APEDE


O programa do nosso descontentamento – 2

Posted in (Des)educação,(Des)governo,De olhos bem abertos por APEDE em 29/06/2011

Quando chegamos à parte do programa do governo dedicada à carreira docente, o caldo, já de si pouco apetitoso, fica consideravelmente entornado.

Em primeiro lugar, a redução dos professores (ou de outros profissionais quaisquer) a «recursos humanos» indicia essa intrusão ideológica do pior “economês”. E nós sabemos bem tudo o que está implicado nesse conceito: os «recursos humanos» são menos «humanos» do que «recursos», e por isso são eminentemente descartáveis. É preciso não esquecer que o programa para o ensino está cercado, por todos os lados, pelo “resto” do programa de governo…

Mas então o que diz ele sobre a carreira docente? Duas coisas. A primeira reproduz uma “tese” já presente no programa do PSD: «Simplificação do Estatuto da Carreira Docente a par do estabelecimento de medidas que reforcem as competências dos directores de escola.» Frase singela que fecha, a cadeado, qualquer veleidade de alterar o ECD e de acabar com o modelo de administração autoritária e antidemocrática das escolas. Se algum professor esperava algo de diferente do PSD e do CDS, é caso para perguntar que substâncias ilegais esse colega andou a consumir nos últimos meses…

A outra ideia “brilhante” é, honra lhe seja feita, imputável a Nuno Crato, que fez gala em divulgá-la aos quatro ventos como o alfa e o omega da qualificação da profissão docente:

«Uma selecção inicial de professores que permita integrar no sistema os mais bem preparados e vocacionados designadamente através da realização de uma prova de avaliação de conhecimentos de acesso à profissão.»

A este respeito, fazemos nossas as palavras do Paulo: que sentido faz sujeitar os professores a uma prova adicional de avaliação de conhecimentos depois de aqueles terem sido avaliados e aprovados numa licenciatura, num mestrado e num processo de profissionalização para a docência, todos efectuados em estabelecimentos do ensino superior tutelados, neste momento, pelo mesmo ministro que tutela o ensino básico e secundário? Não são esse ministro e o seu Ministério que certificam os cursos do ensino superior que os candidatos a professores frequentaram? A prova de acesso não é, nessas condições, uma completa redundância? E, se não for, não será então a mais acabada confissão de que o Ministério não possui um pingo de autoridade e de credibilidade?

3 Respostas to 'O programa do nosso descontentamento – 2'

Subscribe to comments with RSS ou TrackBack to 'O programa do nosso descontentamento – 2'.

  1. Meio Vazio said,

    De resto, admitindo que os candidatos de um desses estabelecimentos de ensino tutelados se saía mal na tal prova de acesso à profissão, só haveria que encerrá-lo – o tesoureiro da fazenda pública agradeceria.

  2. Leitor said,

    Como a memória é curta, lembro o meu comentário há 6 dias:
    https://apede08.wordpress.com/2011/06/23/o-que-se-pode-esperar-de-nuno-crato/#comments


  3. Como a memória é curta e, no caso do Leitor, “estranhamente” selectiva, lembro o nosso post de há 24 dias:

    https://apede08.wordpress.com/2011/06/06/cenario-para-o-ensino-morno-a-atirar-para-o-frio/


Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s


%d bloggers like this: