APEDE


Descalabro e tiro ao lado

Posted in De olhos bem abertos por APEDE em 16/07/2011

Os resultados nos exames do 12.º ano a Português e a Matemática só surpreendem os que acreditaram no demagógico milagre da multiplicação das notas durante o consulado de Maria de Lurdes Rodrigues. Seja como for, tais resultados confirmam também um aspecto que o actual ministro da Educação e Ciência denunciou antes de assumir a sua pasta: o facto de os critérios, estrutura e grau de exigência das provas de exame mudarem consoante os anos e os interesses políticos de quem domina os gabinetes ministeriais, impedindo qualquer comparação com um mínimo de rigor.

Os exames deste ano são, de facto, mais fidedignos dos que os do ano passado? A verdade é que os professores que leccionam no ensino secundário, mas também os que trabalham no ensino superior, há muito que constatam o péssimo desempenho dos alunos no domínio da língua portuguesa e da interpretação de textos. Por outro lado, a estranha prática de permitir que estudantes acedam a certos cursos de ciências com más classificações a Matemática mostra que, por esse lado, os progressos têm sido quase nulos.

Mas aqui tropeçamos numa realidade deveras embaraçosa. Tantos “planos nacionais de leitura”, tantos “planos de acção”, não menos nacional, de matemática, mobilizando tantos professores e – note-se – tantas horas adicionais, deram, afinal, nisto?

Há qualquer coisa de profundamente errado nesta fotografia. Algo que devia fazer reflectir todos os envolvidos, que não são apenas, sublinhe-se, os responsáveis do Ministério que inventaram esses “planos”, esses “programas” ou essas “acções”. Os professores que, sem sombra de dúvida, se empenharam e deram o seu melhor, com os alunos, na execução dos planos, e que ano após ano verificam que a colheita dá origem, invariavelmente, a uma beberagem escassa e azeda, precisam também de reflectir profundamente sobre o que anda a correr mal. As escolas – isto é: os professores – costumam reagir demasiado pavlovianamente às directivas e às ideias (muitas vezes de jerico) emanadas do Ministério, precipitando-se para a sua aplicação sem grande distanciamento crítico. Seria bom que, de vez em quando, parassem para pensar. Talvez concluíssem que tanto plano pode servir para ornamentar um porta-folhas e engordar uma auto-avaliação, sem que, todavia, daí resulte o mais pequeno acréscimo na melhoria das aprendizagens.

Isto conduz-nos, direitinhos, à questão do tiro ao lado que agora se seguiu à revelação do descalabro.

Nuno Crato veio anunciar o reforço da carga horária nas disciplinas Português e da Matemática ao nível do ensino básico. Quando a floresta está a arder, atira-se-lhe água. Quando as notas descem a pique nestas disciplinas, atiram-se-lhes horas. Mas, neste caso, há boas razões para acreditar que, se a água apaga o fogo, mais horas não vão apagar os problemas de que padece o ensino nessas duas disciplinas.

Tal como mais horas de trabalho não significam maior produtividade, também mais horas de ensino não significam melhores resultados dos alunos. Os portugueses são dos que, em média, mais horas trabalham em toda a OCDE: 8, 7 horas diárias. E nem por isso os índices da nossa produtividade são coisa que se recomende. Porque os portugueses trabalham mal? Sim, mas não por sua culpa, como se constata quando estão integrados noutras lógicas organizacionais do mundo empresarial de outros países. Aí a sua capacidade de produzir riqueza aumenta exponencialmente. Logo, o problema não reside no número de horas de trabalho, mas na capacidade de organização das empresas (que, em Portugal, é quase sempre abaixo de cão, pese embora a “genialidade” super-remunerada dos nossos gestores).

Não sendo nós cultores de paralelismos entre escolas e empresas, não podemos deixar de frisar o óbvio desta comparação: da mesma forma que um trabalhador não precisa de muitas horas de trabalho para ser produtivo, os alunos não precisam de mais horas a Português e a Matemática para evoluírem nessas disciplinas. Precisam, isso sim, é de melhor organização do ensino, de menos experimentalismos espúrios, de menos “planos nacionais” para pacóvio aplaudir, de maior rigor na transmissão dos saberes e, sobretudo, de um investimento muito mais intenso nas aprendizagens ao nível dos primeiros ciclos do ensino básico, os tais onde as bases têm de ser edificadas. 

É estranho que Nuno Crato pareça não perceber isto.

7 Respostas to 'Descalabro e tiro ao lado'

Subscribe to comments with RSS


  1. Cá está o cerne do problema.

  2. penico_qualificado said,

    A minha proposta para o 3.º ciclo = 35 tempos lectivos semanais de 45´

    Lingua Portuguesa = 15 tempos semanais
    Matemática = 15 tempos semanais
    5 tempos semanais a distribuir pelas disciplinas de Língua Portuguesa ou de Matemática ou a ser utilizada para actividades de acompanhamento e estudo,

  3. Zé Manel said,

    Claro que tens razão em muitos pontos, mas creio que a questão dos tempos lectivos precisa de mais feflexão. Lembro-me que quando andava no liceu, tinha aulas de português TODOS os dias e aulas de língua estrangeira 4 dias por semana. Concerteza que o domínio e prática linguísticas de quem se formou nessas condições, sem computadores nem quadros interactivos, mesmo cingidos à especificidade do livro único, só pode ser infinitamente mais alargada se comparada com os jovens de hoje que têm duas aulas de português por semana e uma ou uma e meia aulas de língua estrangeira. Logo, independentemente das questões organizacionais que tb têm o seu peso, a pura quantidade horária é em si um problema grave a que o novo ministro deu um pequeno alento, em todo o caso manifestamente insuficiente para inverter a tendência de décadas no desinvestimento nas capacidades básicas e fundamentais dos alunos, porque estruturantes de todas as aprendizagens subsequentes. De modo que estou convencido que mais horas a português e matemática precisam-se SIM, mais organização SIM, mais investimento nas competências básicas SIM. menos experimentalismos bacocos SIM, mais estabilidade educativa no sistema SIM, menos folclore e menos actividades de faz de conta SIM.

  4. Mário Machaqueiro said,

    Zé,

    O problema maior da carga horária das disciplinas assenta, julgo eu, no facto de essa carga ser distribuída sem ter, por detrás, qualquer pensamento minimamente coerente e articulado sobre o que se deva ensinar e como. Essa distribuição tem sido feita numa base puramente casuística, para responder, em cima do joelho, às circunstâncias do momento. E esta recente decisão de aumentar as horas a Português e a Matemática segue exactamente esse padrão.
    Para se ter uma ideia dos disparates que impregnam a distribuição de horas lectivas, basta pensar que, no 3.º ciclo do ensino básico, os alunos têm escassas horas semanais na língua estrangeira, ao passo que, no 12.º ano, em que a língua estrangeira é uma disciplina de opção (note-se!) para alunos já bem rodados no seu conhecimento, estes têm uma batelada de horas por semana, tantas que, às vezes, os professores já não sabem como preencher as aulas. Portanto, tu até podes ter razão, mas eu diria que está tudo por pensar em matéria de distribuição de horas por disciplina.

  5. albinomau said,

    Só no futebol é que quando os jogadores jogam mal e não têm resultados, os treinadores são despedidos… na educação a culpa é sempre dos alunos , os professores não tem responsabilidade nenhuma, essa interpretação é um atentado à inteligência de qualquer pessoa minimamente inteligente, mas como brevemente Crato vai também considerar os resultados dos alunos na avaliação dos professores, depois veremos o que dirão estas associações de classe…

  6. Mário Machaqueiro said,

    albinomau e analfabeto, nicks reveladores…
    O paralelismo com o futebol é infeliz, ou talvez não, porque, como qualquer aficionado dessa modalidade sabe, muitas vezes os jogadores jogam mal… para que os treinadores sejam despedidos. E por isso há equipas que mudam sucessivamente de treinador, e os resultados continuam maus. Porque os jogadores continuam a jogar mal. E, frequentemente, as equipas só começam a jogar bem quando mudam… de jogadores. Um treinador, por muito excelente que seja, nada consegue com maus jogadores. É por isso que Mourinhos & Co. não fazem avaria nenhuma: têm sempre óptimos jogadores na equipa e, em regra, trabalham para quem dispõe de dinheiro que compra todos os jogadores que eles querem.
    Em contrapartida, os professores, por muito bons que sejam, não podem substituir os alunos. E se estes não estiverem dispostos a trabalhar e a dar o melhor de si… bom, o professor tem de continuar a gramá-los até ao final do ano. É por isso que avaliar um professor com base nos resultados dos seus alunos pode ser de uma tremenda injustiça.
    Significa tudo isto que o professor é alheio a esses resultados (ou que o trienador é alheio aos resultados da sua equipa)? Claro que não. Não é isso mesmo que este “post” sugere quando afirma que os professores precisam de fazer uma reflexão séria sobre os resultados dos alunos em disciplinas como Português e Matemática?
    Acontece, portanto, que as coisas não são a preto e branco. Uma evidência que muita gente não consegue meter na cabecinha.

  7. Meio Vazio said,

    Mais horas? Para quê?
    Para continuar com a pomposa “matemática” descurando a elementar aritmética? Para insistir na literatura de supermercado e de TV esquecedo os clássicos (onde meteram o mestre Camilo Castelo Branco?)? Para desprezar a análise sintáctica e descurar o rigor semântico?
    Não vale a pena; poupem as crianças…


Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s


%d bloggers like this: