APEDE


Reorganização curricular: a verdade “escondida” e as oportunidades perdidas

Posted in Educação,Opinião,Reorganização curricular por APEDE em 20/07/2011

Sobre a recente reorganização curricular, já apelidada de simples ”haircut” curricular e que, para alguns, não passa de uma hecatombe mitigada, e menos preocupante, em comparação com a que foi proposta pelo governo anterior, é preciso afirmar, com clareza, sem tibiezas e sem receio do contraditório (que se agradece), o seguinte :

Com excepção do par pedagógico em EVT, que para já se mantém (assim como os desdobramentos nas Ciências, só para dar um exemplo do que ainda poderá piorar), a actual reorganização curricular é mais gravosa, em termos de condições de trabalho para a generalidade dos professores, do que a prevista no consulado de Isabel Alçada. Pior para quase todos os grupos disciplinares, com excepção da Língua Portuguesa e Matemática (que ganham em toda a linha). E pior porque os meios blocos, a gerir pela escola, estão a ser atribuídos, em inúmeros agrupamentos, às disciplinas de Língua Portuguesa e Matemática, reforçando ainda mais a sua carga horária, ou acabam afectados a algo aparentado com o Estudo Acompanhado, mas que só pode ser leccionado pelos professores de Língua Portuguesa e Matemática, ao contrário do que acontecia no passado. Neste sentido, a tal hecatombe, que alguns negam (talvez porque a não sintam na pele), vai mesmo ser real e gravíssima. E não serão apenas os contratados a ser afectados. Há mesmo grupos onde não há horas suficientes para completar horários dos professores do quadro. O triplo “assalto” (que será quádruplo quando regressarem em força os mega-agrupamentos), por via da retirada do meio bloco a gerir pela escola, e da extinção do Estudo Acompanhado e da Área de Projecto (cuja extinção sempre defendemos, mas não com a afectação das horas a apenas duas disciplinas), vai ser absolutamente dramático para muitos milhares de professores, na maioria dos grupos disciplinares.

E a pergunta, fundamental, que importa fazer é esta: representará isso um acréscimo de qualidade no ensino? Professores com 8, 9 e 10 turmas, talvez mesmo 11, em vários grupos disciplinares, conseguirão ensinar com a mesma disponibilidade de tempo para preparem aulas e materiais, avaliarem de forma diversa e continuada e apoiarem todos os alunos com necessidades específicas, colaborando, como sempre, na dinamização de actividades e projectos diversos nas escolas?

Lançar simplesmente mais horas para cima das disciplinas chamadas estruturantes irá resolver o problema? Que avaliação se fez, antes desta decisão, sobre os resultados obtidos com o “PAM” e o “PNL”, só para citar dois exemplos? O que se fará quando, e se,  se vier a perceber, pela extensão dos exames a outros anos de escolaridade e disciplinas, que a questão do insucesso não é um problema exclusivo da Língua Portuguesa e da Matemática? Continuarão a dar-se os “ovos” (embora os “ovos” não bastem) apenas às disciplinas “estruturantes”? E a formação em Ciências, não é importante? E a História? E o Inglês? E…? E… haverá “ovos” que cheguem?

Não haverá mais nada a fazer para melhorar a situação que atravessamos? Por exemplo, uma intervenção séria no 1º ciclo (que não sofreu qualquer reorganização); por exemplo, a revisão dos programas; por exemplo, uma clara e correcta articulação curricular (quer vertical, quer horizontal); por exemplo, uma maior clareza e constância nos critérios de correcção dos exames, e no seu grau de dificuldade; por exemplo, um peso maior dos exames em termos de classificação final; por exemplo, uma redução do número de alunos por turma; por exemplo, uma diferente gestão dos apoios educativos, mais flexível e directa, assegurados pelo professor da disciplina, com horas da sua componente não lectiva; por exemplo, a contratação de mais técnicos especializados que pudessem intervir ao nível dos problemas de aprendizagem (dislexias, disortografias, etc.), défices de atenção e outras problemáticas ao nível das necessidades educativas especiais; por exemplo, condições de flexibilidade de horário para que os pais possam deslocar-se à escola, pelo menos uma vez por mês, para acompanharem mais de perto a vida escolar dos seus educandos; por exemplo, menos papelada e burocracia, menos tralhas avaliativas, e mais horas de componente individual, libertando os professores para o acto de ensinar, dando-lhes tempo para pensarem e prepararem melhor, com outras condições, o acto educativo e o apoio aos alunos com maiores dificuldades? Que lhe parecem estes exemplos, caríssimo senhor ministro da Educação? Já agora, caríssimo senhor ministro da Educação, não lhe parece que seria importante ouvir os professores que estão no terreno, sobre estas e outras questões, em vez de continuar fechado no seu gabinete a ouvir somente ”especialistas” e “representantes”? Não lhe parece que seria enriquecedor ouvir, directamente, e em contexto real, aqueles que verdadeiramente tutela?

Uma outra questão para si, caríssimo senhor ministro da Educação: como pretende avaliar professores que trabalharão, por via desta reorganização curricular (mas não só),  com 2, 3 , ou 4 turmas (embora com maior componente não lectiva) e outros que leccionarão 8, 9 e 10 turmas, talvez mesmo 11? Do mesmo modo e com os mesmos critérios? Tenha cuidado com os “especialistas”. Aposto que nem se lembram destes “pequenos e irrevelantes” detalhes… Na verdade, caríssimo senhor ministro da Educação, é muito fácil dizer que os professores devem ter liberdade para escolher metodologias e processos de ensino, que o ME não deve querer ser dono da Educação, ditando as orientações pedagógicas. Estamos de acordo. Mas muito mais complicado tem sido perceber, por parte da tutela, que nem todos os professores partem com as mesmas condições, que nem todos os alunos são iguais, que nem todas as turmas têm o mesmo número de alunos, ritmos de trabalho e dinâmicas inter-relacionais, que nem todas as escolas têm as mesmas estruturas de apoio ou condições organizacionais, que nem todos os meios escolares e comunidades educativas têm as mesmas características, etc. etc. etc. E isso, caríssimo senhor ministro da Educação, nunca perceberá, de forma real e vivida, com os seus “especialistas”. Certamente não estiveram nas escolas básicas, a leccionar, nos últimos anos.

Finalmente, um desabafo, uma subida preocupação e uma última pergunta, caríssimo senhor Ministro da Educação: o que pensa acerca da importância da disciplina de História, no contexto curricular? Considera que ela deve ser, ou não, uma disciplina estruturante no currículo? Seja sincero. E depois explique-nos, por favor, se puder, porque razão tem sido tão maltratada e desvalorizada. Podemos explicar-lhe, e demonstrar-lhe facilmente, com números (já que os números são mais a sua área), a forma absolutamente lamentável como a História (e não só) tem sido desprezada, nos últimos anos, pela tutela. É preciso saber se está disposto a juntar o seu nome aos dos políticos que pretendem silenciar a História e, por arrasto, o pensamento crítico. Que sociedade queremos, afinal, construir?

32 Respostas to 'Reorganização curricular: a verdade “escondida” e as oportunidades perdidas'

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  1. roma maria said,

    Sou professora do 1º ciclo e foi uma desilusão ao verificar que continua tudo na mesma. É urgente uma revisão séria neste ciclo que, ao que parece,continua a ser o parente pobre do ensino.

    • Mário Machaqueiro said,

      Quando, na verdade, esse é o ciclo estruturante de todos os outros. Também pensamos que seria fundamental um investimento sério e maciço no 1.º ciclo, quer ao nível da formação de professores – que continua, convenhamos, a revelar grandes falhas -, quer ao nível das condições de trabalho e dos meios disponíveis, quer, finalmente, ao nível dos conteúdos a aprender e dos métodos de ensino.


  2. Discordo que esta reforma seja pior do que a da Isabel Alçada.
    O desânimo por não se ver que se desejava em ministro, não pode toldar tudo…

    O EA era para desaparecer no 2º ciclo, assim como a AP, sem garantia de recuperação das horas lecitivas.

    Isso não aconteceu.

    Há injustiça na redistribuição das horas? Pois…


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  4. Nuno Trato said,

    O Ensino orientado de informática faz falta na escola pública e tal deveria existir, como já existiu, como disciplina autónoma!

    Após sucessivas alterações, mentiras e remodelações, acaba de ser praticamente extinta.

    Na anterior remodelação vou dito que acabava TIC-10º Ano para passar para todo o básico de forma gradual, o que já de si era errado e disparatado.

    O que aconteceu está agora à vista, desapareceu no secundário e agora, praticamente, no básico, ficando apenas um aula por semana no 9º ano, com 28 alunos ao molho!

    De seguida vão dizer que assim não dá e acaba de vez.

    Ou seja a escola pública fica sem ensino orientado de informática, ou seja como tal é necessário e indispensável para uma boa formação, tal como o InglÊs, a MAtemática, etc., acaba de se privatizar esta disciplina, pois o que irá acontecer é que a oferta irá surgir no privado, apenas e só para quem a possa pagar!

    O rídiculo de tudo isto é que se gastaram 400 milhões de euros, repito 400 milhões de euros, uma verba astronómica em infra-estruturas mal amanhadas e equipamentos desnecessários ,agora retira-se da escola o ensino orientado de informática, ou seja comprou-se um ferrari, melhor dizendo pagou-se o preço de um, ferrari, veio um renault cinco todo desiquilibrado e dispensa-se o condutor, mas ainda assim afirma-se que se vai ganhar a corrida!

    Há que repensar tudo, alterar tudo, mudar tudo, poupando onde se deve poupar mas fazendo o que deve ser feito!

    Há que aguradar pela reforma do próximo ano a ver se há reforma a sério.

    Tudo deveria ser contabilizado em horas, para tudo ser mais simples, horários de turmas de professores, de alunos, etc., etc.

    Acabar com componente não lectivas, e tudo ser contabilizado dentro do horário do professor que seria de por exemplo 20 horas (20 aulas de 50 minutos). A redução do 79 seria repeitada mas essas horas poderiam ser ocupadas com outras funções que não aulas, a não ser em situações excepcionais e de acordo com o professor.


  5. Paulo,

    Discordo da tua opinião. Com esta reorganização o 3º ciclo (excepção feita a LP e Matemática) é severamente prejudicado e o 2º ciclo, levará por tabela, pelo efeito “cascata” que rapidamente os contratados irão perceber. Para os professores do quadro do 2º ciclo, não será tão notório e será mesmo um regalo para quem dá HGP e Português, ou Matemática. Para muitos professores, se acumularem as disciplinas de HGP e Português, por exemplo, 3 turmas chegam para completarem horário e se tiverem apenas 16h, bastarão até 2 turmas, sem direcção de turma.

    Não sabemos também se as horas de EA e AP no 2º ciclo, seriam ou não realocadas a outras disciplinas. Não vou especular, mas podemos admitir, em tese, que até seriam, pois o reforço a LP e Mat. já estava no ar. O que sabemos, isso sim, é que o par pedagógico em EVT estava condenado. Se quanto ao 2º ciclo a tua opinião pode até ser válida, sobre o 3º ciclo, não dizes nada. Compreendo porquê. Não consegues contestar uma vírgula sequer do que escrevemos no post.

    Seja como for, o que mais importa destacar é a falácia de se pensar que mais horas para as disciplinas “estruturantes” resolvem todos os males (ou quase). Importa ainda sublinhar que mais uma vez não exercemos apenas a crítica, apontamos outras soluções que poderiam ter sido tomadas e não foram, daí podermos falar em oportunidades perdidas. Fica a esperança que algumas dessas soluções possam vir a ser tentadas e concretizadas no futuro.

    Finalmente, Paulo, deixa-me dizer-te com frontalidade e franqueza que, pessoalmente, não tenho nada “toldado”. Estás a ver mal e a tirar conclusões sem fundamento. Até porque, por princípio, não tenho nada contra Nuno Crato e em muitos pontos concordo com as posições que foi defendendo, ao longo dos tempos. Na APEDE, fomos até criticados pela confiança dada ao novo ministro. Quanto a Santana Castilho, ele sabe bem o que lhe disse, pessoalmente, a propósito desse assunto.

    Abraço

  6. Liliana Vasconcelos said,

    Sou professora de Educação Musical e sou uma das que vai passar a ficar com 10 ou 11 turmas, SE AS HOUVER. Somos duas colegas de Grupo e não sei como nos vão completar os horários.


  7. […] Reorganização curricular: a verdade “escondida” e as oportunidades perdidas […]


  8. Cara Liliana,

    Dás aqui um testemunho concreto daquilo que afirmamos no post. Sabemos que há muitos, mas mesmo muitos, colegas nessa situação. Lamentável.

    Enfim… se isto é “respeitar” e “dignificar” os professores, vou ali e já volto.

    Abraço e os meus votos de boa sorte. Força!

  9. arlindovsky said,

    “O que sabemos, isso sim, é que o par pedagógico em EVT estava condenado”
    Felizmente não tinha essa perspectiva.😆


  10. Arlindo,

    Estava condenado na perspectiva do ME🙂 Acho que me percebeste.

    Mas não me faças falar muito da APEVT, ok? Tenho elogios a fazer, parabéns e felicitações a dar, mas tb alguns reparos.

    Abraço

  11. M. Moreira said,

    Que discurso tão demagógico, que até caem no erro de comparar com a anterior revisão curricular, dizendo que esta é pior, quando na anterior havia uma diminuição drástica das horas para todos…

    Mas, como o bem dos outros é o meu mal, lá vamos nós…

    Comparem as horas de LP e Mat. dos currículos de outros países com o nosso…


  12. Caro(a) M. Moreira,

    Uma diminuição drástica das horas para todos? A sério? Diferente desta e menos gravosa? Mesmo? Demonstre lá isso, por favor. Para quem se queixa de demagogia alheia, não está mal.

    A questão nem é tanto saber se são muitas ou poucas horas para Língua Portuguesa e Matemática, a questão é saber se essa medida será eficaz por si só e se não se estará a prejudicar outras disciplinas sem que isso traga proveitos reais e uma maior eficácia na resolução dos problemas da LP e da Matemática. Isso é que é importante debater, ainda para mais, quando não se avaliou o caminho percorrido e as medidas tomadas para trás.

    Demagogia é não perceber isto e disparar as frases feitas, como esta: “o bem dos outros é o meu mal”. Enfim…

    O que gostava era que rebatesse, ponto por ponto, aquilo que está escrito no post. Isso sim, seria interessante, produtivo e construtivo.

    Seria também muito interessante saber, já agora, em que nível de ensino lecciona, se é que é professor(a), e em que disciplina.

    O que está escrito no post vem do terreno, tem fundamento e baseia-se em factos. Mas está, naturalmente, aberto ao contraditório e ao confronto de opiniões. De preferência não demagógicas.

    • M. Moreira said,

      Caro Ricardo Silva,

      sou professor de matemática do 3.º ciclo/secundário… e vou expor alguns pontos, que me parecem evidentes…

      Pegando na matriz actual e comparando com a matriz anterior “prevista no consulado de Isabel Alçada”, analisando, p.e., o caso do 3.º ciclo, anteriormente estavam previstos, excluindo EMRC, 46 blocos de 90 minutos, agora temos 51,5 blocos…

      Esta diferença são quantos “contratados”?

      Ou seja, este arranjo, apesar de supor cortes no emprego docente, é muitíssimo menor que a proposta anterior.
      Peço-lhe para demonstrar que estou enganado…

      Relativamente à matemática, não consigo compreender esse azedume pelas horas, é mais do que evidente que a característica da disciplina exige mais trabalho, mais horas… Assim acontece com os currículos dos outros países.

      Isto chega para melhorar os resultados?
      Por si só, não, mas ajudará e muito… espero é que a exigência também aumente, pelo menos assim o farei…

      Relativamente ao “PAM”, os resultados da disciplina continuam longe de ser os desejados, mas sem o plano em vigor, infelizmente, seriam ainda piores…

      E, desculpe, mas não é com teorias como as que o Sr. defende, há horas a mais para Mat., que se convence um aluno a trabalhar para a disciplina, bem pelo contrário, desculpam ainda mais o facto de uma grande maioria aceitar os resultados a matemática como uma fatalidade…

      Uma coisa concordamos, há uma enorme dispersão curricular, em especial no 3.º ciclo, seria mais proveitoso agrupar as horas, do que a actual distribuição pelos anos lectivos…

      Mas, para o próximo ano estaremos a falar de uma outra matriz…

      Portanto, admira-me o seu post, pois dá a entender que está “chateado” porque os professores de LP e Mat. são os privilegiados…
      Mas, ainda estou para verificar tal situação, em pois actualmente em grande parte das escolas o EA e a AP já eram leccionadas por professores de LP e Mat.

      Por fim, pergunto, novamente, onde estão os benefícios da proposta anterior?

      NOTA: Repare que eu não comentei “Com excepção do par pedagógico em EVT, que para já se mantém (assim como os desdobramentos nas Ciências,” quantos horários a menos seriam?


      • Caro M. Moreira,

        Como já expliquei noutros comentários, nada me move contra a LP e a Matemática e muito menos contra os colegas. Aquilo que digo e reafirmo é que a simples atribuição de mais horas a essas disciplinas não garante, por si só, um ganho de eficácia e redução de insucesso. Porque considero que as variáveis são diversas e há muitos outros factores que influem nos resultados obtidos. Como explicamos no post que se segue a este, era importante começar por avaliar correctamente que variáveis e factores são esses, o que tem corrido melhor e pior e aí tomar posições. Tem razão quando refere que em diversas escolas o EA e a AP já eram leccionados por professores de EA e AP e isso, naturalmente, pode levar a outras conclusões diferentes das minhas. Eu conheço outra realidade e sei porque escrevi o que escrevi. Há um outro aspecto que é preciso sublinhar: nesta reorganização curricular já sabemos como estão a ser realocados os meios blocos a gerir pela escola (nas escolas que conheço para LP e Mat. exclusivamente) e isso permite-me tirar conclusões sobre a razia que vai abater-se sobre os contratados (e não só) em diversos grupos. Na proposta anterior não sabemos bem que alterações ou reformulações poderiam existir ainda. Mas deixe-me ser claro: eu não defendo, nem por um segundo a proposta anterior. Não concordo com nenhuma delas.


        • Caro M. Moreira,

          Há um “pequeno” “pormaior” que não posso deixar de lhe chamar a atenção: se reparar com mais atenção na grelha da proposta de Fevereiro, as contas que apresenta não estão correctas. E isso porque os 47,5 blocos (ou 46 se exceptuarmos EMRC) que indica, não contemplam os 3 blocos de EA (que surgem no quadro como 6 meios blocos)! É por isso que nas contas finais se refere um valor entre 47,55 e 50,5. Os 3 blocos vêm precisamente do EA que não está contabilizado nas contas que referiu. Ora a diferença é simples (e decisiva, na minha análise): na proposta anterior o EA podia ser assegurado por todos os professores (sendo verdade que o artigo 5-A apontava prioritariamente para o apoio em LP e Mat, mas também referia a melhoria dos resultados escolares das disciplinas em que o aluno tivesse maiores dificuldades) e na actual proposta esses tempos estão todos a ser atribuídos à LP e Mat. Nesse sentido, e tal como referi no post, a LP e Mat. ganham em toda a linha e as restantes disciplinas são prejudicadas (indirectamente é certo) pois é-lhes vedado o acesso à EA (que desaparece) e aos meios blocos a gerir pela escola. Se me conseguir mostrar o contrário agradeço, pois não pretendo ser dono da verdade. Volto, no entanto, a referir que o objectivo fundamental do post é realçar as oportunidades perdidas com esta reorganização curricular e a forma, talvez precipitada, como se considerou que atribuir mais horas às disciplinas de LP e Mat. poderia ser o remédio para todos os males, sem se questionar e avaliar o percurso percorrido e explorar algumas das oportunidades/sugestões que deixei expressas no post. Não acredito que nelas haja alguma grande novidade para os “especialistas” do ME. O que falta é coragem política de as colocar em prática. E, claro que a situação económica-financeira do país também limita a decisão/acção. Pena é que tenha de ser a Educação a ser sacrificada ao invés de se corrigirem os problemas estruturais do país, de que as brutais derrapagens no custo das obras públicas, os encargos com as parcerias público-privadas, os privilégios da banca e grandes empresas, a fraude, evasão e perdões fiscais, entre muitas outras questões que engordam o Estado e os bolsos de alguns gestores públicos, para não falar das reformas e indemnizações pornográficas atribuídas a certos “figurões”, são apenas pequenos exemplos. Sei lá, se calhar estou a ser apenas demagógico. Lamento! Mas tenho sido eu (e muitos como eu) a pagar todo o desvario! Começo a ficar um “bocadinho” cansado.

          Abraço

        • M. Moreira said,

          Olá Ricardo,

          (permita-me tratá-lo de maneira menos formal…)

          Há uma relação directa entre o número de horas de matemática e a respectiva performance… isso parece-me evidente e deixo aqui um estudo da OCDE a dizer isso mesmo.

          http://browse.oecdbookshop.org/oecd/pdfs/free/9810051e.pdf
          Ver pág. 65

          Agora,
          – haverá mais desemprego docente?
          Sim, mas menos do que na proposta anterior

          -Mat. e LP saem favorecidos?
          Talvez sim ou não. Recordo que as horas de EA e AP já eram em grande parte para estas disciplinas…
          Nesta matriz, continua a não ser garantido que esse bloco a atribuir seja para LP ou Mat… (como pode ler na matriz) portanto, não se pode induzir que seja melhor…
          Mas admitindo, que sim, a diferença não será muita…

          E se terminarem com o crédito horário atribuído pelo PAM, o “ganho” com este bloco é anulado.
          Consulte este relatório do PAM
          http://www.dgidc.min-edu.pt/outrosprojetos/data/outrosprojectos/Matematica/Documentos/relatoriopmii_2009_2010.pdf

          Em relação ao EA da proposta anterior, o mesmo era para alunos com mais dificuldades, não se percebendo ao certo como seria a sua aplicação.

          Também não defendo esta revisão, e a mesma só deve durar este ano, agora dizer que esta é pior que a anterior é demagógico, como já percebeu…

          Por último, julgo que deve mudar um pouco este discurso em relação a LP e Mat., pois custa-me a entender que a sua opinião represente a opinião de toda a APEDE, a menos que não existam professores de Mat. e LP na mesma. Portanto, fale com os colegas destas disciplinas e confronte com a sua opinião.

          Cumps.


        • Esta “árvore” de comentários está a ficar com limites de espaço e aspecto algo caricato🙂 Por isso, a minha resposta segue abaixo, no final da caixa de comentários. Abraço

  13. afonso henriques said,

    É realmente uma lástima uma série de comentários aqui deixados!!! Aliás, o post tb não é menos…Afinal, a escola existe para os alunos ou para dar trabalho/emprego aos professores???!!! O reforço das aulas a Língua Portuguesa e Matemática é uma exigência nacional!!! Estou numa escola onde, de há anos a esta parte, sou um dos que verifico o material das reuniões de avaliação. É simplesmente vergonhoso o teor, a estrutura frásica e a correcção linguística de muitas dessas actas (E já existe um “modelo” de acta! Imaginem se fosse preciso escrever um texto corrido!!!).
    Ah, só mais uma coisa…Nuno Crato está no ministério há 20 dias…Deixem-no trabalhar tendo em conta os destinatários da Escola – os alunos!


    • Comentário (mais que) esperado, que só peca por surgir tão tardiamente.

      A escola não existe para dar emprego aos professores. É um facto. Mas não se esqueça que também não existe sem eles. E quanto mais atacados forem e menos condições de trabalho tiverem, pior andará o ensino. E pior estarão os alunos. Consegue perceber isso ou é muita “areia para a sua camioneta”, caro colega?

      Quanto ao imperativo nacional que refere, é ou não verdade que as duas disciplinas em causa já são, de há muito, valorizadas e reforçadas com mais tempo lectivo (em comparação com outras disciplinas)? Isso resolveu o problema das actas que indicou? Será que o aumento das horas é a panaceia milagrosa? Consegue analisar e valorizar algumas das sugestões que apresentamos ou acha mesmo que isto só lá vai com mais horas, em cima de horas?

      É bom que Nuno Crato trabalhe a pensar nos alunos. Estamos totalmente de acordo. É precisamente por isso, que não deve esquecer-se dos professores e das condições que têm para desempenhar a sua profissão. Claro que o caro colega não deverá estar na situação de tantos e tantos colegas seus que, já para lá dos 30 anos, dando aulas consecutivamente há mais de 10 anos, ganhando metade do que o colega ganha, ou mesmo menos, e fazendo exactamente o mesmo, continuam a viver em quartos alugados, não sabem nunca se virá um ano em que fiquem sem leccionar, e sobretudo onde irão leccionar, muitas vezes impedidos de estabilizar a sua vida familiar, não conseguindo, seguramente, nos próximos longos anos, aceder à carreira, onde o colega já deverá estar posicionado, mesmo que as necessidades residuais, sejam até muito permanentes. É claro que isso, na sua opinião, não é problema do ME. Pois deixe-me dizer-lhe: está enganado! E muito enganado. E é mais que um problema, é uma questão de dignidade e justiça. E só não o considera porque não o sente. E se algum dia o sentiu já se esqueceu!

      P.S. Quanto ao problema da redacção das actas, sem o desvalorizar, só espero que as que tenham sido elaboradas nos seus conselhos de turma estejam irrepreensíveis, graças à superior qualidade da sua supervisão, antes ou durante a leitura das mesmas. Não espero nem lhe admito menos que isso. É que, como membro do Conselho de Turma, tem também essa responsabilidade.

  14. professorTIC said,

    Na próxima revisão curricular deverão acabar com as TIC de uma vez por todas, e devem manter o par pedagógico a EVT.
    Isto é uma educação Séc. XIX, se estamos num mundo informatizado educação tecnológica tem que ter por base a TECNOLOGIA DA INFORMAÇÃO E COMUNICAÇÃO (TIC). Penso eu…
    Sr. Cratom homem que defende ensino técnico, ainda vaia acabar com as TIC?

  15. Zé Manel said,

    Estes e outros comentários mostram claramente que existe uma justificada e profunda preocupação do corpo docente face ao descalabro para onde a escola pública continua a caminhar a passos largos. O novo ministro “parece” pairar algures em outra dimensão e não dá sinais nem de perceber bem os problemas ou menos ainda de encetar medidas tendentes a inverter a situação. Pelas intervenções neste e em outros sites, vemos que a maioria tem razão, mas não tem TODA a razão, até porque não é fácil mantermos uma perspectica global e simultâneamente restrita. Isso significa necessáriamente que se tornou indispensável um largo e amplo debate( aberto e descomplexado) entre todos os intervenientes de modo a estabelecer algumas zonas de consenso que possam fundar as bases a partir das quais arranque uma reestruturação a sério. Mas como sempre, os poderes instituídos não estão nada virados para as soluções que poderiam conduzir à resolução dos graves constrangimentos do sistema. Assim sendo, os docentes continuarão a dar o seu melhor e a aparecer como os culpados dos medíocres resultados das desastrosas políticas educativas. É o país-que-temos!!!!

  16. evtduo said,

    Sr professorTIC
    O seu problema é qual? o par pedagógico em EVT ou o problema das TIC? Não me parece que seja a mesma coisa, de qualquer modo sugeria-lhe que defendesse a sua dama sem menosprezar o trabalho que os outros por cá vem fazendo com TIC ou sem TIC.

    • Gonçalo Valente said,

      Caro colega,

      A meu ver, o problema não se trata de acabar com as TIC para poder continuar EVT. Tratam-se de disciplinas que são leccionadas em ciclos diferentes.

      O que noto como professor do grupo 550 é que querem que esta discplina passe a ser leccionada por professores de outros grupos disciplinares que tem alguns conhecimentos informáticos, em deterimento de professores habilitados para leccionarem as TIC. É o que está a acontecer com as Certificações TIC.
      O que é que o colega diria se outros professores leccionacem a sua disciplina?

      Hoje pensa-se que os alunos já tem as competências necessárias, como tal não é necessário ter essa disciplina. Foi o que aconteceu no Secundário. Em vez de alterarem o curriculo adaptando para cada curso. Porque não dar bases aos alunos que queriam tirar uma Licenciatura/Mestrado em Informática? Não foi isso o que aconteceu. Decidiram eliminar, passando só para o 3º ciclo. O que acontece, milhões de euros que foram investidos, praticamente foram deitados fora, desperdicio, não acha?

      O que está a passar, é que uma disciplina que hoje é autónoma, no futuro possa a desaparecer e seja leccionada por outro professor a explicar aos alunos como tem de fazer os trabalhos, quer no Word ou Powerpoint.

      Eu defendo a minha “Dama” e aplico um aqui uma expressão popular, “Cada macaco no seu galho !”. Disciplinas que sejam leccionadas por professores habilitados para o efeito, e não para completar horários de outros professores. Português leccionado por professores de Português; Matemática por professores de Matemática e TIC por professores de Informática, entre outros.


      • Olá Gonçalo,

        Estamos de acordo: “cada macaco no seu galho”.

        Boa sorte no concurso. Espero que corra tudo bem!

        Abraço

      • Alda Antunes said,

        Concordo plenamente, a estratégia é poderem ser dadas por outros grupos disciplinares! Não sei, afinal todos já nascem com competências em TIC. Não foi dado um certificado a todos os docentes “das competências TIC”?? A quantidade de colegas que todos os dias nos questionam ?? “liguei o computador e não deu nada!!” – afinal só tinha ligado o monitor – coitada!!!
        Acho que poupariam muito mais se acabassem com o ensino!! Afinal através da Internet podem aprender tudo!!!


  17. Caro M. Mota,

    Como referi, acima, a “árvore” de resposta a comentários não pode prolongar-se mais, por limites de espaço. Por esse motivo deixo-lhe aqui a resposta ao seu último comentário.

    E o que quero dizer-lhe, com todo o respeito pela sua opinião, é que não considero de todo que a minha análise seja demagógica. Quer pelas razões que voltei a descrever acima, quer porque eu não pretendo “vender” a proposta anterior (longe disso!), ou enganar alguém. Discordo frontalmente é dos que achavam a proposta anterior uma hecatombe e esta apenas uma hecatombe ligeira, ou um mero “haircut” curricular, sem consequências muito sérias a nível de horários. Quanto à minha posição sobre a LP e Mat. volto a referir que não me entendeu bem. Considero ambas as disciplinas muito importantes e tenho o maior respeito pelos colegas que as leccionam. Até considero, e tenho-o dito, que estão colocados numa posição mais exigente do que os restantes colegas pois são constantemente confrontados com a comparação avaliação interna versus avaliação externa, e sem se perceber que essa não é uma situação totalmente séria, por motivos óbvios e que os professores facilmente compreendem. Quanto à APEDE, fique tranquilo, alguns colegas de direcção são professores de LP (para já não referir os associados) e, quer na caixa de e-mail, quer no tlm, quer no contacto pessoal, ainda não recebi qualquer reacção negativa. Isto não invalida que eu compreenda que tenham aceite, com satisfação, a atribuição de mais horas. No fundo, quem não gostaria? Mas a questão é outra, como já procurei explicar-lhe. Diria o mesmo se se tratasse de qualquer outra disciplina na mesma situação.

    Abraço

  18. Sísifo said,

    Dar mais horas a P e M não resolve o problema, mas, se as destinarmos a outras disc., aí sim já resolve os destas.

    Hã???

  19. APEDE said,

    Caro Sísifo,

    Parece que ainda não percebeu, ou já se esqueceu, que algumas disciplinas já tinham perdido horas na anterior reorganização curricular. Foi o caso da História, só para citar um exemplo. Com a anterior reorganização curricular a História passou a beneficiar de um dos meios blocos a gerir pela escola. Neste momento esse meio bloco foi dado também ao Português ou à Matemática. Não se trata pois de dar mais tempo às restantes disciplinas, o que importaria era não agravar a perda de tempos lectivos que já se tinha iniciado antes. É importante recordar, finalmente, que os programas, nomeadamente o da História, se tem mantido inalterado ao longo dos últimos longos anos, com uma perda progressiva de tempos lectivos.

    Cumprimentos

  20. Teresa said,

    Como é que é possível que considerem a História e a Geografia como “não estruturantes”???? a partir do momento em que os alunos têm Geografia começam a interessar-se pelo Mundo que os rodeiam, começam a ouvir os telejornais, a perceber q história é essa de “envelhecimento” e pq é q governos como o que temos tomam decisões como “aumento da idade da reforma”…pq é que os paises são desenvolvidos, pq são em desenvolvimento??? quem explora quem é explorado…..bem….reflectindo sobre isso , se calhar até se percebe pq é que querem acabar coma Geografia….não interessa formar gente pensante….


  21. “Não interessa formar gente pensante…”

    Para isso, nada melhor que “abater” tb a História, a Filosofia, etc.

    Abraço


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