APEDE


Mais uma?

Posted in O eterno retorno do mesmo por APEDE em 18/10/2011

Paulo Granjo, uma das formas de vida inteligente da blogosfera nacional, assina aqui um “post” cuja mensagem nos deixa perplexos. Por que é que uma greve geral de dois dias é mais eficaz do que uma de apenas um só? Melhor dizendo: por que é que se pensa que uma greve geral de dois dias consegue redimir a ineficácia de uma greve geral de um dia?

A perplexidade resulta do facto de que nem o autor do dito “post”, nem os comentários ao mesmo, se detêm, por um segundo, nesta realidade mais do que óbvia (para quem quiser usar os olhos sem as palas ideológicas do costume): todas as greves gerais de um dia têm-se mostrado, em Portugal como noutros países, de uma ineficiência gritante. Na melhor das hipóteses, servem como forma de protesto. Trata-se, contudo, de um protesto que sai dos bolsos dos grevistas sem qualquer retorno assinalável. O mesmo efeito é atingido, de forma muito menos dispendiosa, através do protesto de rua, em concentrações ou manifestações invariavelmente inócuas.

Alguém é capaz de apresentar um único exemplo de uma greve geral de um dia (ou de dois) que tenha feito um governo recuar nas suas políticas (ou que tenha feito vergar o patronato)? Para quê então insistir nesta “forma de luta” mais do que estafada cujo exercício, no nosso país, tem estado praticamente limitado aos funcionários públicos e aos trabalhadores de empresas públicas e, mesmo entre esses, com expressão maior no sector dos transportes e alguma expressão, em declínio, no ensino e na saúde? Para quê, a não ser para que o sindicalismo-que-temos dê prova de vida e finja que tem iniciativas?

Já o dissemos aqui noutras vezes: o conceito de greve geral sofre, hoje, de uma acentuada amnésia. Tempos houve em que se pensava que uma greve geral podia derrubar um governo e, no limite, abrir caminho para uma revolução. Não foi por acaso que Georges Sorel, nos seus tempos de anarco-sindicalista – antes de involuir para coisas bem medonhas -, pugnou pela greve geral como a grande forma de luta laboral e política dos tempos modernos. Claro está que isso era na época em que as greves, quando se faziam, se prolongavam por tempo indeterminado. Incluindo a greve geral. Nessa altura, não se pensava que a greve serve, essencialmente, para “protestar”. Não: a greve era usada para obrigar o antagonista a negociar um determinado caderno reivindicativo e/ou a ceder a uma exigência dos grevistas. Como é que julgam que se conquistou a jornada das 8 horas? Acham que foi com grevezinhas de um dia, uma vez por ano? Pois é: foi com greves por tempo indeterminado, mantidas até que o “outro lado” cedesse.

Por isso, Sorel e muitos outros acreditavam que uma greve geral, por tempo indeterminado, seria bastante para forçar um governo à demissão e, em última instância, para conduzir a uma mudança política substancial. Haveria nisto algum exagero utópico. Mas a verdade é que se tinha uma noção de que a greve – forma reivindicativa sempre duríssima para quem a exercia – possuía uma força avassaladora.

Foram precisas muitas décadas de sindicalismo mole e de esquerda tótó para chegarmos a esta concepção degradada da greve geral: um dia de protesto, mais ou menos pífio, que só serve para o Estado embolsar milhares de euros em salários não pagos.

Perguntarão os nossos queridos leitores: então vocês advogam a greve geral por tempo indeterminado como única forma de luta realmente eficaz? Então vocês não sabem que isso é impraticável? Então não vêem que os trabalhadores não conseguiriam aguentar uma greve como essa, atendendo aos encargos que têm pela frente (contas para pagar, o empréstimo da casa, as propinas dos filhos, etc., etc.)? A estas perguntas, consideradas super-evidentes pelo senso comum, apetece-nos responder assim: no princípio do século XX, os trabalhadores que assumiam fazer greve por tempo indeterminado confrontavam-se, não com o incumprimento dos encargos acima referidos, mas com uma consequência muito mais “comezinha” e brutal: passar fome por não terem dinheiro (dos salários) para pagar a comida. Mas sabem que mais? Mesmo assim, faziam greve por tempo indeterminado. Será que era por causa daquela história de não terem nada mais a perder do que as grilhetas que os amarravam? Se calhar era. O que suscita a questão incómoda de saber se é necessário regredirmos às condições laborais e sociais de 1900 para que os trabalhadores portugueses – e outros por esse mundo fora – percebam que só com formas de luta radicais conseguirão inverter a política de terra queimada imposta pelos actuais governos.

Uma coisa é certa: se chegarmos à conclusão de que o pessoal não consegue aguentar mais do que um dia de greve, então é melhor toda a gente meter a viola no saco e aceitar uma vida no redil. Porque greves gerais de um dia (ou de dois) não irão modificar um átomo do pântano social em que nos estão a enterrar.

2 Respostas to 'Mais uma?'

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  1. subcarvalho said,

    …e mais não digo!
    parabéns pela posta!


  2. […] se reclamam de um pensamento mais à esquerda na sociedade portuguesa, que acusam o PCP de querer controlar os movimentos sociais, impedindo a espontaneidade característica de um individualismo exacerbado que campeia entre os […]


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