APEDE


A ubiquidade do mal

Posted in Ensaio sobre a cegueira por APEDE em 24/07/2011

De entre as capitais dos países escandinavos, Oslo é a cidade de beleza mais delicada, mais intimista, menos monumental. Diríamos, correndo o risco do lugar-comum: a mais humana.

Rodeada de uma paisagem deslumbrante, à beira de um fiorde, Oslo é uma cidade que, com sol e as temperaturas amenas do Verão, convida aos passeios pedestres e à descoberta.

Para os que a conhecem e a amam, é duplamente doloroso observar a ferida terrível que agora foi aberta nela, depois da qual muito dificilmente se regressará à normalidade – seja lá o que isso for.

O lado mais tremendo do terror político, com a sua violência insana – que escolhe como alvos os que são ontologicamente inocentes -, é o facto de, com frequência, atacar sociedades aparentemente felizes, aquelas que parecem ter conseguido atingir um equilíbrio que a nós, portugueses, tem todo o ar de miragem: desenvolvimento e crescimento económico, com distribuição igualitária e socialmente justa da riqueza. Baseando boa parte do seu bem-estar na exploração de reservas petrolíferas, a qual não se limita a reverter a favor de uns tantos nababos, a Noruega é um país que realizou, de facto, esse objectivo do qual, nos dias de hoje, a restante Europa se afasta cada vez mais.

Mas a Noruega era também, até ontem, um lugar onde, aos fins de semana, o primeiro-ministro podia passear em bicicleta com a família, num convívio próximo com qualquer dos seus conterrâneos. Sem guarda-costas, pois. Havia nisso um luxo a que já poucos países podem aceder, uma ingenuidade saudável – talvez aquilo que leva os sofisticados suecos, com um misto de sobranceria e de inconfessada inveja,  a ver nos  noruegueses os “bimbos” da Escandinávia.

É muito provável que essa descontracção, esse savoir-faire cultural e político, tenha morrido com estes atentados.

Todavia, semelhantes eventos, pela sua magnitude, exigem outro género de reflexão, capaz de ir além da epiderme das nossas afeições. Porque um acontecimento como este põe à prova a consistência do pensamento (inevitavelmente político) com que nos apropriamos dele.

Começa, desde logo, pela assimetria da nossa indignação. Emocionamo-nos com o assassinato bárbaro de noventa e tal noruegueses, mas encaramos a morte, não menos bárbara, de mais umas centenas de iraquianos entre duas garfadas de um jantar frente à televisão. É o efeito da distância afectiva de que falava Freud? O parente importa-nos mais do que o vizinho e o vizinho mais do que o estrangeiro, e por aí fora, até à indiferença total? Qual a extensão da nossa solidariedade com o humano e de que fronteiras ela é feita?

Há, entretanto, também outras assimetrias, mais conjunturais mas não menos perturbadoras. Com lucidez, alguns bloggers estão a chamar a atenção para elas a propósito de certos juízos que circularam sobre estes atentados. Assim, se muitos se precipitaram na atribuição da autoria dos mesmos ao «terrorismo islâmico», outros tantos recuaram na nomenclatura do mal quando souberam tratar-se, afinal, de um louro de olhos azuis – típico exemplar da “raça ariana”, pois então. Ainda para mais, católico. A simples eventualidade de se poder atribuir ao suspeito a categoria de «fundamentalista cristão» desperta em certas almas as mais veementes objecções (leiam os comentários, por favor). Como se a mera associação entre «cristão» e «fundamentalista» fosse impensável. Mais impensável ainda, para alguns espíritos, a junção das palavras «cristão» e «terrorista». Porque, “como toda a gente sabe”, em matéria de religiões só o Islão pode atrair a si o apodo (e a prática) do terrorismo. O Islão, essa fé de “fanáticos”, estruturalmente “atrasada” e própria para mentes “primitivas”. Quantas vezes não ouvimos e lemos esta cantilena racista a propósito, por exemplo, da suposta “afinidade natural” entre a religião islâmica e os negros de África? E quantas vezes não ouvimos, no passado colonial como no nosso presente pós-(e neo-)colonial, que o cristianismo, em contrapartida, é uma fé “superior”, ligada a todos os “magníficos avanços” da não menos esplendorosa «civilização ocidental»? Logo, é impossível conceber um fundamentalista cristão terrorista, ou seja, um terrorista que o seja por ser fundamentalista cristão. Logo, o louro de olhos azuis, cristão e admirador de Churchill, que praticou o massacre na Noruega só pode ser um louco, um psicopata, alguém que não releva de uma categoria propriamente política.

Os limites da nossa imaginação categorial são as fronteiras de onde se alimentam os nossos preconceitos – e a nossa violência identitária contra os “outros”. 

Por fim, é necessário regressarmos ao princípio. E o princípio é o início deste “post”. É que a cartografia dos nossos afectos pode ser também o desenho da nossa cegueira. Gostamos da Noruega, é verdade. Mas, como lembrava Nuno Rogeiro no telejornal da TVI, as aparências norueguesas (como as filandesas, as suecas, as dinamarquesas) escondem realidades bem mais medonhas do que gostamos de imaginar. Existe uma violência larvar, uma inquietante estranheza, uma sussurrada patologia social a pulsar por debaixo da pele de harmonia que os países escandinavos ostentam. Não é por acaso a taxa de suicídios, não é por acaso o crescimento da extrema-direita nessas regiões, e não é por acaso a neurose metafísica de um Bergman ou, mais recentemente, a inquietação manifestada por Stieg Larsson nos livros da série Millennium

Também por aqui precisamos de sair das assimetrias inconscientes com que distribuímos o mal pelas aldeias – as que nos são próximas, as que nos são distantes, e as globais.

10 Respostas to 'A ubiquidade do mal'

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  1. Leitor said,

    Sobre o contexto em que ocorreu o massacre de 22 de Julho, uma perspectiva a considerar:

    http://www.rebelion.org/noticia.php?id=132857

    • maria said,

      Obrigada Leitor!
      O silêncio ocidental sobre esta posição contra o massacre sistemático à Palestina é a prova de como os meios de comunicação estão dominados por um poder económico diabólico.

  2. Meio Vazio said,

    “Atentados”? Mas não foram “ataques” concretizados e com vítimas?
    “Católico”?
    (preciosismos irrelevantes, eu sei)

  3. Zé Manel said,

    Os dados até agora conhecidos apontam para o facto de o atacante ter um discurso manifestamente incoerente ( para dizer o mínimo) e que as suas razões (se é que podem existir razões para tanta barbárie) não são redutíveis a categorias inteligíveis. Isto exclui de certo modo as motivações ditas políticas e /ou religiosas e aproxima o crime do seu congénere americano do liceu de Colombine, por exemplo. Foi assim porque sim. Quanto às afinidades e às distâncias, é óbvio que as pessoas reagem sempre mais emotivamente quanto o desastre é mais próximo. O Sudão, a Somália, O Congo, A Nigéria, O Rwanda, etc, ficam sempre mais longe que a “nossa” europazinha. Já Eça de Queiroz ironizava no seu tempo sobre esta questão das distâncias. Mas eu acho isso natural. É um dado adquirido. As pessoas são assim mesmo. Paciência! Já a questão do terrorismo é mais complexa, sobretudo se a associarmos ao(s) fundamentalismo(s). Claro que os media são sempre muito mais céleres e incisivos quando se trata do fundamentalismo árabe. Isso é facto. Mas tb não é menos verdade que o fundamentalismo cristão é infinitamente menos actuante e circunscrito a uma ou outra zona específica, nem sequer tendo qualquer governo ou estado que o apoie. O único caso recente de que me lembro foi o massacre dos campos de Sabrah e Shatilah, enquanto do lado islâmico o problema é infinitamemnte mais vasto a ponto de se tornar endémico. Inversamente, o fundamentalismo sionista é sempre encarado oficialmente na civilizada Europa como algo de que nem se deve falar. Se os media gostaram tanto do discurso de Reagan quando disse:-” Mr Gorbatchev! Tear down this wall..”, referindo-se ao muro de Berlim, não se pode aceitar que tenham atitude diferente sobre o muro, eufemisticamente chamado “fence”( vedação) construído pelo estado sionista. É sempre o problema dos dois pesos e duas medidas. Mas a isso já estamos habituados.

    • Meio Vazio said,

      Só por equívoco (?) se podem comparar tais muros: aquele, a grade exterior de uma prisão (!), este, a vedação protectora de uma democracia.

    • Mário Machaqueiro said,

      Zé,

      O assassino da Noruega pode ter – tem certamente – traços psicopáticos. Tal não significa, porém, que esses traços não se possam cruzar com motivações políticas. Em última análise, aliás, tudo pode ser reduzido ou reconduzido a raízes de ordem psíquica. Somos então confrontado com formas políticas psicopatológicas e formas “terapêuticas”, formas ao serviço das pulsões de morte e formas que decorrem das pulsões de vida teorizadas pelo velho Freud – que percebeu muito bem a articulação complexa do nível psicológico/simbólico/identitário com o cultural, o social e o político. Nesse sentido, Anders Breivik representa o lado mais extremo do velho «orgulho branco» que esteve na base dos projectos coloniais e imperialistas da Europa, do racismo «ocidental», dos fascismos, das dominações neo-coloniais, da islamofobia, da ciganofobia, etc., etc. O exemplo de Breivik mostra bem que nem todo o multiculturalismo do mundo é suficiente para enterrar a besta do «orgulho branco», sempre pronta a reaparecer da maneira mais terrível. A única diferença entre ele e o programa político do nazismo é que, no caso de Breivik, se trata, aparentemente, de um homem só, enquanto o nazismo constituiu uma política de Estado. A psicopatologia é, contudo, a mesma.

      • António Rodrigo Costa Neto said,

        Aparentemente parece não ligar à génese dos comportamentos sociais de indivíduos, intencionalmente mal preparados em termos de conhecimento auto-construído na escola e fora dela, para analisarem e entenderem o funcionamento das sociedades em que estão inseridos, as suas múltiplas interdependências, formatados para apenas responderem a comunicação por slogans, para distinguirem somente tonalidades extremas, seres facilmente robotizados para exércitos de rebeliões que servirão causas obscuras de gente bem instalada nunca escrutinada!

        • Mário Machaqueiro said,

          O que significa «génese dos comportamentos sociais de indivíduos»? Se significa remeter tal génese para determinismos exclusivamente sociais, culturais ou históricos, isto é, que rasuram completamente as determinantes de ordem psíquica, então esse é um modelo de “explicação” que me parece francamente pobre e redutor – até porque deixa sempre por explicar a origem de tais causalidades. Se, em contrapartida, essa génese for entendida na sua complexidade e na sua sobredeterminação, então haverá aí uma consistência explicativa com que me identifico. Quer isto dizer que os comportamentos humanos têm de ser encarados numa multiplicidade de níveis e de escalas, individuais e colectivas, infantis e adultas, intrafamiliares e culturais, conscientes e inconscientes, etc., etc. Anders Breivik, como cada um de nós, há-de estar no cruzamento de toda esta multicausalidade.

  4. maria said,

    “Vedação protectora de uma democracia” !!!!!
    Há israelitas agnósticos, judeus, islâmicos,…e há sionistas. Só estes se lembrariam de tal designação “vedação”…

    • Meio Vazio said,

      Pois, democracia!. Depreendo que preferirá as “democracias” vizinhas. Mas está no seu direito. Peça asilo político às mesmas.
      E, já agora, que tem a crença religiosa dessas pessoas de relevante para o caso? Numa democracia, nenhuma. Mas se sim, acrescente outras determinações à lista: há israelitas vegetarinos, israelitas sado-masoquistas, israelitas amantes de rock, israelitas que não suportam havaianas, israelitas que detestam hamburguers, israelitas que se pelam por queijo parmesano, israelitas que adoram pizza, israelitas carecas, israelitas cabeludos, israelitas morenos, israelitas louros…


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