APEDE


O programa do nosso descontentamento – 3

Posted in (Des)educação,(Des)governo,De olhos bem abertos por APEDE em 30/06/2011

Continuemos a penosa missão de desmontagem do programa do governo PSD/CDS para a Educação.

Esse programa repete, em várias passagens, a ideia de «reforçar a autoridade do professor». É uma daquelas declarações de princípio feitas para acariciar a “auto-estima” dos docentes. Afinal, que professor não quer ver a sua autoridade «reforçada»?

Acontece que essa declaração, tal como aparece no programa do actual governo, é totalmente vazia. Pois não esclarece como é que essa autoridade vai ser reforçada, nem diz, na verdade, de que autoridade se está a falar.

A famosa «autoridade» do professor pode significar coisas muito diferentes. Pode referir-se à autoridade perante os alunos e, nesse caso, obedece a requisitos e a condições particulares, que tentámos enunciar num “post”  já antigo. Mas também pode remeter para a autoridade social do professor no espaço público ou cívico. Como pode reportar-se à autoridade do professor perante os seus colegas ou pares, à autoridade perante os pais e demais encarregados de educação, à autoridade face ao Ministério, etc., etc.

Acontece, porém, que todas estas várias dimensões da autoridade do professor estão minadas, à partida, no programa de governo. Este vem confirmar e aprofundar mecanismos nas escolas que só contribuem para cercear, desmentir ou achincalhar as condições em que essa autoridade se poderia exercer. Como o Octávio apontou aqui, que autoridade docente, individual ou colectiva, pode sobreviver num cenário em que se pretende reforçar as competências dos directores das escolas? Competências que, sabemo-lo bem, se prestam  já hoje a usos suficientemente discricionários e tendencialmente despóticos. Dois dedos de testa bastam para perceber que não é possível conciliar o «reforço» da «autoridade do professor» com o «reforço» das «competências dos directores».

E isto leva-nos direitinhos a um dos vícios maiores do programa com que Nuno Crato vai governar. Conforme previmos e denunciámos em “posts” anteriores, o PSD e o CDS, agora juntinhos no governo, nunca pretenderam mexer numa vírgula do modelo de administração escolar cozinhado por esse grande partido “de esquerda” que é o PS. Tal modelo serve às mil maravilhas para instalar uma cultura de subserviência e de “respeitinho” entre os professores, subordinados a chefias quase irremovíveis, escolhidas com base em influências que escapam, por completo, ao controlo democrático de que os docentes se viram privados. Essas chefias, que nada devem a professores que, de facto, não as elegeram, vão continuar a representar, acima de tudo, os interesses políticos do Ministério no interior das escolas. E serão as primeiras a aplicar, diligentemente, todas as medidas do programa da “troika” que visem reduções arbitrárias de “custos”, estrangulamentos ainda maiores na carreira docente, cortes no pessoal, etc.

Um modelo de administração escolar exclusivamente assente em direcções unipessoais é o sonho de qualquer estadista apostado em impor a política do austeritarismo dentro do sistema de ensino.

Perante isso, nenhum blá-blá sobre a autoridade do professor consegue persuadir os mais incautos.

Uma resposta to 'O programa do nosso descontentamento – 3'

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  1. Zé Manel said,

    Alguns comentadores de serviço e políticos influentes têm vindo a referir a necessidade de regressarmos a uma política de valores, mas quando chegamos à sua aplicação prática, aí já eles hesitam:- Ah, bom,vamos ver…!Vem isto a propósito da DEMOCRACIA, um valor que julgávamos estabelecido e que sofre cada vez mais cercos e ataques. No ensino, a gestão democrática sempre foi um processo de gerir os equilibrios, de conferir representatividade aos intervenientes e de assegurar a participação dos visados nas decisões que a todos afectam, dirimindo os conflitos e dinamizando as intervenções. O seu esmagamento pelo consulado socratino acentuado pela preente equipa só pode ter uma leitura. As escolas, em vez de centros de dinamização cientifico-pedagógica que já foram, serão cada vez mais uma espécie de quartéis onde os mini-ditadores têm carta branca para prosseguir interesses que nada têm a ver com a comunidade educativa.Todos os estudos demonstram que a época dos gurus da educação já terminou há muito. Hoje, com os tremendos desafios que todos os dias se colocam à escola, a única solução viável parte da constituição de equipas pedagógicas onde seja possível contar com a contribuição de todos os mais capacitados. A figura do ser iluminado resolvendo tudo sozinho é uma falácia total. Deve ser por isso mesmo que o trabalho de equipa tem vindo a ser substituído pelo salve-se quem puder e pelo desenrascanso pessoal com vista à concorrência e à competição pelos raros lugares ao sol cada vez mais efémeros.É óbvio que este estado de coisas só pode desaguar na queda da eficácia da instituição escolar, significando um futuro cada vez mais adiado. Resta perguntar:- Quem tem medo da democracia???


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