APEDE


O que aconteceu e o que vai acontecer ao Bloco de Esquerda

Posted in Debate por APEDE em 12/06/2011

Por estes dias, muito se tem escrito acerca da derrocada eleitoral do Bloco de Esquerda. Não vamos acrescentar mais ruído à discussão que anda por aí, na qual se misturam reflexões sérias com ressabiamentos vários, algumas punhaladas nas costas e aquele pendor autofágico para o estilhaçamento identitário que é apanágio de muito “boa” esquerda. No meio de tudo isso, tropeçámos num “post” que, talvez por estar distanciado de alguma poluição verbal que se tem apoderado do assunto, consegue levantar, com rigor, questões essenciais que, de resto, ultrapassam o âmbito do BE para se dirigirem a toda a esquerda:

É o projecto de transformação socialista da sociedade compatível com as regras e os limites da democracia liberal? Ou esse projecto só se pode afirmar em ruptura com tais regras? E significa essa ruptura mais democracia (do que aquela que o liberalismo pode oferecer) ou menos?

Podem partidos como o BE (ou o PCP) aceder ao poder político – à governação do país – por via eleitoral? Ou estão condenados a não ser realmente mais do que partidos de protesto, tendo em conta que essa via de acesso ao poder lhes está completamente vedada?

A estas questões podíamos acrescentar uma outra, que o “post” acima citado não chega a explicitar:

Se o BE assumir a sua vertente social-democrata, excluindo de vez as facções esquerdistas que ainda por lá campeiam, e se, nesse movimento, conseguir que o PS retome, por sua vez, essa matriz política, este último resultado não tornará o BE um partido totalmente redundante na cena portuguesa?

4 Respostas to 'O que aconteceu e o que vai acontecer ao Bloco de Esquerda'

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  1. Zé Manel said,

    Parece que o colapso eleitoral do BE afinal está a servir para serem postas questões fundamentais como o acesso ao poder dos partidos de esquerda ou até os limites das regras eleitorais da dita democracia liberal. Esses sim, são problemas de fundo que há todo o interesse em discutir, em vez das tricas e jogadas de bastidores feitos pelos chicos-espertos do instante que teimam em não preceber quanto isso os descedibiliza.
    Eu continuo fiel ao lema de que só a verdade é revolucionária. Daqui segue-se que todos aqueles que se esforçam por escondê-la, por camuflá-la, que se entrincheiram atrás de chavões, preconceitos e interesses mesquinhos são obstáculos ao caminho. Desses não precisamos.
    Como já constatei noutra altura, as vias ditas democráticas tradicionais foram capturadas pelas cliques que armadilharam tudo à sua volta para se perpetuarem.
    Assim, urge encontrar novos caminhos. Veja-se como os trabalhadores da TAP contornaram os sindicatos e deram a volta à greve. As regras democráticas têm de
    ser revistas de molde a que o povo se reveja nelas. Nomeadamente, temos que exigir circulos uninominais e nacionais a par com regras de proporcionalidade que impeçam os grandes partidos de fazer o golpe de estado constitucional de reduzir os pequenos partidos a grupos inexpressivos. A cabal responsabilização dos deputados perante os eleitores é outra medida indispensável (como fazem alguns países civilizados) para reduzir o carneirismo e o caciquismo. Ora, regras como estas cabem perfeitamente dentro de qq democracia digna desse nome e deviam ser os partidos que se reclamam da esquerda a lutar por elas com medidas consequentes.
    Contrariamente ao que alguns defendem, o povão não é completamente estúpido. Mesmo as pessoas com menos capacidade de análise sentem perfeitamente a falta de credibilidade com que os políticos se envolvem nas decisões mais contrárias aos interesses do país, interessses esses com os quais teimam em confundir-se sem o conseguir. Estão neste caso evidentemente as opções poeta-Alegre, construção do TGV, moção de pseudo-censura, fuga ao contacto com a troika e muitas outras com que os donos do BE nos continuam a brindar. Para todos os efeitos continuam a cultivar a extrema arrogância de quem finge saber tudo e os outros nada. Esse tipo de postura conduz necessáriamente ao esvaziamento do partido, mas se calhar, é isso que eles pretendem para manter o escasso poder a que se agarram deseperadamente.

  2. Mário Machaqueiro said,

    Zé,

    Tens razão em tudo o que dizes. Mas o “post” que está “linkado” vai mais longe na análise. A questão, no fundo, é esta: será que, se o BE tivesse feito tudo como dever ser e não insistisse em dar tiros no pé, o seu resultado eleitoral teria sido substancialmente diferente?
    O autor desse “post” chama a atenção para uma metodologia de análise que quase toda a gente tem negligenciado: antes de perguntarmos por que é que o BE desceu tanto nestas eleições, talvez nos devêssemos interrogar sobre os motivos que levaram a que o BE tivesse um resultado tão bom nas eleições anteriores. E aí é muito provável termos de concluir que esse resultado foi bem mais circunstancial e volátil do que muitos gostariam de admitir.
    Quanto à alteração das regras processuais das eleições, tenho fortes dúvidas de que ela fosse suficiente se não houvesse uma transformação profunda (e improvável) da nossa (in)cultura política. Duvido que o caciquismo desaparecesse com a responsabilização directa dos candidatos por meio de círculos uninominais. O caciquismo continuaria a existir, e talvez até saísse reforçado (é só pensar no tipo de alianças e na rede de dependências que os candidatos tenderiam a criar).
    Acima de tudo, tenho as maiores dúvidas de que a esquerda acedesse mais facilmente ao poder governativo na base da tal modificação das regras eleitorais. Existe uma discrepância, quase estrutural, entre a base de apoio social da esquerda mais militante e a grande maioria do eleitorado. A base de apoio da esquerda é composta pelos sectores mais politizados e mais civicamente participativos. Em certos momentos históricos, eles até conseguem ser o motor de grandes transformações qualitativas nas sociedades, porque são eles que fazem greves, são eles que vão para as ruas, são eles que pressionam o poder de Estado, etc., etc. Porém, eles são apenas uma parte ínfima do eleitorado, constituído, na sua maioria, por gente completamente divorciada da participação política e cuja despolitização a torna permeável a toda a propaganda conservadora. Por isso, a expressão maioritária do voto quase nunca coincide com o ideário de esquerda. Isso foi muito visível, em Portugal, nas primeiras eleições livres que tivemos, em 25 de Abril de 1975, para a Assembleia Constituinte: o voto do eleitorado que estava, de facto, a transformar socialmente este país ficou reduzido a uma pequena percentagem quando comparado com os votos obtidos pela direita e pelo centro-direita.
    A constatação é esta: só muito raramente a esquerda chega ao poder através de eleições. Por isso, a discussão mais interessante, para uma esquerda com projectos de poder, tem de começar a seguir a esta constatação.

  3. Zé Manel said,

    A pertinência dessa análise e das respectivas constatações é evidentemente importante, mas eu gostaria de colocar o problema mais na atitude das cliques politico-partidárias. Todos dias essa gentinha se vem queixar de que o povo diz muito mal deles, tem-nos num baixo conceito e não lhes liga nenhuma, coisa que é obviamente verdade. Basta ver o número de abstenções e votos nulos/brancos a crescer. Mas nunca referem o outro lado. Eles nutrem pelo povo a mais soberana das indiferenças, o mais abjecto desprezo, a mais sobranceira arrogância. Os verdadeiros interesses da maioria dos portugueses são para eles um absurdo e até um conjunto de inimigos a destruir e espezinhar. Não admira nada que o povo se distancie dessa baixeza. Claro que essa distância lhes é útil. O Berlusconi até apelou à abstenção nos últimos referendos ( mas sem qq sucesso). Todos esses jogos de poder, todas as maningâncias mesquinhas, toda a cultura de interesses particulares onde chafurda a propalada alternância só pode ter como corolário o asco visceral do povo. Assim, temos mais é que exigir em permanência da classe política uma postura consequente com a missão que são chamados a desempenhar. Qualquer que seja o problema, o escândalo ou o desastre, nunca há responsáveis. Concerteza que se existissem partidos e políticos com atitudes responsáveis, respeitadores da ética e dos interesses dos eleitores, dedicados a prosseguir a causa da res publica, naturalmente que mais e mais camadas da população passariam a rever-se nesse propósito. Claro que nós, pessoas de esquerda, gostaríamos que fossem os respectivos partidos e dirigentes a partir para essas atitudes e só podemos lamentar que o BE e outras organizações se comportem afinal como todos os outros nas corridas aos oportunismos mais desenfreados. A aderência das massas e eventual acesso ao poder estão nos antípodas dessa política de mercearia. A credibilidade está no pólo oposto e eles ainda não o perceberam. Nem sei se alguma vez se darão conta disso……

  4. Leitor said,

    Zé Manel:

    “só podemos lamentar que o BE e outras organizações se comportem afinal como todos os outros nas corridas aos oportunismos mais desenfreados.”

    Como “pessoa de esquerda” que se julga informada, pode explicitar melhor este raciocínio, pormenorizando quais são as outras organizações a que se refere?


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