APEDE


Os senhores directores

Posted in De olhos bem abertos por APEDE em 09/07/2011

Há um aspecto relacionado com a aplicação, neste final de ano lectivo, do modelo de avaliação dos professores que não está a ser devidamente sublinhado nos comentários que circulam na blogosfera docente. E não se trata de um aspecto menor. Bem pelo contrário.

Referimo-nos à forma como a aplicação da ADD tem servido para evidenciar ainda mais a prepotência bacoca de muitos “senhores directores” das escolas deste país.

Os casos mais aberrantes e agoniativos de fichas e registos e grelhas e porta-folhas (que o Paulo exemplificou aqui, aqui, aqui e aqui) não teriam qualquer existência se não fossem, muitas vezes, congeminados e impostos pelo autoritarismo insano de certos directores.

Sabemos que há directores que, neste momento, estão a forçar os docentes das suas escolas à entrega do relatório de auto-avaliação em prazos apertadíssimos, que em nada decorrem necessariamente da lei. E sabemos também de directores que impõem aos professores a entrega do relatório, não em papel, mas através de determinadas plataformas informáticas.

Quando estes “senhores directores” são questionados pelos professores sobre o fundamento ou a pertinência deste género de decisões, eis que respondem invariavelmente:

«Quero que seja assim porque eu é que mando.»

Ou:

«Decidi assim porque é assim que eu entendo.»

Ou ainda:

«Tenho poder para tomar esta decisão, e tomo-a sem mais discussões.»

Estas respostas, que começam a ser a norma em muitas escolas, põem a nu o que de mais preocupante se passa hoje no sistema de ensino em Portugal.

Paulatinamente – e sem que isso, infelizmente, nos surpreenda -, tem-se vindo a instalar nos nossos estabelecimentos de ensino um clima salazarento ou fascistóide como não havia memória desde o tempo dos “senhores reitores” de antes do 25 de Abril.

É verdade que aqui, como em tudo, devemos evitar generalizações abusivas. Como é óbvio, não podemos afirmar que todos os directores escolares seguem o padrão de autoritarismo e de arbitrariedade que acabámos de referir. Directores haverá que sabem usar a sua autoridade com inteligência e com parcimónia, e que procuram até preservar espaços de negociação e de democraticidade no interior das suas escolas.

Ignoramos se estes são a maioria ou a minoria. Mas de uma coisa temos a certeza:

Resguardados como estão por um iníquio decreto de administração escolar, há hoje directores que se aproveitam da total ausência de controlo democrático sobre os seus actos para infernizarem a vida dos professores das suas escolas com todo o género de imposições discricionárias – motivados apenas pelo gozo mesquinho, próprio de gente intelectualmente mirrada, em fazer sentir aos outros o peso de uma autoridade que, na verdade, não conquistaram genuinamente e que, por isso, nem sequer merecem.

Alguns destes directores tinham já em si o germe do autoritarismo, e já o tinham insinuado na sua carreira de presidentes dos conselhos executivos – da qual emergiu boa parte deles. Outros, em contrapartida, depois de uma vida profissional de convívio saudável com os colegas, ficaram de tal modo embriagados com o novo cargo em que se viram investidos, a “orgia do poder” proporcionou-lhes tão grandes orgasmos, que mudaram radicalmente de atitude e de comportamento, passando à condição de neo-tiranetes.

Diga-se que muitos destes directores se têm mostrado péssimos na gestão propriamente dita. Boa parte das decisões que tomam são frequentemente desastradas, introduzem desordem ou desorientação na vida das escolas, prejudicam a fluidez e a descomplicação que deveriam existir no quotidiano profissional dos professores, manifestam, por vezes, uma absoluta incapacidade para distribuir tarefas, para levar a cabo um projecto global de escola e para promover um bom ambiente de trabalho. Tentam então compensar todas estas insuficiências culpabilizando o corpo docente, distribuindo benesses na base do amiguismo ou do prémio ao sabujo (e há sempre quem se preste a este último papel), ao mesmo tempo que perseguem e penalizam os professores competentes que ousam enfrentá-los. Etc., etc., etc.

No momento presente, um dos maiores problemas – atrevemo-nos a dizer: o maior de todos – no sistema de ensino em Portugal é este modelo de administração escolar que tem feito proliferar directores escolares com tanto de medíocres como de ditadorzinhos incontrolados e vingativos.

Por diversas vezes alertámos, na APEDE, para este mais que provável resultado de um sistema antidemocrático de gestão das escolas. Hoje ele está bem à vista. E, na fase actual da avaliação do desempenho, faz-se sentir de modo particularmente agudo.

Se, num futuro próximo, a luta e a resistência regressarem às escolas, o combate contra o actual modelo de administração escolar terá de estar no centro da acção dos professores.

Porque, na verdade, muito (quase tudo) se irá decidir em torno desse abcesso.

Quando verificamos ser intenção programática do actual governo reforçar as competências dos directores, e quando vemos a massa de que muitos desses directores são feitos, temos todas as razões para temer o pior e para estarmos o mais alerta possível.

Se essas competência “reforçadas” vierem a incluir a possibilidade de o “senhor director” decidir quem progride e quem não progride na carreira, quem fica e quem não fica a trabalhar na escola, quem permanece no ensino e quem é despedido, os professores terão todos os motivos para dizer «não» e para dizer «basta».

4 Respostas to 'Os senhores directores'

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  1. Zé Manel said,

    Apenas um exemplozinho do ponto a que chegamos.
    Há dias uma colega que andou a distribuir uns comunicados contra a política educativa foi informada que…….o seu contrato NÂO foi renovado. Toma lá para aprenderes a não fazer política que isso é muito subversivo…..!!!!!!


  2. Zé Manel,

    Esses casos devem ser denunciados, apurando exactamente as circunstâncias. Não duvido que existam retaliações desse tipo sobre os contratados que se atrevam a colocar areia na engrenagem. E é reconfortante saber que, apesar disso, ainda há contratados que resistem!

  3. Zé Manel said,

    Acabamos de receber um comunicado do MEP, Movimento em defesa da escola pública “Por uma escola exigente”,onde se pretende criticar o programa do governo para a educação. Claro que as objecções são correctas, porque muito óbvias, mas não podemos deixar de estranhar o silêncio sobre a gestão. Quando os directores que já podem quase tudo vão ver o seu poder reforçado, imaginamos o que de tenebroso virá por aí, e passar ao lado desta questão como se nem existisse, parece-nos bastante significativo. De igual modo, o silêncio destes colegas sobre a problemática dos concursos, horários, precaridade, tarefas burocráticas, etc, revela tb alguma coisa. Para quem se diz defensor da escola pública, estamos conversados…..

  4. Zé Manel said,

    Posteriormente O MEP respondeu-me, afirmando que os seus silêncios nas matérias que referi são apenas lapsos, fruto de alguma inabilidade. Se assim é, e se esse movimento continua a defender a gestão democrática, então tenho o maior gosto em retirar a críticas que fiz. Se fui eu que me enganei, ainda bem que estava enganado!!!!!


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