APEDE


Verão quente de 2011 ou o mal-estar da civilização

Posted in As revoluções não começam assim por APEDE em 18/08/2011

E, de repente, o Verão do nosso descontentamento (entre o frio e o morno) resolveu aquecer por terras de sua majestade.

Quando publicámos o último “post”, à volta da genial canção de Jarvis Cocker, estávamos longe de pensar que íamos, ao mesmo tempo, acertar na “mouche” e falhar o alvo.

É que a letra de Cocker parece, em determinadas passagens, articular-se muito bem com o que aconteceu, quando, noutras, remete para uma “consciência de luta” (ou “consciência de classe”) que tudo indica ter primado pela ausência nos acontecimentos deste Verão londrino.

Por um lado, a canção fala de um “raid” e do desejo de aceder a um padrão de vida de que os “misfits” se sentem excluídos:

“We want your homes, we want your lives, we want the things that you won’t allow us.”

Mas, como alguns comentadores lucidamente observaram, é justamente essa identificação com o modelo de vida, consumista e ostentatório, das classes “afluentes” que retira à violência protagonizada pelos bandos de jovens dos “bas-fonds” londrinos qualquer potencial socialmente transformador e emancipatório. Estamos a anos-luz do tipo de força na qual Cocker investia as suas esperanças:

“We won’t use guns, we won’t use bombs, we’ll use the one thing we’ve got more of – that’s our minds.”

Acontece que Cocker, e vários outros cultores da pop britânica de sentido verrinosamente crítico que pertencem à sua geração, veio precisamente de um meio social que, sendo baixo, pôde ainda beneficiar do acesso a um ensino público que permitia abrir os olhos a muita gente:

“We learned too much at school now we can’t help but see that the future that you’ve got mapped out is nothing much to shout about.”

Contrariamente ao que pretenderam os críticos da Escola Pública dos anos 60 e 70, que insistiam em ver nela um mero aparelho de poder ao serviço da inculcação da ideologia dominante, a canção de Cocker mostra que a passagem pela escola pôde ser, para muitos dos que nasciam nas classes sociais “erradas”, a condição para a construção de uma consciência crítica, capaz de questionar, de desafiar e de superar os mapas impostos por essa ideologia.

Em grande medida, o desmantelamento no Reino Unido das infra-estruturas de apoio aos grupos mais desfavorecidos, a começar pelo acesso a um ensino tendencialmente gratuito, não só pôs fim a experiências pop como o grupo de Jarvis Cocker – uma pop impregnada de crítica social e de “consciência de classe” –  como, sobretudo, produziu nos subúrbios das grandes cidades massas de jovens destituídos de perspectivas de futuro, condenados ao desemprego estrutural e desprovidos, nas suas cabeças, do mais pequeno vestígio de crítica contra-hegemónica ou anti-sistémica. Incapazes, portanto, de ser portadores de qualquer alternativa digna desse nome.

Engrossando as fileiras de um “lumpen-proletariado” que não cessa de crescer, a violência protagonizada por esses jovens acontece de uma forma espasmódica, dispersa, catártica e sempre volátil e inconsequente, oleada por uma testosterona que tem de desaguar para algum lado.

 

 Sintomático é que, na Londres de 2011 como em Paris de 2005, o confronto com as autoridades e a expansão de uma violência rapidamente generalizada tenha sido despoletada por episódios de abuso policial – “detalhe” não propriamente negligenciável e que revela os abismos de tensão social a que se chegou.

Mas o mais deprimente é constatar o total vazio ideológico – ou simplesmente cognitivo – que anima esta violência. Os jovens que partiram montras e arrombaram lojas para pilhar televisores e roupas de marca, os jovens que incendiaram carros e destruíram casas das suas próprias zonas de residência, os jovens que agrediram vizinhos e que, quando descendentes de imigrantes, atacaram membros dos seus próprios grupos étnicos ou de grupos afins, representam o paradoxal triunfo da tal ideologia dominante: ataca-se o que está mais à mão, nem que seja o sítio onde se dorme, e o consumismo como forma de vida não é minimamente posto em causa – é apenas objecto de desejo e de inveja. Pode o oprimido espelhar melhor os valores do opressor?

É provável que estejamos perante uma “luta de classes” que não ousa dizer o seu nome. Mas trata-se de uma luta reduzida ao grau zero da consciência política. Luta esquálida, linear e nua, entre os que têm e os que querem ter o que os outros têm – sem que a estrutura de poder inerente aos objectos possuídos e à sua distribuição seja minimamente interrogada. 

A revolução, de facto, não passa por aqui.

 

2 Respostas to 'Verão quente de 2011 ou o mal-estar da civilização'

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  1. Fernanda said,

    A “revolução” passou pelos anos 60 e 70 a todos os níveis da sociedade de então. Com grande componente ideológica e de organização política e partidária.Depois, acabou tudo enquadrado pelo establishment.(abridged e adapted).

    O que interessa analisar é qual será o futuro destes recentes tumultos sociais como os que aconteceram em Londres. Creio que teremos de repensar a ideia de “revolução”. Muito poderá vir a ser semelhante ao que aconteceu nas décadas anteriores. Mas muito será diferente, porque diferente é o tipo de modelo económico, social e cultural que vivemos.O que me parece é que tudo será finalmente “integrado”. Caso contrário, a coisa pode complicar-se….

  2. Zé Manel said,

    Apenas gostaria de acrescentar um detalhe que me parece decisivo aos lúcidos comentários aqui expressos e que desmontam por completo as veleidades pseudo-revolucionárias dos tumultos ingleses. Quase ninguém se referiu à viragem dessa luta. Os ataques sucederam-se e alastraram até ao ponto em que os trabalhadores e pequenos lojistas se uniram, formando verdadeiras milícias populares de bairro que passaram a fazer frente à barbárie. Foi aí que os grupos de misfits perceberam que estavam a enfrentar um inimigo mais estruturado e decidiram pôr os rabinhos entre as pernas, sumindo-se no anonimato de onde tinham vindo….


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