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Algo que sobrou do “post” anterior

Posted in O trabalho do nosso descontentamento,Professores,Profissão por APEDE em 23/06/2011

No rol de aspectos negativos que pesam, como toneladas, sobre o exercício da profissão docente, muito se tem falado de avaliação do desempenho, de divisões arbitrárias na progressão da carreira, de precariedade dos contratados, etc., etc.

Há, porém, dimensões mais básicas e mais quotidianas de que nos esquecemos, demasiadas vezes, de falar:

– As horas a fio que os professores passam nas escolas preenchendo resmas de papel absurdas e inúteis, relatórios disto e daquilo, fichas de registo que ninguém vai ler mas que um colega “bem posicionado” sempre se lembra de inventar.

– O tempo que se gasta e nos desgasta com o preenchimento da componente não lectiva, especialmente com as famigeradas “aulas” de substituição, feitas apenas para prender absurdamente professores e alunos às salas de aula sem vantagem para ninguém, nem didáctica nem pedagógica, horas quase sempre aproveitadas para os alunos se vingarem sobre os professores por assim ficarem constrangidos nos seus movimentos, testando os limites de uma autoridade que não reconhecem.

– As centenas de horas que são exauridas em reuniões atrás de reuniões atrás de reuniões onde se discute o ponto e a vírgula de outros tantos documentos que nada acrescentam ao bom funcionamento das escolas.

Tudo isto é roubado ao tempo, cada vez mais escasso, de que os professores dispõem para preparar as suas aulas, para ler e corrigir testes e trabalhos de casa. E tudo isto vai minando, como gangrena lenta e insidiosa, a disponibilidade psíquica para dar aulas estimulantes, para a dedicação aos alunos, para, em suma, tudo aquilo que deveria ocupar o centro da vida profissional dos professores e que é cada vez mais atirado para a sua periferia.

De vez em quando, algum jornalista menos distraído chama a atenção para o número maciço de professores que recorrem a apoio psicológico ou psiquiátrico. Mas raros são os que retiram desse quadro deprimente as devidas ilações.

Apesar de os professores surgirem sistematicamente bem colocados nas sondagens de opinião sobre as profissões mais valorizadas deste país, a verdade é que subsiste uma enorme insensibilidade social a respeito da falta de qualidade de vida no quotidiano dos professores.

E essa insensibilidade social tem-se traduzido, invariavelmente, por insensibilidade política.

Os responsáveis que passam pela pasta da Educação não fazem a mais pequena ideia do que é o dia a dia dos professores dos ensinos básico e secundário. A verdade é que esses responsáveis não trabalham nas escolas, não têm qualquer contacto directo com as dificuldades que afectam a profissão docente, não fazem a mais leve ideia de tudo o que lhe tem infernizado a existência. Ministros e secretários de Estado da Educação têm sido recrutados entre professores universitários, ou entre “técnicos” e burocratas da 5 de Outubro. Se alguma vez deram aulas no básico ou no secundário, já foi há tanto tempo que a lembrança se volatilizou, entretanto, por entre os sofás de uma carreira confortável. E quase todos, independentemente do lugar de onde saltaram para o Ministério, partilham uma visão hierárquica, arrogante e de menosprezo para com os professores, a qual ficou, para sempre, bem plasmada na triste alusão de Jorge Pedreira aos «professorzecos».

Vem a isto a propósito do facto de nada indicar que Nuno Crato, com a sua trajectória profissional, apresente um perfil capaz de contrariar a longa tradição de indiferença ministerial relativamente ao imenso, ao infinito cansaço que se apoderou dos professores. Um cansaço que só raramente desemboca na revolta. Mas que alimenta muita desilusão, muito desânimo, muito “piloto automático”, muita reforma antecipada. 

A outra julgava que perdia os professores mas que conquistava a sociedade. Alguém pensa que se pode conquistar a causa do ensino em Portugal, perdendo ao mesmo tempo os professores? 

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3 Respostas to 'Algo que sobrou do “post” anterior'

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  1. Fernanda Vaz said,

    Estou convicta de que este “post” traduz o sentimento generalizado dos professores face às sucessivas “experiências infrutíferas” a que nestes últimos anos temos sido submetidos. De uma vez por todas os professores necessitam de se centrar na verdadeira essência da sua actividade.

  2. Zé Manel said,

    Vamos acabar de vez com a tralha que atrapalha! As escolas não podem continuar a ser antros de burocracia! É imperioso que voltem a ser os locais previlegiados onde se ensina e se aprende, porque é essa a verdadeira vocação e é para isso que existem (ou devia ser).

  3. roma maria said,

    E o dinheiro que se gasta em papel e tinteiros? E a tão falada proteção ambiental, à floresta …?
    Excelente post!. Já era tempo de alguém falar destas barbaridades que minam a qualidade do ensino e a saúde dos profs e que não servem para nada.


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