APEDE


A face medonha do «orgulho branco»

Posted in De olhos bem abertos por APEDE em 25/07/2011

Louro. Provavelmente alto. Olhos azuis. O pesadelo da raça ariana. Olhem-no bem.

Ciente da sua superioridade absoluta, está disposto a eliminar tudo o que decretou como inferior. Pois os «inferiores» não têm, por definição, direito à vida.

«Inferiores» são, claro está, todos os povos não «ocidentais», todas as raças «não brancas» que só podem ser escravos a explorar ou «pragas», «vermes», «micróbios» a suprimir. E intolerável, para ele, é que toda essa escumalha pretenda, não só existir, mas até mesmo misturar-se com ele, torná-lo «outro», diferente de «si», igual a todos os «outros». Esse é o seu maior pânico.

«Inferiores» são, enfim, os praticantes de religiões «impuras», esses muçulmanos em número cada vez maior, que estão por toda a parte, que o querem dominar, a ele, que nasceu para ser dominador. Isso ele não consegue aceitar.

Mas «inferiores» são, também, os «traidores» que vivem entre «nós». Esses que, tendo nascido «para dominar», aceitam «ser dominados». Esses que são cúmplices da «praga», da «peçonha», dos «micróbios». Esses amigos dos pretos e dos ciganos. Esses marxistas, comunistas, multiculturalistas. Para eles há que reservar o maior ódio. Para eles há que usar balas que deflagram no corpo.

Olhem-no bem.

É cristão, cheio de «paz e amor». É, aliás, por «amor ao próximo» que ele descarrega a metralhadora sobre os jovens que tem à sua frente, depois de os ter reunido com palavras de polícia bonzinho.

Olhem-no mesmo bem.

Ele é o «descobridor» português que jurou destruir os fiéis de Mafoma.

Ele é o «descobridor» espanhol que massacrou incas e aztecas.

Ele é o «comerciante» português/inglês/francês/holandês que transportou escravos negros como sardinha enlatada no porão.

Ele é o alemão que empurrou judeus e ciganos para a câmara de gás.

Ele é o soldado israelita que maltrata o palestiniano na fronteira de Gaza.

Ele é o soldado americano que violou, mutilou e trucidou mulheres e crianças na aldeia vietnamita de My Lai.

Ele é o soldado português que fuzilou e queimou a população moçambicana de Wiriyamu.

Ele é o nosso passado. O nosso presente. O nosso futuro.

13 Respostas to 'A face medonha do «orgulho branco»'

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  1. Fernanda said,

    Mas “ele” não vencerá!

  2. Leitor said,

    “Em Oslo e em Utoya, contudo, o inimigo não era o outro, era um de nós”
    (Editorial do Público, 24/06/11)

    Enquanto prevalecer este tipo de raciocínio (xenofobia polida), outros Anders Breivik poderão surgir.

  3. Meio Vazio said,

    Manes não diria melhor – ainda que não imaginasse que a besta americana descrita pudesse ser negra, ignorasse que Cotez e Pizarro não fossem arianos, não suspeitasse que os cínicos SS fossem ateus ou que metade do luso povo que embarcou na demanda do Prestes João fosse neto do moreno magrebino…

    • Mário Machaqueiro said,

      O «homem branco» é uma representação, uma construção delirante. Nada tem que ver com a cor da pele. Ou melhor: tem que ver com as imagens que se constroem da cor da pele. Assim, os netos dos morenos magrebinos, que eram tratados pelos louros do norte da Europa como “cafres” mais próximos dos africanos do que dos europeus, não deixavam, mesmo assim, de tratar como escumalha os “cafres” de África. Há sempre um ariano desconhecido que espera por si… Ou nunca deu por isso?

      • Meio Vazio said,

        Há sim senhor; ninguém diga desta água…!
        Mas o “ariano” não tem de ser o branco, o judeu, o cristão, o germano, o europeu, como a facilidade (em que o Mário quis embarcar – “no melhor pano cai a nódoa”) impõe. Facilidade que, aliás, impede de ver que também o que de melhor a epopeia da humanidade nos legou germinou nesse terreno. Quase sempre o pior e o melhor entroncam na mesma raiz. Porque “aí, onde reside o perigo, cresce também a salvação”!. Mas o Mário sabe-o (…ainda finja o contrário).

        • Mário Machaqueiro said,

          A discussão sobre onde está o «melhor» e o «pior» do que a «humanidade» nos legou levar-nos-ia muito longe. Um pobre blog não chega para isso. Dir-lhe-ei apenas que o nosso etnocentrismo europeu nos tem cegado para muitas coisas: para a destruição que levámos a outras culturas, aprioristicamente convictos de que a nossa era a «melhor» – e que, portanto, só ela merecia “viver” -, mas cegueira também relativamente ao muito que a «nossa» cultura deve à cultura dos «outros» – a começar, precisamente, pela raiz islâmica de muito do que sabemos e pensamos e até de muito do que dizemos.
          Não me vou armar ao pingarelho da erudição e aconselhar-lhe a leitura de uns tantos livrinhos que nos ajudam a sair do tal umbiguismo «ocidental». Eles estão por aí. É só ir à procura deles, e palpita-me que você até os conhece.

        • Meio Vazio said,

          E todos eles dizem aquilo de que a sua resposta é uma paráfrase. E todos eles são autores da “Europa”. Essa “europa” que acima desanca com cego sarrafo maniqueísta, mas que é, afinal, o único espaço onde a crítica e auto-censura (cuja condição primeira é a auto-consciência) se torna possível.
          Parco legado à humanidade? Talvez não.

  4. Mário Machaqueiro said,

    Meio Vazio,

    O grande problema é que você não percebeu nada do que o “post” pretende dizer. Onde é que o “post” fala de Europa e de europeus? E o que é, já agora, um “europeu”?

    • Meio Vazio said,

      Estúpido, mas não tanto, caro Mário.
      “Europa”? “Europeus”? Homessa! Então vc não os elencou? Na sua lista aparecem clara e simbolicamente de vários modos – exactamente sete (número significativo, já agora).

      • Mário Machaqueiro said,

        Não sabia que «israelita» e «americano» também são «europeus». Mas já estou mais esclarecido a propósito do seu delírio identitário: na sua cabeça, «homem branco» – outra construção delirante, que no “post” está devidamente entre aspas – é o mesmo que «europeu».
        O que você insiste em não perceber é que o “tema” do “post” é o orgulho (delirante) à volta de uma construção imaginária chamada «homem branco». «Homens brancos» há muitos: eu podia ter falado do racismo dos “afrikaners” (também são «europeus»?) contra os negros na África do Sul, ou do racismo dos que se vêem como descendentes dos «brancos» “conquistadores” das Américas contra os que são vistos (e se vêem) como descendentes dos índios em países da América do Sul.
        Indo, no entanto, ao fundo do seu problema «meio vazio», é que a sua acusação de maniqueísmo é simplesmente projectiva: do facto de recordarmos que a cultura dita «ocidental» arrasta consigo uma série de crimes contra outros povos e outras culturas não se infere qualquer desmentido sobre as muitas coisas boas produzidas no seio dessa cultura. Por que diabo é que não podemos fazer as duas afirmações em simultâneo? Acontece que não é obrigatório, sempre que se apontam os tais crimes, bater com a mão no peito em louvor das magníficas conquistas da cultura «ocidental».
        O meu diferendo, porém, vai mais longe. Pois, quando escavo um bocadinho mais, fico sem saber o que é o «ocidente», a «Europa», os «europeus», etc. Isso impede-me de apreciar Platão, Shakespeare, Karl Marx ou Tolstoi? Claro que não! (A propósito, Tolstoi era de um país “europeu” ou “asiático”? E não diga que sabe a resposta para esta pergunta, porque muitos russos não a sabem)
        Por tudo isto, o “post” que escrevi não versa nenhuma daquelas etiquetas, ao contrário do que você pretende fazer crer.

        • Meio Vazio said,

          “Europa” não é nos meus comentários, muito menos “europeu” em todos os símbolos (os sete) do seu post, uma referência geográfica. Mas nem eu percebo por que lho estou a recordar…

  5. joaquim said,

    O monstro!!!

  6. maria said,

    É por causa de muitos «meiosvazios» que o sionismo e a «islamofobia» aumenta nesta fatia, tão pequena, a que chamam Ocidente cristão. Vivemos períodos bem perigosos…


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