APEDE


Ó não! Mais um “post” sobre a avaliação dos professores!

Posted in (Des)avaliação por APEDE em 07/07/2011

Pois é. Nuno Crato diz que não é a coisa mais importante do sistema educativo, que há muitos outros problemas e outros tantos a exigir uma intervenção urgente. E nós, do alto (ou do baixo) da nossa infinita paciência, até nos inclinamos para concordar. Se bem que a conversa do ministro cheire demasiado a condescendência e a desculpa de mau pagador para mais uma promessa do PSD e de Passos Coelho que fica por cumprir.

E no entanto…

… há que regressar a este tema “pouco relevante”.

Recordam-se os nossos leitores de termos falado, num “post” que já ficou lá para baixo, da falta de qualidade de vida que envenena o quotidiano profissional (e existencial) dos professores? Pois o actual modelo de avaliação do desempenho é uma peça maior nesse processo de envenenamento.

Depois de um ano lectivo que foi, a muitos títulos, particularmente esgotante, e antes de irem para umas férias que serão, no meio de tanta crise, demasiado breves e deprimentes, eis que os professores se vêem confrontados com a maior e a mais imbecil das estopadas que poderiam esperar: terem de preencher todas as secções do relatório de auto-avaliação de modo a que batam certinho com os muitos domínios e sub-domínios da treta em que se desdobram os critérios de avaliação cozinhados pelos debilóides do Ministério.

É verdade que esses ditos “sub-domínios” foram congeminados pelas comissões de avaliação ou pelos conselhos pedagógicos, na tentativa vã de encontrar algum substrato para as classificações a atribuir aos professores. E é certo que houve gentinha de mente mirrada e actividade sexual reduzida que se empenhou, com afinco e convicção, na elaboração de grelhas repolhudas. Mas os muitos que se limitam a sofrer todo este processo, os muitos que lutam por manter uma réstia de sanidade mental perante tanto delírio, só podem constatar que o modelo de avaliação dos professores deve ter sido concebido por um sádico enxertado de pedagogês de Boston da Bosta.

Entretanto, é preciso dizer algumas verdades desagradáveis e politicamente “incorrectas”. Como a de que há professores que andam a fretar camionetas para nelas transportarem os porta-folhas e outras “evidências” (calma, isto é só uma metáfora, tá?). Ou professores que se multiplicam em visitas de estudo de pertinência duvidosa, grinaldas escolares e demais actividades inconsequentes só para arranjarem porta-folhas gordos e resplandecentes. E professores que espernearam e choraram baba e ranho (e isto não é uma metáfora!) quando souberam que o parlamento tinha aprovado a suspensão da avaliação, porque assim todo o seu trabalhinho de avaliados e/ou de magníficos relatores ia por água abaixo, tadinhos. E professores que batem com o pé no chão, quais crianças birrentas, apenas porque um colega distraído os filmou de costas durante aquela conferência na escola, estragando-lhes assim a “evidência” onde brilharia o ar concentradíssimo dos mesmos a ouvir o chatérrimo (ou o interessantíssimo) conferencista. E professores que encenam milimetricamente a aula assistida que em nada contará para a progressão de uma carreira congelada, mas que depois atendem os telemóveis nas aulas “normais”, às quais só assistem esses pormenores negligenciáveis chamados “alunos”. E professores que se vão queixar ao senhor director do colega que não os incluiu naquele projecto do qual nunca fizeram parte, pois desse modo é mais uma “evidência” que se perde. E etc., etc., etc.

Pois é. Podemos dizer todo o mal do mundo acerca dos sindicatos. Que se deixaram embalar pelo canto das sereias ministeriais, que jogaram com o destino dos professores, que traíram. E os professores que votaram no PSD, engolindo as promessas de Passos Coelho e convencidos de que a água choca se pode transformar em água benta, podem vir agora clamar contra mais um troca-tintas da política à portuguesa. Nada disso esconde, contudo, uma coisa terrivelmente óbvia:

Este modelo aberrante de avaliação teria caído em dois tempos se, num passado recente,  a maioria dos professores tivesse ousado recusar, dizer não, não preencher, não entregar. 

Tão simples, se feito por muitos. Mas como os muitos não o fizeram nem o fazem, e ninguém quer ser (com razão) herói sacrificado na sua solidão, todos nós, sem excepção, aceitamos participar e sofrer esta farsa indigna e insana.

E continuamos todos, como cordeirinhos, à espera de que o Godot da política nos venha salvar.

Alguém falou de resistência?… 

16 Respostas to 'Ó não! Mais um “post” sobre a avaliação dos professores!'

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  1. teodoro said,

    “Podemos dizer todo o mal do mundo acerca dos sindicatos. Que se deixaram embalar pelo canto das sereias ministeriais, que jogaram com o destino dos professores, que traíram. Mas há também uma coisa terrivelmente óbvia: um modelo de avaliação aberrante teria caído em dois tempos se a maioria dos professores tivesse ousado recusar, dizer não, não preencher, não entregar. ”
    Aquilo que eu chamava “um não até ao fim”. Resolvia-se tudo dispensando cinismo, folclore e chinfrim.

    Ora bem! Assim começamos a encarar a realidade de frente. Mesmo que não nos de grande coisa… Tinha sido tão fácil mas, escondendo-se atrás de críticas aos sindicatos, aos contratados, aos titulares, aos directores, ao ministério, ao gato das botas, à pipi das meias altas, etc… a ‘esmagadora muito mais que maioria’ foi tratando da vida e c-o-l-a-b-o-r-a-n-d-o.

    Heróis há que entretanto subiram de escalão, e lideres da luta que aconselharam: “se quiseres não entregues mas depois não te queixes”, ou: “se nada entregas é porque temes ser avaliado”.
    Entre os indignados de verve há quem tenha entregue umas brincadeiras e funcionou. Há quem tenha anunciado que nada entregava, depois entregou uma brincadeira, ao ser comunicado que a brincadeira não funcionava foi pela sombra entregar tudo nos conformes.
    E a culpa é de um acordo que foi firmado meses depois?
    Não foi por estar satisfeito com a actuação dos sindicatos que deixei de ser sindicalizado em 2008…

  2. Mário Machaqueiro said,

    Teodoro,

    Tudo o que diz aconteceu, de facto. Mas a pergunta a fazer é: a quem, de entre os professores, vamos lançar a primeira pedra? O movimento de recusa (de desobediência) ou é colectivo ou não é. Faz sentido denunciar muito oportunismo e muita sabujice que anda por aí a rastejar nas escolas em torno da avaliação do desempenho. Mas fará sentido atirar pedras a professores que, isoladamente, tentaram apelar à desobediência e que, quando se viram sozinhos, acabaram por constatar, com amargo de boca, que tinham de entrar no redil sob pena de serem uns heróis sacrificados (e certamente aplaudidos por todos os que já haviam capitulado), sem que daí nada resultasse?
    Desculpe que lhe diga, mas apetece perguntar: e o Teodoro, fez o quê?

  3. Leitor said,

    Nova oportunidade:

    PCP entrega na segunda-feira
    Projecto de lei para suspender avaliação de professores
    por LusaHoje

    O PCP vai entregar na próxima segunda-feira na Assembleia da República um projecto de lei que visa a suspensão da avaliação dos professores, anunciou hoje, em Viseu, o deputado comunista Miguel Tiago.

    No final das jornadas de trabalho do Sindicato dos Professores da Região Centro (SPRC), Miguel Tiago, num momento em que os professores escutavam deputados convidados para falar sobre a Educação, e depois de anunciar que a questão da avaliação de professores voltaria ao Parlamento, desafiou os restantes partidos a votar favoravelmente esta iniciativa do PCP.

    Em 25 de Março, todos os partidos da oposição ao governo do PS aprovaram a revogação do sistema de avaliação de desempenho dos professores com os votos favoráveis de PSD, PCP, BE, PEV e CDS-PP e contra da bancada do PS e do deputado social-democrata Pacheco Pereira.

    Depois da votação no Parlamento, o Presidente da República, Cavaco Silva, requereu a apreciação do diploma pelo Tribunal Constitucional (TC).

    “O Presidente da República requereu ao Tribunal Constitucional a fiscalização preventiva da constitucionalidade das normas dos artigos 1.º, 2.º, 3.º e 4.º do Decreto n.º 84/XI da Assembleia da República, que aprovou a “suspensão do actual modelo de avaliação do desempenho de docentes e revogação do Decreto Regulamentar n.º 2/2010, de 23 de Junho”.

    A 29 de Abril, foi conhecida a decisão do TC ao declarar a inconstitucionalidade da revogação da avaliação do desempenho docente, cuja fiscalização preventiva tinha sido pedida pelo Presidente da República.

    Perante esta cronologia dos acontecimentos, o deputado do PCP Miguel Tiago, a falar para uma plateia de cerca de 150 dirigentes sindicais e professores, anunciou que o seu grupo parlamentar vai entregar na segunda-feira um projecto de lei com os mesmos objectivos do tentado em Março.

    E desafiou os partidos que, na ocasião, votaram a favor e agora estão no governo, PSD e CDS-PP, a serem coerentes e apoiarem esta iniciativa do PCP que visa a suspensão imediata do actual modela de avaliação de professores.

    “Vamos ver como se comportam agora, depois de em Março terem votado a suspensão da avaliação de professores”, disse Miguel Tiago.
    http://www.dn.pt/inicio/portugal/interior.aspx?content_id=1902074&page=-1

  4. teodoro said,

    Mário,
    não atiro pedras a ninguém que tenha feito isto ou aquilo, muito menos a quem fez apelos à desobediência, que era, para mim, um imperativo. Só critiquei quem diz uma coisa, fez outra e atira pedras para todo o lado.
    Fui muito criticado precisamente por não entrar no redil. À pergunta que me faz posso responder muito tranquilamente, se insistir, mas não tem importância nenhuma. Só disse NÃO. As consequências assumidas e ‘coladas ao registo biográfico’.


  5. O Teodoro não entregou nada, sei disso desde sempre. Atitude que respeito e saúdo. Um abraço!

    Por mim, estou particularmente à vontade pois fui fiel à proposta dos movimentos e aprovada no Encontro Nacional de Professores em Luta, em Leiria. E não fugi ao compromisso que assumi publicamente. Uma coisa é certa: se o que entreguei (um documento crítico que em nada respeitou o documento oficial) fosse recusado (e soube, mais tarde, que esteve para acontecer) não o substituiria por qualquer outra coisa mais nos “conformes”.

    Caro Leitor,
    Excelente iniciativa do PCP. Oportuna e importante precisamente para se separarem as águas.


  6. Achei esse texto também interessante http://amatemagica.wordpress.com/2011/07/08/avaliacoes/

  7. conceição said,

    Há quem diga que é injusto acabar com a avaliação porque muitos docentes trabalharam muito para as aulas assistidas e para mostrar evidências, eu penso que estas são mais duas razões para colocar um fim no processo, pois, de facto, trabalharam muito para as aulas assistidas, mas para as outras, que são todas menos duas, sabe-se lá como foram. Estamos sempre a tempo para acabar com esta farsa.

    • MS said,

      Conceição,

      100% de acordo!
      Para mim quem se resolve aprontar para se mostrar a um suposto colega, agora designado como relator, é um falso transmissor do saber. Então…só trabalho quando a assistência é diferente. A avaliação tem de ser feita pelos nossos alunos, eles é que são a nossa assistência é para eles que eu tenho que me aperaltar.

  8. conceição said,

    Óptimo texto.

  9. Lelé Batita said,

    Excelente reflexão, como é habitual nestas páginas.
    Quanto ao PCP, a intervenção é estratégica e oportuna para encostar o PSD à parede. Como irá comportar-se?
    Ai, ai, a coerência, por onde andará nestes dias conturbados?

  10. Nuno said,

    Nuno,

    Estou no primeiro ano oficial de docência, primeiro acto de avaliação, com aulas assistidas, cotas e demais procedimentos…
    Apesar da minha opinião pessoal acerca do assunto, limitei-me a fazer o meu trabalho o melhor que sei, com ou sem relator na aula, com mais ou menos actividades, ajudando todos aqueles que parecem interessados em fazer o mesmo (com alguns ingénuos enganos neste juízo) e agora todo esse esforço será posto a julgamento através de documentos, provas e documentos conforme a lei requer.

    Com sincero interesse pergunto: que juízo fazem de mim?

    Obrigado e abraço.

  11. José António said,

    Sou só mais um a rever-me por inteiro neste retrato fidedigno da realidade. Bem haja quem assim, com palavras, descreva o que se passa.
    Aos pervertidos e incoerentes que continuam a alimentar esta bosta kafkiana, já não basta um tratamento psiquiátrico profundo; porventura nem o internamento compulsivo.
    Na curva das próximas eleições ajustaremos a terapia adequada. Somos pacientes e não sofremos de Alzheimer.

  12. José António said,

    Perdão, descreve e não descreva.


  13. Nuno,

    Aos recém-chegados à profissão só posso elogiar a coragem e desejar a melhor sorte. Esta profissão não está para novos. Nem para velhos. Só para doidos apaixonados. E quanto ao teres pedido aulas assistidas, não posso criticar, é normal que te tentes defender face à miséria da proliferação de asteriscos nas listas graduadas. Infelizmente, houve quem tivesse negociado muito mal essa situação lá pelos idos de Janeiro de 2010. Agora temos de lutar para que a palhaçada termine de vez.

    Abraço

    Ricardo

    • Nuno said,

      Obrigado pela resposta.
      É uma grande ajuda!

      Abraço e até logo!
      Nuno


      • Nuno,

        Não sei se foi uma grande ajuda, pois a verdade é que estou bastante pessimista sobre a situação futura dos contratados. Mas com a paixão que sinto que tens pelo ensino, há-de valer a pena insistires e persistires. Em frente!

        Abraço e até logo🙂


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