APEDE


O lugar da resistência

Posted in Resistências por APEDE em 15/07/2011

Quando falamos de resistência ao ataque contra os nossos direitos de trabalhadores, de profissionais do ensino, de docentes, não estamos a falar em abstracto. Pois sentimos e sabemos que a resistência tem de ser feita no espaço mais imediato onde esses direitos são espezinhados: o local de trabalho. No nosso caso, a escola.

Ora, importa perceber o que o programa do governo tenciona fazer desse lugar em que nos situamos, quotidianamente, como professores. Importa compreender o que vai acontecer – o que já está a acontecer – ao nosso local de trabalho.

Mesmo temporiariamente suspenso, o processo nacional de fusão de escolas em mega-agrupamentos irá prosseguir.

Irá prosseguir contra a estabilidade do nosso emprego, a favor de maior precarização e da exclusão, como “recursos humanos” descartáveis, de todos aqueles que a agregação das escolas tornar “dispensáveis”.

Irá prosseguir contra o desenvolvimento equilibrado das diferentes regiões do país, a favor da desertificação ainda maior de um interior já esvaziado e empobrecido.

Irá prosseguir contra uma administração colegial e sensata dos problemas e dos desafios diários das escolas, a favor do reforço dos poderes despóticos de directores confrontados com  o impossível e o irracional: gerir espaços educativos sobredimensionados, incorporando vários estabelecimentos de ensino sob uma mesma chefia.

Mas a criação alastrada dos mega-agrupamentos irá, sobretudo, traduzir-se em pior Escola Pública. Uma Escola feita de escolas cada vez mais semelhantes a gigantescas “unidades de produção”, onde crianças e jovens de faixas etárias demasiado díspares se acotovelam em espaços massificados, com turmas de tal forma grandes que, nelas, qualquer veleidade de acompanhamento individualizado dos alunos não passará de miragem. Uma Escola onde professores proletarizados enfrentarão sobrecargas de trabalho, com toda a sorte de incumbências adicionais engordando a componente “não lectiva”. Uma Escola onde professores stressados e deprimidos tenderão a perder, cada vez mais, o gosto de ensinar no meio de fichas e grelhas e testes para avaliar e trabalhos de casa para corrigir, em quantidades multiplicadas por turmas de dimensão insustentável.

Esse vai ser o contexto, bem rente ao dia-a-dia de quem vai ser obrigado a habitar o inabitável.

É aqui, sem rede e sem apoio, que os professores terão de responder aos abusos do Ministério e dos directores e à violentação da sua dignidade profissional. Uma violentação imposta por condições de trabalho insuportáveis. Que já o são hoje e que só podem piorar amanhã.

Exageramos? Tentem então, se não forem professores, acompanhar a semana de trabalho de alguém que dê o litro numa escola. Façam-no hoje e façam-no amanhã.

Verão a genica de que muitos professores são feitos, apesar de tanto e de tudo.

Verão como a sua dedicação, no entanto, se está a escoar na areia da mediocridade do sistema.

Verão como, apesar de tanto e de tudo, ainda são eles que sustentam a casa da Escola Pública, contra tanto e contra tudo.

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