APEDE


Certeiro e discutível

Posted in Debate por APEDE em 23/06/2011

Anda por aí, na blogosfera dedicada ao ensino, uma discussão um bocado (só um bocado?) malsã entre os que apoiam entusiasticamente a escolha de Nuno Crato para ministro da Educação e os gostariam de ver Santana Castilho nesse cargo. Como tantas vezes acontece neste desgraçado país, tal polémica rapidamente desceu do debate de ideias e de opções políticas para a fulanização, os remoques, as directas e as indirectas, o fel e o ácido sulfúrico. Queremos deixar, desde já, bem claro que não iremos embarcar nesse filme. Não porque pretendamos arrogar-nos uma qualquer superioridade moral em relação ao contendores dessa discussão. Mas porque achamos que esse tipo de refregas não levam a lado algum ou, pelo menos, não contribuem para a salubridade do ambiente. Contamos, aliás, com amigos e pessoas que estimamos nos dois lados da barricada. Uma razão mais para querermos situar a reflexão noutro plano – nem acima, nem abaixo: simplesmente ao lado.

Dito isto, importa referir que a última crónica de Santana Castilho merece a nossa quase total concordância nas críticas que faz ao que é conhecido das intenções do PSD para o ensino, isto é: o seu programa. Também subscrevemos, claro está, as observações de Castilho sobre a política económica que subjaz a essas medidas (e que as cerca por todos os lados). Uma política que, não o esqueçamos, vai estar a pesar sobre cada decisão tomada por Nuno Crato. 

Ainda assim, afastamo-nos de Santana Castilho nalguns pontos que nos parecem importantes.

Em primeiro lugar, parece-nos redutora a associação implícita entre o espírito quantitativista da econometria e a exigência de avaliar os conhecimentos dos alunos através de exames – uma crítica que Castilho endereça a Nuno Crato. Defendemos, na proposta global da APEDE para a reforma do sistema educativo, que a introdução de exames para todas as disciplinas, no fim de cada ciclo de ensino, é o melhor meio – pelo menos no imediato – de instaurar exigência, rigor e até transparência na avaliação dos alunos e na avaliação do sistema. É óbvio que esse não é, nem nunca poderá ser, o único instrumento para a necessária reforma nas inquinadas práticas de que o sistema padece. Como também não é, nem pode ser, a única forma de avaliar os conhecimentos do alunos. E também estamos cientes de que os contextos locais (sociais, culturais, individuais, etc.) obrigam a complementar os resultados dos exames com outros dispositivos de avaliação – e aqui a avaliação contínua do trabalho dos alunos continuará a ser incontornável.

São estes últimos aspectos, aliás, que nos levam a concordar com Santana Castilho quando considera disparatada – diríamos: perigosa e preocupante – a ideia de Nuno Crato de basear a avaliação do mérito dos professores nos resultados obtidos pelos alunos em exames nacionais. Isso equivaleria a reintroduzir, na avaliação do desempenho docente, um indicador que mereceu, da parte dos professores, a maior contestação quando Maria de Lurdes Rodrigues tentou impô-lo como bitola. E note-se que, no caso do modelo defendido por esta senhora, nem sequer se tratava dos resultados de exames, mas tão-só dos resultados atingidos em processo de avaliação contínua.

Em contrapartida, a ideia de Nuno Crato de retirar do Ministério a concepção dos exames nacionais parece-nos bastante acertada como condição para garantir a independência desses exames em relação a pressões governativas ou partidárias. Todos nos lembramos do regabofe de facilitismo que se apropriou do GAVE a partir do consulado de Lurdes Rodrigues. Na crítica que Santana Castilho faz, não nos parece claro se ele rejeita esta ideia na sua integralidade ou se contesta apenas que a concepção dos exames seja entregue a uma empresa privada – uma sugestão que, de facto, nos parece aberrante, não só pela sua aparente inexequibilidade, mas também porque semelhante solução dificilmente asseguraria a independência em relação aos interesses do Ministério: nada garantiria que a empresa privada não fosse uma emanação desses mesmos interesses. Já a ideia de entregar os exames a associações de professores ou a entidades científicas de credibilidade reconhecida parece-nos pertinente, indo ao encontro do que defendemos na proposta da APEDE.

Este nosso “post” nada diz ainda do que pensamos sobre as perspectivas de governação de Nuno Crato. Reservaremos isso para próximas luas.

Uma resposta to 'Certeiro e discutível'

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  1. Helena Fraga said,

    Ouvi o Nuno Crato relacionar a avaliação dos professores com os resultados dos exames dos alunos, mas disse que era preciso ter em conta … não sei reproduzir exactamente as suas palavras, mas ele referiu que, se o nível com que os alunos chegavam às mãos de um dado professor era de 13 e se, depois de uns anos com ele, o nível baixava para 12, isso deveria ser objecto de reflexão do respectivo professor. Eu concordo com isso
    Eu sou uma pessoa que sempre se considerou de esquerda (é com a esquerda que me identifico), mas continuo ainda tomada de uma profunda repulsa pelo Partido que enquadrou e apoiou indivíduos como o Sócrates e companhia. Temo que depressa esqueçamos este passado recente.
    Eu não esqueço a política aviltante que assolou o país, nos últimos anos.
    Um governo de direita como o nosso, também me impede de criar grandes ilusões, mas sinto respeito por Nuno Crato. Temo as armadilhas, as ciladas que vai ter de enfrentar…


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