APEDE


Do sindicalismo-que-temos ao sindicalismo-que-gostávamos-de-ter

Posted in Sindicatos por APEDE em 07/10/2011

(Desta vez vai assinado, por razões óbvias)

Na caixa de comentários do “post” anterior, o Francisco Santos deixa lá um desafio que merece resposta. Pede-me ele que deixe de falar só do sindicalismo-que-temos e que indique referenciais para o sindicalismo que eu gostava de ter. Ele sabe que eu sei que ele sabe que nenhum dos candidatos a “referencial” por ele mencionados representam, para mim, alternativas ao tal sindicalismo-que-temos. Por aqui ficamos conversados.

Também não me vou repetir sobre as razões pelas quais me parece que o sindicalismo-que-temos está, por ora, suficientemente blindado para resistir a quaisquer iniciativas de transformação interna. Já falei “n vezes” da oligarquização dos sindicatos para me estar a repetir nessa matéria. Em relação aos sindicatos tenho de me conformar com a evidência dos limites estruturais que se colocam a certas acções transformadoras: há constrangimentos impostos por determinados contextos sociais e políticos que não conseguimos evitar ou contornar. Se vivêssemos numa situação pré-revolucionária, com toda a mobilização que ela pode acarretar, talvez fosse possível que grupos organizados de pessoas, animados pelo projecto de transformar toda a estrutura e funcionamento dos sindicatos, tomassem democraticamente o poder dentro dessas estruturas e lhes dessem uma volta de 180º. Como as coisas estão actualmente, parece-me chover no molhado. Isto para preâmbulo.

Mas há algo de que me apetece falar. Não é bem aquilo que o Francisco quer, mas é uma coisa que me dá “mais tese” (como diria o bom do Fragoso Fernandes – “private joke” só para os “very few”).

Apetece-me falar do sindicalismo-que-gostava de ter, o qual, por acaso, é muito parecido com o sindicalismo-de-que-precisamos. Antes de lhe enunciar aqui as qualidades, impõe-se uma ressalva. Quando me refiro às maleitas do sindicalismo-que-temos, estou ciente de que elas não existem apenas nos sindicatos nacionais. Hoje fala-se muito da crise geral do sindicalismo, que não está distribuída da mesma forma por todos os países, mas que afecta fortemente várias regiões da Europa, de que a França, com taxas de sindicalização inferiores a Portugal em diversos sectores, é um bom exemplo. Portanto, eu começaria por dizer, indo à tal lista de “virtudes” sindicais, que

– gostava de ter sindicatos com direcções que não assobiassem para o lado quando se fala de crise do mundo sindical, que procurassem compreender os motivos profundos para a diminuição drástica de trabalhadores sindicalizados, que não se precipitassem a lançar as culpas disso para a escassa consciência política dos malandros dos trabalhadores, e que, finalmente, tentassem ver a relação existente entre as suas práticas e a hemorragia no número de associados. Claro está que este é um desiderato difícil de atingir quando se constata que as direcções sindicais estão mais interessadas em se perpetuar no poder, custe o que custar, independentemente do que possa estar a acontecer à substância das organizações que dirigem.

– Também gostava de ter sindicatos que fossem efectivamente independentes de agendas e de estratégias (ou tácticas) político-partidárias. Estas colonizaram por completo as federações sindicais deste país, tendo estado, aliás, na sua génese. E, neste caso, o que nasceu torto não tem cura possível – ou, pelo menos, previsível nos tempos mais próximos. Poder-se-á dizer que as agendas político-partidárias não são, necessariamente, um mal, e que tudo depende do seu conteúdo. Mas a experiência tem provado, à saciedade, que só de modo fortuito essas agendas coincidem com os interesses reais dos trabalhadores, já que elas obedecem a lógicas próprias, muitas vezes em contradição com esses interesses.

– Gostava, por isso, de ter sindicatos que, à mesa das negociações, não traíssem os interesses dos trabalhadores que dizem representar, que não colocassem à frente de tais interesses as referidas agendas e os citados projectos pessoais de perpetuação no poder, que não trocassem aquilo que deveria ser o seu objectivo maior pela vaidade efémera, ou pela obscura jogada táctica, de aparecer na fotografia ao lado do ministro mais prazenteiro ou da ministra mais beijoqueira.

– Acima de tudo, gostava de ter sindicatos mais combativos – tão urgentes nos tempos que correm. Sindicatos que estivessem sistematicamente presentes nos locais de trabalho e que mobilizassem, para isso, os largos meios de que dispõem – que só são postos em marcha quando se trata de preencher o noticiário com mais uma manifestação que até pode ter muitos milhares, mas cujo efeito se esgota no dia seguinte (e que, por isso, me impressionam muito pouco). Sindicatos presentes no maior número possível de locais de trabalho, e não num ou noutro escolhidos a dedo para marcar o ponto de rotineiras reuniões sindicais a que poucos comparecem. Sindicatos realmente dispostos a ouvir os trabalhadores, a auscultar-lhes os desejos e as angústias. A aprender com eles e a agitá-los quando for preciso. Afinal, a fazerem o tipo de coisas que os sindicalistas realizaram em épocas bem mais árduas e difíceis, em situações de ditadura e de total privação de direitos laborais.

(É que há aqui um equívoco que importa desfazer: eu tenho muito respeito e admiração pelos dirigentes sindicais que lutam pelos direitos dos trabalhadores em condições duríssimas, que são muitas vezes presos, torturados e assassinados. Tenho muito respeito e admiração pelos sindicalistas que, de raiz, inventaram e reinventam o sindicalismo onde ele não existe. Não tenho é grande consideração pelos dirigentes que fazem sindicalismo de sofá, que preferem o conforto e o reconhecimento dos gabinetes ministeriais à verdade nua e crua dos locais de trabalho, a qual se limitam a evocar em retóricas mais ou menos floreadas)

– Por fim, gostava de ter sindicatos (e dirigentes sindicais) dispostos a pisar o risco em situações excepcionais, como a que vivemos agora. Que não hesitassem, tomando o pulso ao que se passa no terreno, em partir para lutas que, sendo pacíficas, assumissem a ruptura com a legalidade instituída sempre que esta represente uma injustiça e um reforço dos mecanismos de exploração dos trabalhadores (sim, o jargão é marxista, e tem mesmo de ser). Não foi da desobediência civil que o sindicalismo nasceu? No momento actual – e é óbvio que não estou a falar (só) de Portugal – o sindicalismo precisa de reatar com a sua matriz histórica, feita de lutas radicais e ilegais, se quiser desempenhar algum papel de relevo nos combates que se avizinham.

Sei que não respondi ao que o Francisco Santos queria, e adivinho o rol de objecções. Mas é disto que, no meu modesto entender, importa falar aqui e agora.

                                                                                                       Mário Machaqueiro

9 Respostas to 'Do sindicalismo-que-temos ao sindicalismo-que-gostávamos-de-ter'

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  1. Leitor said,

    Excelente síntese da sindicologia estéril com o radicalismo anárquico, servida em linguagem esquerdista.

    • Mário Machaqueiro said,

      Vargas,

      É pedir muito um bocadinho mais de esforço para você dizer uma coisa inteligente? E lá no partido não conseguiram escolher alguém para nos vir aqui chatear que tenha, ao menos, dois dedos de testa?

  2. maria said,

    O “leitor” faz-me lembrar o “emplastro” ou o Relvas do Governo.
    Já agora, quanto custou a nova sede da fenprof no Funchal? As sedes do continente foram já um sinal de luxo…
    Neste momento, de tanto sofrimento, o “leitor” pode informar se tencionam adequar o valor que os associados pagam?´Já eram os valores mais elevados de Sindicatos de Professores europeus!
    O fato de ser funcionário cria- lhe um sindrome que é perigoso, para nós professores.. Só ouve os seus comparsas e diz “yes” aos que lhe asseguram um poderzito que o fazem sentir importante.

  3. Leitor said,

    Caríssima “maria”:
    Noto que anda angustiada com alguns breves comentários que por aqui faço contrariando o tom anti-sindical da casa.
    Para sua tranquilidade, venho informá-la que não sou funcionário de coisa nenhuma, nem representante de quem quer que seja, a não ser de mim próprio. De modo que o meu unico “poder” advém de ter ou não razão naquilo que afirmo.
    Em todo o caso, terei todo o gosto em dar a minha opinião sobre as dúvidas que coloca, desde que faça as perguntas com um mínimo de cordialidade e não se note tão claramente que se trata dum comentário “encomendado”.
    Tenha um fim-de-semana agradável na companhia dos “sindicólogos que tanto aprecia. Porque a “luta” dos ideólogos do espontaneísmo faz-se, principalmente, no sofá, atacando as teclas.

    • Mário Machaqueiro said,

      Ao passo que a luta do «Leitor» faz-se em órgãos tão condignos como o CNE. Pois…

  4. Mário Machaqueiro said,

    Sectarismo: pensar que aqueles que criticam as práticas da maioria das direcções sindicais das federações e sindicatos que temos são, necessariamente, anti-sindicalistas. É o mesmo que pensar que os críticos do chamado «socialismo real» da União Soviética e dos seus satélites têm de ser, forçosamente, anti-comunistas. Tudo depende, claro está, da estreiteza das nossas definições…

  5. fjsantos said,

    Mário,
    Reconhecendo o teu esforço em dar resposta à questão (irónica) que deixei no post anterior, tenho que recomendar-te a imersão na realidade sindical, para que a tua “crítica” deixe de ter por fundamento o preconceito e passe a ter em atenção as diversas práticas sindicais existentes no terreno.
    É que, infelizmente para a tua análise, tomas uma parte (que por acaso é a que maior peso tem) pelo todo.
    As práticas que recomendas aos “sindicalistas que gostarias de ter”, pelo menos no caso dos sindicatos de professores, são uma constante, por exemplo, no SPRC. Informa-te melhor junto dos colegas de escolas dos distritos de Viseu, Guarda, Castelo Branco ou Coimbra, e perceberás a injustiça de muitas das críticas que fazes.
    Infelizmente para ti, e para muitas das teses sobre agendas partidárias, elas aplicam-se que nem uma luva aos sindicatos onde as direcções são constituídas pela distribuição de “tendências” e quotas partidárias, com exclusão (e como forma de exclusão) do PCP (desde sempre na UGT, mas também em alguns sindicatos filiados na CGTP.
    Investiga, de espírito aberto, e talvez descubras que muito do que preconizas já é quotidianamente posto em prática por sindicalistas que regularmente fustigas com críticas sem fundamento.

    • Mário Machaqueiro said,

      Francisco,

      Não vale a pena falares dos sindicatos da UGT. Todos sabemos o que está no seu código genético. O problema é que apresentas o PCP como uma vítima infeliz de malfeitorias no mundo sindical, quando estamos marrecos de saber que esse partido domina o essencial desse mundo.
      Queres então convencer, a mim e a quem nos leia, que não há sindicatos controlados pelo PCP? E queres convencer-nos de que esses sindicatos não cumprem, à risca, a estratégia que o PCP define para eles (estratégia que, muitas vezes, só no plano retórico coincide com os interesses dos trabalhadores)? Queres mesmo que acreditemos nessa história da carochinha? São todos culpados de controleirismo, menos o PCP, que é uma virgem pura e imaculada!
      É verdade que só fui sindicalizado muito episodicamente, pois depressa me apercebi do que a casa gasta. Mas, infelizmente para o teu argumento, fiz há uns atrás parte de uma organização – o SOS Racismo – e pude constatar o tipo de métodos e de truques que o PCP usou para tentar tomar o controlo dessa organização. Houve uma assembleia-geral em que apareceu de tudo – até um friso de velhinhas arrebanhadas de algum centro de trabalho que não faziam ideia do que lá estavam a fazer, mas que votavam naquilo que o “maestro” lhes indicasse.
      O teu argumento implícito já tem barbas: no PCP e nas suas organizações-satélite é tudo muito transparente (com “paredes de vidro” e tudo), muito democrático, há sempre muita discussão… desde que as resoluções aprovadas sejam as que as direcções apresentam. E sempre que o impossível acontece – uma resolução dissidente passar pelo crivo e ser aprovada -, logo se erguem barragens de censura interna e de bloqueio. Ok, tu queres que eu diga que no SPGL, com a actual direcção, as coisas não correm melhor. Pois não. Mas sabes porquê? Porque, no essencial e apesar de os actuais corpos dirigentes não terem sido ganhos pela lista em que concorreste (a do PC, claro), a linha de actuação do SPGL continua a pautar-se pelas orientações da direcção da FENPROF (essa sim, controlada pelos teus amigos).
      No meio disto tudo, está-se mesmo a ver quem sai a perder: esse detalhe negligenciável chamado «professores».

  6. Mário Machaqueiro said,

    Mas, vistas bem as coisas, a resposta que te dei passa ao lado do fundamental. Fundamental mesmo é saber se, com PC ou sem PC, há algum sindicato – nomeadamente de professores – que preencha os pontos que considero desejáveis no “post” que escrevi. E a questão é que, pelo menos em Portugal, não há, como a mais elementar honestidade intelectual obriga a reconhecer.


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