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Fim de ciclo

Posted in Ai Portugal por APEDE em 20/10/2011

Podemos sempre invocar as causas externas do desastre social que estamos a viver. Podemos dizer que as políticas europeias estão a conduzir a Europa para uma queda sem fim num abismo ao qual é sempre possível acrescentar mais uns metros. Podemos acusar os seguidores domésticos das receitas do FMI de nada terem aprendido com as catástrofes latino-americanas e africanas que tais receitas geraram.

Podemos (e devemos) fazer tudo isso. Mas o que não podemos é ignorar o que a tremenda crise actual revela sobre o nosso país.

Estamos a chegar ao fim de um ciclo. Um ciclo que foi parcialmente aberto com o 25 de Abril de 1974, mas que teve o seu verdadeiro início no 25 de Novembro do ano seguinte. Encerrando o breve, mas intenso, período experimental da luta de classes de onde resultaram as conquistas básicas do nosso «Estado social»,  0 25 de Novembro de 1975 criou as condições para a estabilização do sistema que vigorou até agora:

– No plano político, uma democracia representativa, dita “liberal”, dominada por partidos oligarquizados e clientelares, dos quais dois (PS e PSD, por vezes em arranjos com o CDS) se alternam na partilha das sinecuras do Estado e no serviço dos grandes grupos económicos, a par de uma esquerda institucionalizada, sobretudo empenhada em preservar os seus nichos de representação parlamentar e de controlo nalgumas autarquias, e em manter o domínio sobre as direcções dos principais sindicatos.

– No plano económico, a manutenção dos mesmos de sempre – as poucas famílias que há muito vêm dominando a economia nacional – à frente de sectores tradicionalmente associados a monopólios protegidos da concorrência, deixando para as pequenas e médias empresas, quase sempre à margem da inovação tecnológica, a tarefa de criar os tais «bens transaccionáveis». Corolário deste modelo: a aposta nos baixos salários como único factor «competitivo».

37 anos de democracia não alteraram o padrão estrutural acima descrito. Pelo contrário: agravaram-no. A entrada na União Europeia – então ainda designada como CEE – e o posterior ingresso na zona euro só vieram dispensar os nossos governantes, as nossas “elites” políticas e económicas, da necessidade de efectuar as rupturas que se impunham para acedermos a uma social-democracia sustentada e sustentável. Seguindo uma tradição histórica que, em Portugal, é multissecular, as oportunidades que então surgiram foram sistematicamente desperdiçadas por essas “elites” ignaras e indolentes: os fundos estruturais europeus perderam-se num mar de oportunismos estéreis e de corrupção galopante, servindo, quando muito, para alimentar a indústria do betão. Nada se fez de molde a reformar o nosso tecido produtivo e o nosso modelo industrial; desmantelou-se a agricultura para fazer crescer, em seu lugar, uma imensa mancha florestal de eucalipto destinada à pasta de papel e aos incêndios de Verão (uma novidade  das últimas décadas), enquanto se estimulou o crescimento exponencial dos mega-retalhos, assentes na importação dos bens alimentares que deixámos de produzir.

A adopção do euro acentuou, como hoje se percebe, todas as nossas insuficiências. Privados de soberania monetária, tornámo-nos ainda menos competitivos nas exportações – a tal panaceia a que hoje se agarram os tristes governantes que nos couberam no azar. Em contrapartida, tivemos acesso fácil ao crédito, à conta de taxas de juro baixas. O resultado está à vista: um endividamento em cadeia, com o sector financeiro a hipertrofiar e a endividar-se junto da banca estrangeira para alimentar os vícios que criou numa pequena burguesia suburbana, repentinamente rendida às maravilhas de um consumo para o qual não dispunha, de facto, de bases financeiras reais. Com a multiplicação do dinheiro de plástico – puramente virtual – e do crédito fácil, muitos portugueses – há que reconhecê-lo – passaram a viver acima das suas possibilidades. Foram a isso induzidos. Na verdade, foram assediados por cantos de sereia constantes. A banca não cessou de engordar por fora – e de se endividar por dentro. A bolha do mercado imobiliário inchou até ao mais que previsível estouro.

O essencial de tudo isto não aconteceu na era de José Sócrates, ao contrário do que alguns amnésicos gostam de insistir. Aconteceu nas décadas em que Cavaco Silva e António Guterres foram primeiros-ministros. Esse foi o período das oportunidades perdidas. E foi também o período das escolhas desastrosamente erradas cujos efeitos agora nos caem em cima.

E estamos nisto. Nesta fossa à beira-mar plantada. E compreendemos, de forma cada vez mais dolorosa, que o regime inaugurado a 25 de Novembro de 1975, com todas as suas opções estratégicas (ou com a ausência delas), chegou ao fim.

Permanecemos, no entanto, sem saber o que virá a seguir. Em grande medida porque os actores que dominam a cena política continuam a ser os mesmos que nos levaram ao poço sem fundo. O mundo em que eles se movem morreu, eles próprios estão moribundos, mas continuam a encher-se com a nossa carne, à maneira dos mortos-vivos. 

Uma resposta to 'Fim de ciclo'

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  1. aquivaidisto said,

    É o fim!
    É o fim!


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