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Coisas simples e coisas complicadas

Posted in Educação por APEDE em 04/07/2011

Como já referimos noutros “posts”, a actual equipa do Ministério da Educação pode sentir-se tentada a lançar-se em mais uma mega-reforma do sistema de ensino que envolva uma alteração da estrutural curricular dos diferentes ciclos de ensino e dos seus respectivos programas. Tem sido essa uma das principais pechas das nossas políticas educativas: não há ministro ou ministra que resista à tentação de deixar “obra feita”, sendo esta última quase sempre pautada pela intenção de “mexer” na totalidade do sistema. Os efeitos de tanta “ambição” oscilam entre o péssimo e a impossibilidade de que o bom estabilize o tempo suficiente para dar alguns frutos. Quando os raros rebentos começam timidamente a aparecer, lá vem outro horticultor estrábico que deita abaixo tudo o que o antecessor tinha procurado fazer.

No nosso modesto entender de pessoas que trabalham no terreno e que andam, há décadas, a sofrer as sucessivas reformas ministeriais, pensamos que faz muito mais sentido começar por identificar umas tantas áreas estratégicas, ao nível dos conhecimentos, que uma política de ensino deveria privilegiar. Consideramos, pois, quatro áreas, precisamente aquelas nas quais os nossos alunos revelam mais deficiências quando concluem o seu percurso escolar:

Conhecimento da língua portuguesa: É fundamental que os alunos encerrem a sua escolaridade obrigatória a escrever sem erros ortográficos, sem incorrecções de sintaxe, devidamente habilitados para compreender e interpretar textos de complexidade variável.

Conhecimento matemático: É igualmente essencial que os alunos terminem o seu percurso escolar dominando os instrumentos da álgebra e da geometria, modalidades diversas de raciocínio lógico, a leitura correcta de diferentes tipos de gráficos e de registos estatísticos, etc.

Conhecimento histórico: Os alunos precisam de conhecer (e, já agora, de memorizar) acontecimentos decisivos da história de Portugal e da história mundial, e de compreender que esse conhecimento é crucial para poderem interpretrar criticamente o tempo histórico e social em que vivem.

Conhecimento científico: Independentemente das áreas ou cursos que frequentem, os alunos devem adquirir uma informação científica que possa, de facto, ser incorporada na sua cultura geral. Não faz qualquer sentido que, no fim da escolaridade obrigatória, a maior parte dos alunos não faça ideia de quem foi Darwin e do que ele defendeu, ou não tenha a mais pequena luz do que Einstein quis dizer com a teoria da relatividade.

A identificação destas áreas é feita, obviamente, sem prezuízo de muitos outros conhecimentos que os alunos devem possuir no campo das artes, da filosofia, das línguas estrangeiras, etc. As quatro áreas referem-se, naturalmente, àquilo que é básico, pois, apesar de tudo,  há que assinalar aqueles domínios que fornecem o cimento para tudo o resto. 

Dito isto, importa depois determinar como se pode construir uma trajectória escolar que propicie a aquisição e a consolidação daqueles saberes. Neste ponto, entendemos que uma política educativa inteligente, em lugar de se dispersar por mega-reformas que acabam por ser mais retóricas do que efectivas, deveria concentrar-se, antes de mais, no ensino básico. Pois é aí que tudo começa e é aí que, verdadeiramente, se lançam os fundamentos de toda a escolaridade.

A nossa experiência de professores mostra-nos que, no 10.º ou no 11.º anos, já não é muitas vezes possível inverter, corrigir ou compensar as insuficiências graves no domínio dos saberes básicos com que certos alunos chegam às nossas mãos. Daí que os esforços maiores devam ser investidos nos ciclos do ensino básico e, sobretudo, nos seis primeiros anos de escolaridade.

Acontece, porém, que esse investimento não pode ser só de “boas vontades”. Tem de ser também um investimento financeiro, pois muitas escolas inteiramente mobilizadas para os primeiro ciclos do ensino básico carecem de meios didácticos, materiais e humanos, carências tanto mais gritantes quando encaramos certas escolas situadas nas zonas sociais mais desfavorecidas – escolas que necessitam desesperadamente, não apenas de professores, mas também de psicólogos, de assistentes sociais, de agentes de segurança, etc., etc.

Infelizmente, o programa “troikiano” do actual governo só pode prometer estrangulamento e asfixia nesse sector. Aliás, se olharmos para as propostas do programa em matéria de ensino básico, facilmente verificamos que elas são de uma pobreza confrangedora: meia dúzia de frases feitas e de ideias vagas onde se exigia coragem, imaginação e clareza de intenções.

Também por aqui não nos parece que haja muito a esperar. Como dissemos antes, a introdução de exames no final de cada ciclo de ensino é uma ideia meritória. Mas está muito longe de ser a panaceia que tudo resolverá se, a montante dos exames, não se fizer tudo o que tem de ser feito. E que é muito mais do que simplesmente avaliar conhecimentos.  

Uma resposta to 'Coisas simples e coisas complicadas'

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  1. Zé Manel said,

    Estas propostas que, sendo o mais básico e essecial dos objectivos, encontram a priori entraves decisivos. A primeira tem logo dois impedimentos graves com as mais sérias implicações. Falo do vergonhoso (des)acordo ortográfico cozinhado por uns quantos iluminados e que é uma verdadeira aberração do ponto de vista linguístico, gramatical e até patriótico. Outro escolho de monta tem a ver com a tristemente célebre TELEBS, vulgo “nova terminologia gramatical”, expressão acabada de um novo-riquismo pseudo-intelectual que veio lançar a maior das confusões em domínios onde devia imperar a sensatez, a estabilidade, a objectividade e o rigor. A segunda, mesmo constituindo assunto onde Crato é especialista, esbarra com a desastrosa concepção do ensino da tabuada e das operações elementares onde se despreza a memorização e o treino em favor de divagações lógicas que pouco contribuem para a aquisição da indispensável bagagem que permitiria aos jovens o acesso a níveis mais amplos da realidade. Lembro-me daquele rapaz de uns 17 anos, empregado de bilheteira que à minha frente não conseguia perceber quanto custavam os doze ingressos que um cliente lhe pedia, apenas porque o seu espírito não conseguia fazer mentalmente a mais elementar das contas de multiplicar. É o país-que-temos!


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