APEDE


Outro texto inteligente (e fundamental)

Posted in Contra a miopia analítica,Gostávamos de escrever assim por APEDE em 15/10/2011

Rui Bebiano, um dos melhores bloggers da nossa praça, assina aqui um texto de uma enorme pertinência para pensarmos o momento actual, indo ao encontro de muito do que temos dito.

Esse texto permite-nos perceber o duplo drama em que estamos metidos:

– De um lado, os políticos que se vão alternando nos governos e que se limitam a gerir o que existe, sabendo que essa gestão não encerra quaisquer soluções ou perspectivas de futuro, e sabendo também que a acumulação de austeritarismo só vai produzir a “necessidade” de mais austeritarismo, numa espiral sem fim e sem saída. Podemos dizer, claro está, que tais políticos estão, no fundo, a executar um perverso programa de direita neoliberal, apostado em transferir para os muitos ricos o que ainda resta dos rendimentos de uma classe média cada vez mais empobrecida. Mas, como já referimos antes, este programa é suicidário até do ponto de vista dos interesses da minoria abastada. Pela simples razão de que a corda não pode ser indefinidamente esticada. Nalgum ponto ela irá quebrar e, quando isso acontecer, os ricos não terão motivos para ficarem contentes: a base social da sua riqueza ter-se-á volatilizado numa das curvas da espiral de austeridade. Portanto, de um dos lados do torniquete que nos atormenta só podemos esperar mais do mesmo: uma vertigem de irracionalidade política e económica.

– Mas, do outro lado o panorama não é mais risonho: aqueles que poderiam protagonizar as alternativas parecem incapazes de as articular num programa político consistente e mobilizador. Já o dissemos várias vezes: os que, pela sua tradição histórica, deveriam ser os representantes “naturais” dos interesses dos trabalhadores – partidos de esquerda e sindicatos -, estão eles mesmos conformados em gerir o que existe. Neste caso, empenhados em garantir a sobrevivência dos nichos que conquistaram no sistema de representação parlamentar ou na concertação social. É certo que ainda vão agitando algumas bandeiras de protesto para marcarem presença. Mas não saem daí com propostas que levem o cidadão comum a admitir que haja, por essas bandas, uma alternativa capaz de produzir uma solução de governo credível.

Pois é disso que se trata. As alternativas, para o serem de facto, têm de se transformar numa estratégia de governação do país. 

E não se diga que, na verdade, elas não existem e que estamos, por isso, condenados à política da “troika”, como nos querem fazer crer as vozes do dono que ontem se fizeram ouvir até à náusea nas televisões.

Há realmente outro caminho, temos quem pense outras soluções técnicas em termos económicos e financeiros, baseadas em lógicas que rompem com o círculo vicioso do austeritarismo recessivo. E, não por acaso, até são essas as soluções que nos permitiriam sair da crise. Basta irmos acompanhando o que se escreve no blog «Ladrões de Bicicletas», produzido por economistas que pertencem ao melhor da nossa academia, mas que, por estarem totalmente desalinhados do “consenso” neoliberal, não têm a audiência que merecem.

As alternativas, portanto, existem, e estão aí para quem as queira entender. O que não existe, o que continua a não existir, é uma força política que pegue nessas soluções e as converta num programa político que atravesse a sociedade portuguesa e que conquiste o eleitorado.

E é esse vazio que reduz, drasticamente, o impacto futuro das manifestações que se vão realizar neste dia 15 de Outubro. 

Nós vamos lá estar. Mas com a consciência amarga de que não chega protestar quando não se consegue actuar politicamente para lá do protesto.

(E, por favor, não nos digam que essa actuação passa por coisas como «assembleias de rua» ou «acampadas». Poupem a nossa inteligência!)

Uma resposta to 'Outro texto inteligente (e fundamental)'

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  1. maria said,

    O nosso problema e de outros povos é a ameaça à Democracia, serem 2 países sem mandato europeu a decidir e esquecendo como, sobretudo a Alemanha, nos deve os vários perdões de dívidas.
    O problema interno é a dívida externa e não o déficite…
    Quanto ao ataque aos salários dos professores interrogo-me quem paga os salários dos “professores” de EMRC? Nós ou o Episcopado?
    Quanto a impostos, as igrejas e catedrais, como a de Fátima, pagam IMI?
    Ontem não vi padres, freiras, bispos ou cardeal ou cónego( à paisana) no moovimento dos indignados… Têm emprego e salário garantido? Esperava vê-los como cidadãos…


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