de bruxelas”). O PCP não está realmente interessado em ser um partido de poder. Como, de resto, nunca esteve, conforme se depreende facilmente da leitura de um livro fundamental, recentemente publicado, da historiadora Raquel Varela: «A História do PCP na Revolução dos Cravos». Com uma sólida fundamentação empírica, esse livro mostra que a estratégia do PCP foi, em 1974-75, a de conter as lutas sociais e operárias dentro de limites “razoáveis”, a de combater a maior parte das greves e das reivindicações que milhares de trabalhadores estavam a conduzir através de órgãos – as comissões de trabalhadores – que o PC e os seus sindicatos não controlavam. Ontem como hoje. Depois de 1976, o grande objectivo do PCP tem sido o de sobreviver eleitoralmente no quadro de uma democracia “burguesa” e de um sistema capitalista. E tem-no conseguido – à custa, porém, de abdicar de qualquer estratégia de poder, mesmo por via eleitoral. Se a isto somarmos o facto de o sectarismo dos dirigentes do PC não suportar a ideia de uma aliança com o BE, está-se mesmo a ver o que se pode esperar para a esquerda deste país nos anos mais próximos.
    Uma tristeza…


  3. Sobre o BE, e a derrota eleitoral de ontem, será interessante ler o artigo de Rui Tavares, na última página do Público. Um artigo onde se colocam as questões que ontem Francisco Louçã não foi capaz de assumir.

  4. roma maria said,

    “….Mas o seu pesadelo (e o nosso) começa já amanhã.”
    O nosso já começou faz muitos anos e foi-se agravando com o passar do tempo.Uma tristeza a classe política deste país.Da esquerda à direita venha o diabo e escolha.

    • maria said,

      roma maria: este povo não votou direita pelos erros da esquerda e se a maioria do povo se absteve não foi pelos erros da esquerda. Tal como no “salazarismo”, pretendem autoritarismo e um sebastiãozito desde que alguém pense por eles e decida por eles.
      Difamam o nome “político” mas são políticos todos os dias. Mas, só no café, entre amigos, …
      A Manuela Ferreira Leite até suprimia a democracia e resolvia todos os problemas! Agora vamos ter um jovenzito que muito aprendeu com ela e um velho intriguista,capaz de matar o pai e apelar à desculpa de que é orfão.
      Que sociedade mais hipócrita! Não foi para isto que tantos arriscaram tudo para mudar Portugal e aproximá-lo da Democracia.


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