APEDE


Há um ano atrás…

Posted in Congelados e à espera de melhores dias por APEDE em 12/09/2011

Há um ano atrás escrevemos aqui uma série de “posts” nos quais reflectíamos sobre a necessidade de surgirem novos movimentos sociais, amplos, lúcidos e determinados, com cadernos reivindicativos bem estruturados e dispostos a recorrer a formas, pacíficas mas contundentes, de desobediência civil.

Parecia-nos então ser essa a única resposta à altura do mais virulento ataque, em 30 anos de democracia, ao resultado mais palpável que saiu da Revolução de 1974-75: o Estado-Providência que se foi construindo neste país, Estado frágil e tantas vezes ineficiente, mas, ainda assim, único meio de garantir alguma justiça social e distribuição de riqueza numa sociedade que se reconhece ser uma das mais desigualitárias da Europa.

Parecia-nos também ser essa a única maneira de construir alternativas políticas a um sistema dominado por partidos cada vez mais clientelares e por um sindicalismo esclerosado, minado por agendas raras vezes coincidentes com os interesses reais dos trabalhadores.

Não tínhamos grandes ilusões. Sabíamos apenas que, neste caso, ser utópico era a única forma possível de realismo.

Chegados ao ponto em que agora nos encontramos, há que reconhecer estarmos talvez ainda mais longe das condições que poderiam assistir à emergência desse movimento.

Evidentemente que os “profissionais da luta” – os especialistas em coreografar pseudo-lutas para marcar calendário ou dar prova de vida – continuam a proclamar que vêm aí tempos de grande contestação e agitação social. E até ouvimos recentemente Passos Coelho, como reflexo invertido dessa mesma coreografia, insinuar ameaças para supostas tempestades de rua que ninguém vê e que só alguns lunáticos imaginam – convencidos de que podem reproduzir aqui as revoltas gregas ou os vandalismos londrinos, e crentes de que isso corresponderia a uma grande transformação revolucionária.

É verdade que se tentou montar no Rossio uma imitação do género de manifestações alternativas ensaiadas em Espanha. Como quase sempre acontece com as imitações por cá praticadas – o Eça é que sabia -, o resultado desta pautou-se pelo pífio e pelo folclórico-circense, e esvaziou-se no meio da indiferença geral e de uma intervenção parva da polícia. 

Entretanto, se alguma lição a Grécia e a Espanha  nos têm dado é, justamente, a de que as escaramuças e as ocupações de rua não alteram um milímetro nas políticas de destruição dos direitos sociais e laborais em que os Estados da zona euro estão empenhados. Falta-lhes o que faltou, em Portugal, à luta dos professores nos idos de 2008: passar da rua para os locais de trabalho e para as instituições do Estado.

O pessoal até pode arriscar-se a atirar umas pedras e, no limite, a erguer umas barricadas no meio da avenida. Mas parece que não está disposto a correr o risco de dizer “não” no seu local de trabalho. Os que têm trabalho, claro.

Contrariamente aos “profissionais da luta”, há quem diga que tempos de crise aguda não são propícios a grandes reivindicações e acções de combate. A malta tem medo de perder o emprego ou de ver o salário baixar ainda mais. Quanto aos desempregados, sobretudo os de longa duração (que são cada vez mais), esses pertencem a uma massa silenciosa e silenciada, tornada invisível pela produção mediática de “faits-divers” e pelos balbuceios consumistas a que a nossa classe média ainda se agarra.

Também há quem diga (e se regozije) que isto é mesmo um país de brandos costumes, e que a malta prefere contrariar esse ditado na pancadaria em estádios de futebol ou na estalada que se despeja sobre a mulher ou sobre o filho. Canalizar essa agressividade para a contestação social é que não, cruzes canhoto, que há coisas mais urgentes a fazer e importante mesmo é discutir acaloradamente a decisão do árbitro no jogo entre o Merdaleja Futebol Club e o Arpalhais de Cima.

Por fim, há igualmente os que sustentam, malgré Cavaco Silva, que os portugueses não chegaram ainda ao final da linha. Que ainda têm dinheirito no bolso, suficiente para a bica, o maço de tabaco, a gasolina e as férias no “Allgarve”. O que nos leva a perguntar: quantos direitos (e quanto dinheiro) têm os portugueses de perder para finalmente se agitarem a sério? Existe algum limiar de tolerância ou, entre nós, a elasticidade da espinha dobrada consegue desafiar as leis da física?

São perguntinhas singelas que aqui deixamos, passado um ano sobre o ano laboral que agora começa.

(Repararam, certamente, que não falámos do fabulástico modelo de avaliação dos professores que agora foi acordado por aqueles que nos querem pôr a dormir)

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