APEDE


Este país não é para pessoas livres

Posted in Coisas que fazem revolver as entranhas por APEDE em 13/06/2011

Já várias vezes, neste blogue, analisámos a escassa apetência do tugazinho médio pela fruição da liberdade cívica. Parece que continuamos a arrastar o atávico peso de séculos de cultura inquisitorial aos quais, em época mais recente, se somaram os quase 50 anos de um fascismo que penetrou no mais fundo das sinapses de boa parte dos portugueses para lá depositar os ovos do “respeitinho é que é bonito”, do “a minha política é o trabalho”, da espinha dobrada diante do chefe (à espera de que ele não olhe para então se transgredir a lei, mas só um bocadinho), do culto do ditador austero e protector.

Portugal destaca-se pela ausência quase total de uma cultura de debate aberto, de troca desassombrada de argumentos, de livre recurso a expressões fortes, contundentes e até malcriadas para vituperar adversários – tudo aquilo que, por exemplo, na Inglaterra e até na puritana América constitui o pão nosso de cada dia de debate público. Um décimo do que é perfeitamente normal no Daily Show de John Stewart provocaria, por cá, as reacções mais histéricas e os escândalos mais descabelados.

Entre nós, o normal é a figura “pública” (político, jornalista, escritor, etc.), visada por uma crítica mais acutilante, tentar remeter para o foro judicial aquilo que é, tão-só, expressão do exercício de uma opinião que, com 37 anos de democracia, devia ser livre mas que continua armadilhada.

Tivemos já o caso de uma escrevinhadora de romances cor-de-rosa-merda que quis levar a tribunal um crítico, sob a espantosa acusação de que ele estava a prejudicar a venda daquelas coisas parecidas com livros que ela perpetra com a regularidade das descargas de esgoto. 

Mais recentemente, a cavacal figura também processou o director de uma revista por ele ter ousado uma comparação – mais uma vez, um mero argumento – que desagradou ao fenómeno de Boliqueime.

Num país em que estar de cócoras é a posição mais apreciada para, paradoxalmente, se subir na vida, o delito de opinião está a tornar-se a norma. Isto porque, até prova em contrário, toda a opinião é um delito.

O recente autoritarismo socratino, com o seu cortejo de compadrios impunes, não veio, como é óbvio, tornar a atmosfera mais respirável.

Vem tudo isto a propósito da queixinha que o jornalista Paulo Chitas resolveu intentar contra Paulo Guinote.

Daqui estendemos o nosso abraço solidário ao Paulo, esperando que este processo termine como outros terminaram: com arquivamento e humilhação do queixinhas.

Uma resposta to 'Este país não é para pessoas livres'

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  1. Viva.

    Que coisa mais ridícula.

    Enfim.

    Abraço.


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