APEDE


Até quando?

O último livro de Robert Reich, publicado entre nós, analisa a evolução profundamente desigualitária do capitalismo norte-americano. O que ele diz, cuja síntese pode ser lida neste seu artigo (dando o desconto aos “exotismos” da tradução brasileira), aplica-se, contudo, não apenas aos Estados Unidos mas à tendência global do sistema capitalista dos dias de hoje, e explica muito do que está a acontecer nessa parte da Europa que dá pelo nome de «União Europeia».

O argumento de Reich, que um economista como Joseph Stiglitz tem vindo também a sublinhar, resume-se de forma simples (mas não simplista):

Existe um paralelismo entre as condições que precederam a Grande Depressão de 1929 e o que Reich chama a Grande Recessão que estamos agora a atravessar. Uma e outra caracterizam-se por um padrão altamente desigualitário de distribuição e concentração da riqueza: de um lado, uma ínfima minoria que se apropria de uma larga percentagem do bolo; do outro, uma maioria crescentemente depauperada. Esta assimetria foi conseguida graças a uma política fiscal inteiramente favorável aos muito ricos, apostada em drenar classes médias cada vez mais empobrecidas, e à retracção/demolição dos serviços e das políticas sociais do Estado.

Acontece, no entanto, que o sistema capitalista só se aguenta através do fomento da procura e, por conseguinte, de estímulos ao consumo. A política de concentração da riqueza nas mãos de uns poucos não é compatível com esse desiderato quando a grande massa dos trabalhadores – os consumidores por excelência daquilo que a economia tem para “oferecer” – se vê desprovida dos meios que lhe permitiriam aceder ao consumo e à melhoria do seu nível de vida: salários razoáveis ou elevados e redistribuição por via de impostos progressivos. Nesse cenário, só resta ao sistema uma alternativa: promover o endividamento das famílias através do recurso ao crédito. Crédito para a compra de casa própria, crédito ao consumo em geral. Isto conduz ao crescimento exponencial da financeirização da economia, com uma série de consequências perversas, entre as quais se destaca a multiplicação de produtos financeiros altamente especulativos, feitos para atrair o rendimento disponível das grandes fortunas, mas quase sempre condenados, mais tarde ou mais cedo, a rebentarem, ao mesmo tempo que rebentam com a economia “real”.

O efeito mais perverso é, porém, o endividamento em cadeia: as famílias endividam-se, a banca endivida-se para alimentar o endividamento das famílias e, por fim, são os Estados que se endividam para sustentar uma banca que, entretanto, fica à beira do falência quando o elo inicial da cadeia (e o mais fraco) se mostra insolvente. É que um sistema assente no endividamento tem esse “pequeno” problema: funciona muito bem enquanto as pessoas conseguem pagar os juros da dívida. Mas está provado que, numa economia de baixos salários, mais tarde ou mais cedo as pessoas deixam de poder fazê-lo. O resultado é o esboroar de todo o edifício.

É aí que nos encontramos: em plena derrocada.

Mas, como Reich demonstra, a dívida (que agora chamam “soberana”) não é a raiz do mal. É somente um sintoma. E um sintoma que serve de cortina de fumo para tapar o problema real.

A origem de tudo isto, a doença de que o sistema padece, radica na concentração obscenamente desigual da riqueza. Que, à escala “tuga”, um Belmiro ou um Amorim tenham visto as suas fortunas a aumentar no decurso deste ano é um sinal eloquente da esquizofrenia em que estamos metidos.

A pergunta a fazer é: até quando pode durar este estado de coisas? Está-se mesmo a ver que um sistema assim é insustentável e auto-contraditório. Não precisamos de ler Marx para percebermos que a crescente concentração de riqueza numa escassa minoria da população constitui um dos limites estruturais do sistema capitalista: ultrapassado esse limite, é o sistema que implode, não necessariamente porque as “massas” se revoltem e imponham a solução socialista, mas porque o próprio sistema não consegue responder à necessidade de gerar procura para a oferta produzida. Chama-se a isso «recessão» – um tipo de patologia que não se pode prolongar indefinidamente.

Nos anos 30 do século passado, um senhor chamado Roosevelt compreendeu essa insustentabilidade, lançando uma série de políticas que, na prática, se traduziram por uma redistribuição e desconcentração da riqueza a favor das classes médias e por uma certa desproletarização dos trabalhadores – tendência que se aprofundou nos Estados Unidos e na Europa industrializada a seguir à Segunda Guerra. Na altura, o «espectro do comunismo» no Leste europeu também representava um aguilhão que levava à adopção dessas políticas.

Hoje, o grande drama dos trabalhadores no mundo capitalista ocidental é que não há Roosevelts. Há só Obamas, Merkels, Barrosos, Sarkozys e Coelhos – gente miudinha, ceguinha pela cartilha ideológica dominante, e empenhada em dar vida a uma financeirização da economia que entrou, claramente, em colapso.

Enquanto estes pobres comediantes continuarem na cena da decisão política, sem perceberem que o mundo deles acabou, somos nós todos, os que vivem apenas do seu trabalho (e os muitos que já nem sequer têm essa possibilidade), quem irá sofrer a falta terrível de políticos com um mínimo de visão.

Notem que já nem sequer pedimos uma revolução. Para já, contentávamo-nos com um Keynes…

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